domingo, 30 de novembro de 2014

Difícil manter os olhos abertos



Um homem a convidara para sair. Insistentemente. Isso fez com que ela se sentisse ainda mais grotesca. Ele era interessante e falava sobre o que faria com seu corpo quando estivessem juntos. Isso a excitou e enfureceu.

Odiava-o enquanto observava sua pele marcada no espelho. Não tinha coragem de olhar para o próprio corpo. No banho, sentia-se desconfortável, uma pressão leve na espinha. Não queria se tocar, ser lembrada do que era, de como era.

Nas poucas vezes em que se masturbava, compunhas pessoas impossíveis e quando sua própria imagem insistia em aparecer, mordia o travesseiro com nojo.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Porque quero me gabar de ter ido ao show do Jake Bugg :P

Com 20 aninhos o menino faz isso:








"There's A Beast And We All Feed It"


They grin but they don't mean it
They sing but they don't feel it
They're gone but they don't see it
They can call but they can't heed it
They think but they don't speak it

There's a beast eating every bit of beauty
And they all feed it

Stop
Moment, try to freeze it
They find and they don't seek it
At the bar but they can't meet it
Try their best but they can't beat it
Nice car, somebody keys it

There's a beast eating every bit of beauty
And yes they feed it

I'm not a finger pointer
I will not cry your name
For yeah brothers and sisters
We are one 'n' the same
But when my sister suffers
And when my mother cries
All I want to do
Is look in someone's eyes and say

You sleep and you don't dream it
You're sly but you don't seem it
You're busy as a flea pit
You struggle to perceive it
Is it hard to believe it?

There's a beast eating every bit of beauty
And yes you feed it

I'm not a finger pointer
I will not cry your name
For yeah brothers and sisters
We are one 'n' the same
But when my sister suffers
I am my mother's child
All I want to do
Is look in someone's eyes and say

Somehow we'd better speak it
We're scared someone will tweet it
It's on the wall but you won't read it
It's gone before you see it
We all dread to repeat it

There's a beast eating every bit of beauty
And yes we all feed it

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Porque é preciso mudar a cor



Uma pálpebra
mais uma, mais outras
enfim, dezenas
de pálpebras sobre pálpebras
tentando fazer
das minhas trevas
alguma coisa a mais
que lágrimas



Paulo Leminski

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Funcionária do mês


Sofia esperava sua carona, como costumava fazer às terças-feiras. Era normal que ficasse entre dez e quinze minutos de pé na calçada. A rua estava sempre cheia, sem lugar para estacionar, por isso ela chegava cedo. Aquele era um dia atipicamente frio e a moça sentia-se confortável vestindo meias-calças grossas, botas, blusa de lã e um casaco bem quentinho.

Não era fútil, mas gostava de estar bem vestida, penteada e maquiada. Não se achava bonita, mas sabia que tinha estilo. 

Ela gostava de observar as pessoas que iam e vinham naquela rua saturada de consultórios médicos. Era um passatempo. Sem se dar conta do inconveniente que causava, Sofia fixava o olhar em um transeunte e saía em disparada. Não importava que às vezes se esquecesse da educação e fizesse o oposto do que havia aprendido com a mãe, deixando o observado constrangido, isso não acontecia em seu mundo. Era dali para fora apenas.

Um alguém demasiado magnético atraiu Sofia de tal maneira que a moça permaneceu na mesma dimensão dos demais seres humanos por muito mais tempo do que se imaginava capaz.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Este é o meu corpo


Podia desenhar-te o que sou e seria uma folha branca, nua e fina, e tu perceberias. E encontrarias nela o vazio da tua história na minha, a solidão do espaço fechado que abrimos entre nós.




Filipa Melo

domingo, 16 de novembro de 2014

Convite






Maria Clara estava feliz, tinha recebido um convite de André. Trabalhavam na mesma empresa em departamentos diferentes. Logo que foi admitida reparou naquele homem meio calado. 

Demorou até que trocassem as primeiras palavras, somente após um ano de encontros pelos corredores ela conseguira estabelecer uma relação cordial. Falavam sobre o tempo, notícias do dia anterior e outras amenidades. Eram amigos no facebook.

Foi uma surpresa quando André mencionara a feira de artesanato programada para o dia seguinte na área reservada do restaurante. Ele a havia convidado. Uma colega de seu departamento era muito habilidosa com patchwork e ele achou que Maria Clara gostaria dos produtos.

Tão atencioso, Maria Clara estava feliz. Era aconchegante ser lembrada. Acordou mais cedo para escolher a roupa perfeita. Queria ficar bem, mas natural. Não poderia deixar transparecer todo seu empenho para criar o look. Passou a manhã inquieta, suspirando e olhando para os lados, não conseguiu nem fingir que trabalhava. No almoço, mal comeu. Depois de desistir do caldo de cebola e do suflê de alho-porró para evitar o mau-hálito, perdera o apetite. Perto da hora marcada foi ao banheiro, retocou a maquiagem, penteou os cabelos e perfumou-se. Sentindo que não conseguiria andar até o departamento de André, foi.
Resolvi começar