sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Ainda bem... eu nem queria mesmo








Ser mulher não é fácil, Denise sabe muito bem. Parecia-lhe que o ódio e a violência estavam mais aflorados nos últimos anos. Não que antigamente fosse melhor, não era dessas, é que antes tudo era considerado natural, as coisas eram feitas sem o franzir de testa que acompanha atos repreensíveis. Impressionante como as pessoas agem sempre da mesma forma. Sabia tantas histórias. Algumas delas, muitas na verdade, eram engraçadas. Uma de suas preferidas era a da meia.

Jéssica, amiga de Denise, conheceu três homens num show. Quando recebeu uma ligação de um número desconhecido, imaginou que fosse um deles e respondeu acaloradamente mesmo sem ter certeza de seu interlocutor. Até hoje ela não sabe quem era, mas se comunicaram por algumas semanas. Ele perguntou se ela usava meias, perguntou que tipo de meias ela gostava de usar, perguntou também que meias ela estava usando enquanto conversavam. Ela desligou, ele não se deu por vencido e ela teve medo, talvez a conhecesse, talvez soubesse de sua rotina. Nesse período Jéssica tinha mente sempre muito cheia de meias. Enfim o tédio foi maior que o receio e ela bloqueou aquele número. Foi assustador, mas também engraçado. Denise não tinha uma história assim.

Fernanda conheceu Renato em um bar e eles começaram a sair. Ela estranhou quando ele disse que não conseguia ficar sem sexo e que só faria sexo com a mulher de sua vida. Aquilo não fazia o menor sentido, será que ele fazia sexo com homens, então? Quando Renato a adicionou no facebook, ela entendeu. Ele era completamente maluco, gravava vídeos intermináveis reclamando sobre tudo sem saber de nada. Discutiram, Fernanda era feminista e razoavelmente segura, não tinha paciência. Ele mandou uma mensagem dizendo que ela o havia humilhado e desprezado, merecidamente. Disse também que queria ser humilhado daquela maneira por toda a vida. Por fim, disse que seu pau e seu coração ardiam por Fernanda. Ela nunca mais voltou ao bar em que se conheceram. Renato malhava todo dia. Fernanda aprendeu a lição, nunca pegue um cara que tem o peito maior que o seu. Nada de parecido havia acontecido com Denise. 

Beatriz tinha um admirador secreto. Todos os dias, quando voltava do almoço do curso de sábado encontrava uma rosa e um poema em sua mesa. Anônimos. Anderson sentava do outro lado da sala e tinha uma visão privilegiada da moça. E toda a sala tinha uma visão privilegiada dele. Ele se sentava de lado, encostado à parede para observá-la melhor, abaixava o queixo, arregalava os olhos e passava o dia admirando-a com as faces rubras. Os poemas graciosos tornaram-se apaixonados, ardentes, depois viraram ofensas, desesperos, súplicas. Sempre anônimas. No último dia de aula, Beatriz encontrou uma barata morta em sua mesa. Sem poema. Ninguém nunca vira Anderson piscar. Denise largou a faculdade antes de terminar o segundo ano.

Denise entendia que esses homens não enxergavam o outro. Empatia zero. A lembrança de todas as conversas que tivera sobre bizarrices veio à tona por causa do metrô. Assédio era o assunto do momento, pênis pra fora, facas, vídeos, até orgasmos múltiplos pareciam acontecer no apertadinho das seis da tarde. Falava-se em vagões rosa, roupas provocantes, mulheres provocantes, mulheres. Nas redes sociais só se falava nisso, alguns davam conselhos sobre como evitar o assédio, alguns ridicularizam os conselhos sobre como evitar o assédio, alguns diziam que as mulheres estavam pedindo e outros se contorciam de raiva. Um horror, ninguém falava sobre quem cometia tais assédios, Denise sempre dizia. 

Em meio a tanto calor, Denise pensou naquela vez, há muitos anos, quando pegava o trem todos os dias. O vagão estava lotado, como sempre. Perto da porta havia uma mulher, não era estonteante, mas também não era feia. Usava roupas normais, não eram largas nem apertadas, um jeans básico, uma blusinha, tênis. Ao lado dela havia um homem também normal, roupas normais, aparência normal, nenhum luminoso em cima da cabeça piscando pervertido nem nada assim, mas ele passou a viagem inteira se encostando nela. Habilidoso na arte do assédio, ele não apertava demais, nem ficava mexendo a mão. Nessas situações tem sempre alguma coisa encostando em outra. Podia ser uma mochila, uma bolsa, um isopor, qualquer coisa. Denise viu aquilo e ficou indignada, achou que devia falar algo, mas imaginou como a mulher se sentiria. Vergonha, raiva, humilhação, impotência. Deveria falar? Não sabia o que fazer. Deveria gritar bem alto, perguntar se ele não tinha vergonha na cara? Pensou tanta coisa, sentiu mais ainda, mas não falou. Ficou quieta, paralisada sem saber por quê. 

Lembrou-se de tudo isso no metrô, dentro de um vagão lotado e quente e, quando voltou a si, percebia com muito mais agudeza todos os movimentos daquele lugar. Olhou para trás, imaginando-se agredida. Olhou uma, duas, três vezes. Era apenas uma mochila, uma sacola, até um travesseiro, mas nunca uma mão, nunca nada pior. Denise não era assediada, graças a Deus. Denise não tinha uma história para contar.

5 comentários:

  1. Eu me apaixonei por essa foto que você colocou. Rosaaaaaaaa!! :O :O
    Gostei demais do jeito que se dedica ao blog, parabéns viu? Muito sucesso sempre, e eu já estou te acompanhando! Beeejus lindona!

    www.doceencontro.com

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    1. Nossa, que comentário lindo de ler! Fiquei muito feliz, obrigada!!!

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  2. Só de eu acessar a página do conto, já estou te ajudando com o concurso, ou tenho que fazer alguma coisa na página?

    Ruama

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    1. Só de acessar já ajuda, mas se vc puder recomendar é melhor ainda :D
      Pra isso precisa ter cadastro, pode entrar com o facebook mesmo!

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  3. Gente, você é uma delícia! Muito bom

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