quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Terra



Olhava a terra se movendo sob seus pés. O chão parecia seco, mas no movimento surgia a umidade. Folhas, sujeira, pedras, pedaços de pão. Não gostava de pureza, terra presa em vaso. 

Seu entre-dedos sorria de cócegas e mexia cada vez mais, as unhas ficando pretas, os pés ganhando cor. A sensação era de muitas coisas em uma só. Uma vida secreta escondida debaixo de uma toalha. Sobre a mesa, um piquenique. Ao redor, crianças perseguindo galinhas e seus filhotes. 

Apenas um parque – árvores, gentes e bichos. 

Via raízes invadindo o concreto e se espalhando pelo mundo. Imagem comum, sedutora demais para mentes cansadas. 

Respirava, diferente – deixar-se ser. A realidade era uma grande caixa cinza após longos caminhos cinzas. Uma vida de pó. 

Gostava de observar os animais. Sabia que a natureza não é cintilante. Via com certa dor a crueza da vida. 

Mas era vida. 

Buscava o mesmo em sua humanidade – uma leitura clara. 

Gostava de olhar: a natureza não estava lá e ela estava, cansada. 

Decidia. Fincar os pés, não mais apenas provocar. 

Seria alguém que também é terra.






terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A vida sempre sem graça de Sandra



Tinha sido um ano bom. Não ficara o tempo todo trancada dentro de casa. Finalmente superara o medo de dirigir, há oito meses usava o carro quase todos os dias. Com oito anos de carta, era uma motorista inexperiente. Não importava, agora se virava no trânsito. 

Sandrinha era muito tímida. Atividades as mais banais a torturavam. Parecia uma adolescente. Morria de vergonha de perguntar o preço das coisas. Pedir uma pizza então era tarefa impossível. Era incapaz de manter uma conversa por mais simples que fosse. Nem sobre o tempo conseguia falar. Sentia-se sempre inadequada. 

Não havia jeito. Era a vida. A vida sempre sem graça de Sandra.

Um dia a inadequação se intensificou. Não pega bem ir ao trabalho depois de três dias sem tomar banho. Nem chegar ao escritório de chinelo. Cada vez mais esquisita, Sandra foi obrigada a procurar um médico. O primeiro remédio não funcionou, o segundo também. O terceiro, depois de três doses aumentadas, surtiu efeito. Vieram insônias e enxaquecas. Sem problemas, agora Sandrinha invariavelmente calçava sapatos apropriados.

Depois das sete pílulas diárias de três espécies diversas, Sandrinha estava em paz. Nunca chorava mais que duas vezes por semana escondida no banheiro do escritório. Sentia-se forte. Deixava o serviço em dia. Começou até a usar maquiagem. Todas as manhãs rebocava o rosto na tentativa de esconder rugas que ainda não se tinham formado.

Quase conseguia sorrir. Num domingo de tédio resolveu mandar uma mensagem para uma amiga do ensino médio. Não, não. Amiga é um termo muito forte. Uma colega do ensino médio. Logo se arrependeu. Tarde demais. Iriam se encontrar na semana seguinte. 

A tortura durou sete dias. Na adolescência, não era nada demais. Não tirava notas ruins. Nem boas. Não era popular. Não bebia muito. Não fazia parte de nada. Não fazia nada. A colega também era dessas. Sandra soube que se casara. Tinha feito alguma coisa. Trabalhava também. Devia ganhar mais que ela. Sobre o que conversariam? Não teriam nada em comum. Nem antes tinham. Eram apenas as sobras.

No dia do encontro acordou com palpitações, sem falar na dor de barriga. Sandra seria lembrada de todos os seus fracassos. A colega era um pouco sem graça. Muito comum, na verdade, mas ultrapassava Sandra em todos os sentidos. Sabia que se sentiria mais feia, mais chata, mais burra e mais inútil que normalmente. Tentou imaginar uma desculpa boa. Não teve criatividade para tal. 

Marcaram na catraca da estação. Aquele lugar tão amplo e tão lotado deixava Sandra tonta. Chegara vinte minutos antes da hora, tinha se esquecido do hábito da colega de sempre se atrasar e estava impaciente. 

Meia hora depois, Sandrinha sorriu. Quase não enxergava a jovem de outrora na mulher caminhando em sua direção. Ela estava gorda. Almoçaram, andaram pelo shopping, tomaram sorvete. Relembraram histórias nunca vividas. Durante toda a tarde Sandrinha sorriu. Tati, era esse o nome da colega, estava casada e tinha dois filhos. Atendente de telemarketing, trabalhava fora por meio período. No restante do tempo, servia ao marido e às crianças. Mentia-se feliz e, a cada mentira da outra, Sandrinha se sentia mais forte, mais capaz, mais cheia de vida. Nunca uma tarde havia sido tão revigorante.

