domingo, 16 de novembro de 2014

Convite






Maria Clara estava feliz, tinha recebido um convite de André. Trabalhavam na mesma empresa em departamentos diferentes. Logo que foi admitida reparou naquele homem meio calado. 

Demorou até que trocassem as primeiras palavras, somente após um ano de encontros pelos corredores ela conseguira estabelecer uma relação cordial. Falavam sobre o tempo, notícias do dia anterior e outras amenidades. Eram amigos no facebook.

Foi uma surpresa quando André mencionara a feira de artesanato programada para o dia seguinte na área reservada do restaurante. Ele a havia convidado. Uma colega de seu departamento era muito habilidosa com patchwork e ele achou que Maria Clara gostaria dos produtos.

Tão atencioso, Maria Clara estava feliz. Era aconchegante ser lembrada. Acordou mais cedo para escolher a roupa perfeita. Queria ficar bem, mas natural. Não poderia deixar transparecer todo seu empenho para criar o look. Passou a manhã inquieta, suspirando e olhando para os lados, não conseguiu nem fingir que trabalhava. No almoço, mal comeu. Depois de desistir do caldo de cebola e do suflê de alho-porró para evitar o mau-hálito, perdera o apetite. Perto da hora marcada foi ao banheiro, retocou a maquiagem, penteou os cabelos e perfumou-se. Sentindo que não conseguiria andar até o departamento de André, foi.

Assim que chegou à mesa do rapaz, lembrou-se que haviam combinado de se encontrarem na recepção. Disfarçou um pouco, fingindo-se dona de si e foi ligeira para o local correto. Chegando lá tentou parecer calma, rezou para que André não percebesse a insegurança em sua voz. Deu um beijinho no rosto do colega e não imaginou que o espirro dele se devesse ao exagero de seu perfume doce. 

Andaram calmamente até a feira de artesanato. Ele mantinha uma distância educada, afinal, era um cavalheiro. A conversa não fluía, decerto ambos estavam nervosos com as possibilidades do romance iminente. Maria Clara foi apresentada às colegas de André e o futuro casal começou a apreciar os itens expostos. Havia vários objetos inúteis. Capas para galão de água, toalhas de mesa e porta-trecos, todos decorados com motivos florais bem ao estilo casa da vovó. Maria Clara imaginava se André se divertia. Será que era esse o tipo de decoração que o agradava? Não sabia se estava disposta a viver em um ambiente tão brega. Seria um grande sacrifício, valeria a pena? Ele era muito bonito e cheiroso. Tão cheiroso. Maria Clara poderia ficar horas apenas respirando ao lado do rapaz e seria feliz. Imaginava-se acordando ao lado dele, trocando confidências, vivendo o romance que merecia. 

Ficaram na feira por quase uma hora, o maxilar da moça doía com tantos sorrisos forçados, suportava a tortura com resignação, tudo pela recompensa futura. Não comprou nada. Afinal, dinheiro é dinheiro.

Quando finalmente se despediam das tediosas senhoras, Maria Clara ficou confusa. Qual vai ser o nome do bebê? Ela olhou para os lados. Eram tantas vozes. Mais uma vez. Qual vai ser o nome do bebê? Não podia ser com ela, aquilo não fazia sentido. Sem saber como reagir a moça ficou com a cara da bunda que não tinha. Você está grávida? Temos mijoezinhos e culotes lindos. Não quer dar uma olhada nas peças? André riu. Mostrou sem pudor seus belos dentes numa gargalhada que parecia não ter fim. Ela engoliu o choro. Não, não estou grávida. Ah, mas esse vestidinho é de grávida. Toda grávida usa pra mostrar a barriguinha. Nunca imaginara que o prazer de seu adorado pudesse lhe causar tanta dor. Voltaram em silêncio. Ela cada vez mais encolhida. Ele com um sorrisinho constante, inebriado com sua humilhação. Despediram-se friamente. Nunca um dia fora tão comprido. Cada minuto durava infinitos enquanto Maria Clara pensava em seu corpo nojento e na crueldade das pessoas. 

Na volta para casa, quase bateu o carro e chorou quando foi xingada pelo motorista ao lado. Não tomou banho, vestiu o pijama sem tirar as bijuterias escolhidas com tanto cuidado naquela manhã. Passava os canais. Novela, não. Jornal, não. Filme, não. Tudo tão cheio de romance e dor. Terminou seu dia assistindo vídeos da Galinha Pintadinha enquanto comia bolo de chocolate com sorvete. Desde então, nunca mais disse bom dia.

2 comentários:

  1. Adorei!!! A Maria Clara poderia ler o blog Lugar de Mulher, continuar linda, se arrumando e se maquiando e ignorar as invejosas, tipo as mulheres da feirinha...http://lugardemulher.com.br/autoestima-por-que-me-abandonaste/

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    1. Obrigada, Cris!! É isso mesmo. Eu adoro o lugar de mulher!! O mundo não vai cuidar de nós, nós é que precisamos aprender a nos gostar e nos proteger.

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