segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Funcionária do mês


Sofia esperava sua carona, como costumava fazer às terças-feiras. Era normal que ficasse entre dez e quinze minutos de pé na calçada. A rua estava sempre cheia, sem lugar para estacionar, por isso ela chegava cedo. Aquele era um dia atipicamente frio e a moça sentia-se confortável vestindo meias-calças grossas, botas, blusa de lã e um casaco bem quentinho.

Não era fútil, mas gostava de estar bem vestida, penteada e maquiada. Não se achava bonita, mas sabia que tinha estilo. 

Ela gostava de observar as pessoas que iam e vinham naquela rua saturada de consultórios médicos. Era um passatempo. Sem se dar conta do inconveniente que causava, Sofia fixava o olhar em um transeunte e saía em disparada. Não importava que às vezes se esquecesse da educação e fizesse o oposto do que havia aprendido com a mãe, deixando o observado constrangido, isso não acontecia em seu mundo. Era dali para fora apenas.

Um alguém demasiado magnético atraiu Sofia de tal maneira que a moça permaneceu na mesma dimensão dos demais seres humanos por muito mais tempo do que se imaginava capaz.


Provavelmente era um mendigo. Estava sujo, fedia. Alto, magro e grisalho. Um cigarro nas mãos. Aquele era um bairro nobre, mas moradores de rua eram comuns. Estavam em toda parte, mesmo invisíveis. O homem tinha um olhar raivoso que Sofia imaginava costumeiro em pessoas naquela condição, no entanto foi sua vestimenta que chamou a atenção da moça. Era uma camiseta preta, justa e curta, acompanhada de jeans surrados e chinelos de dedo. Ele deveria estar com frio. Não era raro de se ver em dias assim. Crianças só de shorts. Gente morrendo de frio nas ruas de São Paulo. Coisas da vida. 

Achou que deveria entregar ao homem seu casaco. Ela ainda ficaria com a blusa de lã, além disso, em casa possuía várias peças quentinhas no guarda-roupa. Pensou que o mundo estava mesmo muito errado. Como é que conseguíamos viver sabendo das crianças africanas, das mulheres afegãs, dos conflitos na Palestina, da destruição do meio ambiente? Não era capaz de resolver nenhum desses problemas, entendia porque os seres humanos escolhiam alienar-se, pois ela também o fazia. Mas, e quanto à criança pedindo dinheiro no farol? A família que perdera tudo na enchente, bem ali, ao seu lado.

Sentiu-se culpada e, imediatamente, pensou que não deveria se sentir tão culpada e mal com o mundo. Era sim uma boa pessoa. Em seus sonhos de riqueza, como única ganhadora do acumulado da loteria, na qual nunca jogava, sempre reservava uma parte do dinheiro para a família e outra para projetos de caridade. 

Estava decidida. Sofia entregaria seu casaco ao mendigo. A decisão fez com que se sentisse bem. Uma boa pessoa. Imaginou-se chegando ao trabalho com apenas uma blusa fina de lã. Decerto perguntariam se ela não sentia frio. Responderia que sim, sentia muito frio, mas havia sido inevitável. Imaginou-se relatando os fatos humildemente. Imaginou a surpresa e admiração dos colegas. Imaginou a notícia se espalhando pela firma. Imaginou sua reputação de pessoa generosa e abnegada crescendo. Pediriam conselhos a ela. Acatariam sua opinião. Alguns teriam inveja, mas é preciso aprender a lidar com energias negativas.

Enlevada em sonhos resultantes de sua boa ação, Sofia não percebeu que o homem, agora do outro lado da rua, já vestia um casaco. Também não percebeu a garota que habilmente vasculhou sua bolsa e dela retirou um celular, o qual, naquela manhã, Sofia havia vestido com uma capinha do Mickey, a sua favorita.

Um comentário:

  1. Gostei muito... Enxerguei-me na própria Sofia.

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