Na semana seguinte, ao receber o pagamento, Sandrinha foi ao cabeleireiro e pediu um corte que diminuísse o frizz de suas mechas indefinidas. Saiu satisfeita, não bonita. Sua confiança só aumentava. Olhando uma vitrine próxima cobiçou um vestido. Ele era rosa-choque com grandes flores verdes pintadas com primor. Era um tubinho. Sandra hesitou, aquela roupa vibrante não combinava com seu jeito bege de ser. Ia embora e então se lembrou. Gorda. Tati era gorda. Era gorda e usava vestidos curtos e saltos altos. Comprou a peça e a usou para ir ao trabalho.

O sucesso fez com que se sentisse encorajada. Notou olhares. Um segurança do prédio a fitava descaradamente. Sandrinha decidiu que era hora de conhecer alguém. Não podia mais negar sua sexualidade. Era um ser sexual. Precisava de calor. Precisava de sexo. Não era ingênua, sabia que sua beleza não faria com que fosse cortejada. Teria que tomar a iniciativa.

Passou a tarde no banheiro do escritório tentando expelir seu medo de rejeição. O desespero entrava e saía em ondas violentas que se formavam em seu abdômen. Não podia murchar antes mesmo da primeira flor. Pensava e pensava, buscando uma solução. Superar a timidez não soava como realidade possível. 

Voltou à mesa do escritório. Desanimada, desgostosa, desesperançada. Lembrou-se do vestido. Tão lindo. Tão perfeito. Não. Não podia desistir. Em casa, vasculhou a internet à procura de uma salvação. Psicólogos. Sites de relacionamentos. Florais de Bach. Praias de nudismo. Rituais de umbanda. Simpatias do pai Didi. Nada disso servia. Cansada, com fome e dores nas costas, Sandra estava prestes a desistir e se jogar na cama com seu melhor amigo, um cachorro de pelúcia chamado Ted, quando leu uma sugestão interessante. Aulas de teatro.

Passou uma semana entre sonhos de estrelato em horário nobre e períodos no mais privado dos cômodos de qualquer residência ou estabelecimento comercial. Por fim decidiu-se. A escola, ou melhor, academia de teatro era caríssima. Sandra não se importou, sabia que nenhum valor era alto demais quando se tratava de buscar a felicidade. Pagou uma parte no débito e o restante, parcelou no crédito. As aulas começariam no mês seguinte.

Sandrinha brilhava, não só devido ao óleo acumulado em sua face, mas também ao gozo futuro e imaginado. Cantava alto enquanto dirigia pela marginal. Estava feliz. Tão feliz que não viu o carro da frente parar de forma brusca. Nem o caminhão se aproximando de seu pequeno Fiat.



domingo, 22 de novembro de 2015

Aula



Já na faculdade e ainda virgem. Fabíola não se incomodava muito, mas preferia não falar nada. As pessoas achavam um absurdo que aos 19 anos ela nunca tivesse beijado. Não era puritana. Era tímida. Só isso. Tivera vontade, não tivera coragem. Acreditava que nunca ninguém houvesse se apaixonado por ela, da mesma forma que nunca havia se apaixonado por ninguém. Não gostava muito de meninos. Não gostava muito de meninas. Na verdade, achava que as pessoas eram meio desinteressantes. Preferia não. 

Viveu bem. Sem grandes dramas. Escolhera o curso de biologia. Parecia lógico, já que não se sentia atraída pela ideia de interagir com outros seres humanos. Não sabia que provavelmente teria que dar aulas, lidando com um tipo especial de seres humanos – estudantes.

Até que gostava da faculdade. Tirava boas notas, menos nos trabalhos em grupo. Fazia-os sozinha e até repetira por isso. Achava que pessoas como ela, que não ligavam muito para pessoas, seriam comuns ali. Não era o caso. Decepcionante, tinha que admitir. 

Logo, como de costume, ganhara fama de estranha. Nunca achavam que era maluca, apenas estranha. Não sabia se gostava ou não do destaque. Tudo bem. Não sabia se era tímida ou não. Tudo bem. Não sabia se ligava ou não de não saber. Vivia sua vidinha fazendo suas coisinhas. Pronto.

De uma certa forma, era desenvolta. Andava pela faculdade como se fosse sua casa, sabia onde estavam todas as coisas nos laboratórios, na secretaria, em todos os recintos e salas. Ninguém estranhava a presença de Fabíola nesses lugares. Era como se ela estivesse sempre ali. Parte da paisagem.

Entrou no armário à procura de uma escada. Queria subir em uma árvore que conhecera. Adilson, o segurança, estava lá. Fabíola não sabia que o nome dele era Adilson e Adilson não sabia que o nome dela era Fabíola. 

Sem saber ou sem querer saber porquê, Fabíola sorriu um sorriso lindo, Adilson pensou. O armário era apertado e enquanto ele tentava dar passagem para que ela chegasse até a escada e ele chegasse até a porta, seus corpos se tocaram. 

