domingo, 14 de dezembro de 2014

O silêncio dentro






Era o terceiro dia seguido e Raquel não aguentava mais aquela voz alta, sem pausas, exigente. Era um cliente menor e ela ficava responsável pela desagradável tarefa de atendê-lo, por dinheiro. Por dinheiro servia café nas reuniões, apesar de qualificada demais para a tarefa que exercia sem nenhuma habilidade. Ao menos não tinha que fazer o café, após cinco tentativas fracassadas, desistiram de delegar a ela o preparo da bebida. Pedia o almoço deles todos os dias, por dinheiro também.

Estudou tanto, nem se lembrava de quantas vezes deixara de sair aos finais de semana por isso. Investiu em cursos, especializações, livros. Para servir café. Não se importaria em realizar atividades aquém de seus talentos, entendia que nem todos podiam ser o vocalista da banda. Se ao menos pudesse acreditar na relevância do produto final.

Não. Trabalhava para enriquecer pessoas estúpidas, que propagavam ideias estúpidas, impondo sua estupidez ao mundo. Todas as vezes que pegava naquele bule, sonhava em fazer como nos filmes, derramando o líquido lentamente no colo de um chefe estupefato e saindo em busca de uma vida relevante. Aí se lembrava da conta de luz, atrasada de novo, do remédio de quase 450 reais de sua mãe, fornecido pelo governo, mas sempre em falta. É por isso que sorria enquanto aqueles homens olhavam suas pernas e aquelas mulheres, suas roupas. Algumas mulheres olhavam suas pernas também.

A cada sorriso a abertura de seus lábios ficava menos larga e quando deixava o escritório, já tinha gastado tudo, não havia sorrisos sinceros, todas as energias expendidas nos falsos. Quem nunca se sentiu assim? Mas nessa hora não tinha mais pensamentos para entender a mesmice de tudo, nem para sair um pouco que fosse dela.
Em casa fingia ouvir as queixas da mãe, gostaria de ajuda-la, mas estava tão cheia de suas próprias frustrações que, se abrisse a boca, seria para dizer que ela tinha razão, deveriam acabar com aquilo o mais rápido possível, assim que juntassem um pouco de energia para pegar os remédios ou ligar o gás ou os dois, quem sabe. Não falava nada disso, falava cada vez menos, com muito custo aprendeu que as pessoas não querem ouvir, nem mesmo quando fazem perguntas, nem mesmo quando te amam. Aprendeu a movimentar a cabeça de forma sutil, aprendeu a apontar, a abaixar os olhos, aprendeu a sorrir.

O silencio também estava dentro. Raiva, tristeza, desdém, tudo virava uma coisa só, como quando se faz pão e óleo, água, farinha, sal, temperos, tudo se transforma numa massa que em nada lembra seus componentes iniciais. Gostava de pão, estava na hora do almoço e ela quase podia sentir o cheiro do restaurante lá embaixo, era dia de massa, mas Raquel levava marmita e, após encomendar o almoço dos digníssimos, sentava-se na cadeira de plástico da copa e engolia o arroz com feijão amanhecido e o pedaço de carne dura que trazia de casa. A água era fornecida pela empresa, riu pensando nas campanhas publicitárias. Quando via os comerciais tinha vontade de jogar uma pedra na TV, pedra não, um tijolo, que era maior, mas não jogava, nem tinha terminado de pagar.

No escritório percebia o mesmo desespero apático em todos os olhos, até nos bem sucedidos, cada um com pequenas variações, alguns cheios de revolta, outros mesquinhos, todos sem escape. Ao pé da escada, sentava uma mulher cujos olhos pareciam iguais aos seus, derrotados, sentia ali uma irmã, mas não falava nada porque já estava muda. Quando Casavelha cruzou o caminho das duas, seus olhos se encontraram e se entenderam no nojo que sentiam. Raquel sorriu resignada, sem dentes. Leila falou. Disse que não suportava mais os abraços paternais daquele homem e elas passaram a almoçar juntas. Engoliam apressadas a comida sem gosto e sentavam-se no muro da esquina, vomitando angústias, desejos, fracassos. Leila era a recepcionista do setor, competente demais para a função que exercia, ainda morava com os pais idosos e extremamente conservadores.
Não há nada como reclamar anos de palavras acumuladas. O assunto, que era sempre o mesmo, parecia não ter fim, mas com o tempo as raivas represadas foram se desfazendo e junto às reclamações diárias, essas nunca acabariam, as duas começaram a falar de ideias, mudanças, quase soluções em meio ao absurdo do dia a dia. Animavam-se com as possibilidades para logo depois serem derrotadas pelo conhecimento do mundo. 

Encontrar um igual ameniza os fracassos e Raquel sentia-se um pouco menos morta desde que conhecera Leila. Começou a prestar atenção no que diziam enquanto servia o café nas reuniões intermináveis para poder comentar no almoço. A cada dia aumentava a certeza de que poderia exercer qualquer função ali e seria muito mais bem sucedida que seus titulares. Aquelas pessoas eram tão estúpidas que tornavam árdua a tarefa de não se sentir superior.

As duas se divertiam ridicularizando aqueles seres tão arrogantes. Quando Raquel notou um erro crasso de português no pôster da campanha publicitária, contou tudo à Leila e perguntou o que fazer. Deveria avisar alguém ou continuar a insossa que todos viam nela e ficar calada?

Depois de muito incentivo, falou. Escolheu o publicitário que parecia menos ciente de sua existência e recitou o texto elaborado com todo o cuidado de que era capaz. Deu certo. O cliente em questão era importante, por isso houve muitas demissões sem sentido na tentativa de manter o dinheiro na empresa. Também deu certo, algumas vagas abriram e fizeram uma seleção interna para as posições mais delicadas. Por fim algo parecia caminhar na direção correta, a de Raquel. 

Participou de dinâmicas, fez desenhos de árvores, pessoas, risquinhos. Venceu todas as etapas, faltava a entrevista com o possível chefe, ele era uma incógnita, havia servido café em sua sala algumas vezes, mas aquele era um homem bastante difícil de ler, Raquel nunca conseguia imaginar o que se passava na cabeça dele. Rodrigo parecia diferente, era estranho o jeito como olhava para os outros, como se estivesse interessado no que vinha de lá. 

Raquel começou sem jeito, mas sentia-se segura a cada nova pergunta e após dez minutos de entrevista já conversava sem preocupações. Falou sobre Leila, era inevitável, sua amiga era uma das únicas coisas boas ali. Falou demais, quando deu por si Rodrigo parecia muito mais interessado em Leila do que nela própria. Ela merecia uma vida melhor, merecia uma carreira, merecia uma chance. 

Raquel não sabia o que dizer quando ouviu a pergunta. Sim, Leila possuía muitas qualidades e desempenharia muito bem uma eventual nova função, tudo que dependesse dela seria perfeito. Perfeito. É claro que imprevistos acontecem e ninguém condenaria Leila, caso ela se ausentasse devido a problemas com seus pais idosos ou por causa de um novo surto do irmão esquizofrênico. Esse era o tipo de coisa que fugia ao controle, qualquer um entenderia, assim como Luís havia entendido e relevado todas as escapulidas da moça em seus dois anos de empresa. Rodrigo pareceu concordar, qualquer um entenderia, era realmente uma situação difícil. 

A entrevista mudou de rumo e falaram sobre diversos aspectos do novo cargo. Foi um sucesso, quando Raquel saiu da sala do novo chefe era hora do almoço.

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