Fabíola parou. Segurou o braço de Adilson que, constrangido, não fazia contato visual e tentava se mover sem deixar vestígios. Ela segurou aquele braço como se nunca tivesse se deparado com nada parecido. Com curiosidade de cientista, tateava-o, tentando compreender. Adilson a olhava fixamente quando ela deslizou a mão esquerda e sentiu o membro enrijecido. Membro? Riu da palavra. Pênis? Pinto? Pau? Salsiiiiiicha. Antes que Adilson expressasse o que quer que fosse, Fabíola abaixou suas calças. Depois, abaixou as dele. 

Sua xoxota é tão quentinha. Fabíola riu. Muito alto. Quando Adilson tentou tapar sua boca, ela o mordeu. Ninguém estragaria o momento. Não durou muito. Mas também durou para sempre. 

Na semana seguinte, Fabíola repetia incansavelmente. Xoxota. xo – xo – ta. x – o – x – o –t –a. Xoxóta. Xoxóoooota. 

Pelo resto da vida, Fabíola trabalhou com biologia. Foi pra Sabesp, pra Amazônia e pra Recife. E pelo resto da vida buscou pessoas que lhe dissessem xoxota. E sempre que ouvia e sempre que dizia, lembrava-se. Xo – xo –ta. Tinha uma xoxota e a amava.

Era feliz.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O quarto andar

O preto, a gorda e o viado sempre almoçavam juntos e era bom. O viado comia muitas salsichas, o preto comia arroz, feijão, macarrão e ovo frito, e a gorda comia todo o resto.

O preto, a gorda e o viado não gostavam da vadia porque achavam que ela tinha dado para o chefe e, por isso, recebera a promoção. Eles estavam errados, a vadia nunca daria para alguém como o chefe. Ela dava para o manobrista e gostava muito. Ele também gostava muito, mas nunca largaria a esposa, e a vadia achava certo.

O chefe havia promovido a vadia porque ela era gostosa e ele queria comê-la. Ele também achava que os clientes todos também desejariam comê-la e isso seria bom para os negócios.

O chefe não gostava do preto porque ele era preto, não gostava da gorda porque ela era gorda e não gostava do viado porque ele era viado.

O viado gostaria de comer o chefe. O viado era sempre ativo porque achava dar o cu muito humilhante. No fundo, o viado gostaria de dar o cu para o chefe e o chefe gostaria de dar o cu para o viado – não daria certo.

O viado não gostaria de comer o preto porque tinha medo que ele risse do tamanho de seu pau. Não era muito pequeno, mas era um pau de branco, nunca poderia se igualar. O viado não sabia que o preto tinha um pau de tamanho normal. Pequeno para um preto, normal para um branco.

O preto gostaria de comer a gorda, a vadia, o viado e o chefe, todos ao mesmo tempo, de preferência, mas era evangélico e acreditava nas palavras do pastor que dizia que pobre era pobre porque desagradava a Deus e que viados e vadias iam todos para o inferno. O inferno é ruim, aparentemente, apesar de estar cheio de viados e vadias.

O preto não entendia muito bem, mas o inferno era um lugar de sofrimento, de mais sofrimento que  a terra, onde ele não podia comer nem viado nem vadia. O céu era um lugar bom. Ele esperava que lá pudesse comer todo mundo, com a benção de Deus.

A gorda até que faz bastante sexo. Ela sempre escolhe gordos mais gordos que ela. Se não os encontra, escolhe alguém bem estranho. É uma questão de princípios, gosta de se sentir superior.

A gorda, quando vê a vadia comendo seus palitinhos de cenoura, faz questão de passar em frente à mesa dela com um grande pedaço de bolo com cobertura de chocolate. A gorda gosta de esfregar sua felicidade de gorda na cara dos outros, considera uma espécie de educação pela pedra.

A vadia se orgulha de ser gostosa de verdade, com carne nos lugares certos. A vadia também se orgulha de nunca usar suas carnes para subir na vida. Seu corpo existe apenas para seu prazer e para o prazer do outro, quando ela assim o decide.

A vadia gosta muito de ler romances eróticos para ver como o resto do mundo é ruim de cama. Ela se considera muito boa, mas não é, porque não sabe fazer a sucção e se esquece das bolas. Ela também não presta atenção em detalhes que importam, como mamilos, pontinhas de orelhas e aquela parte no fim das costas, no não-lugar entre elas e o ventre.

Um dia, estavam o preto, a gorda, o viado, o chefe e a vadia todos juntos no elevador, e ele parou de funcionar. Foram duas horas de respiração no escuro. A vadia achou a gorda cheirosa e ficou com vontade de perguntar o nome de seu perfume. O preto imaginou que finalmente se comeriam uns aos outros e ficou de pau duro. A gorda ficou cansada e quis se deitar. O chefe imaginou-se encoxando o viado por engano, achando que era a vadia, e ficou de pau duro. O viado desconfiava estar apaixonado, o que lhe causava problemas de ereção, e seu pau não endureceu.

Ninguém fez nada e nem comeu ninguém.


domingo, 1 de novembro de 2015

Elas


Foi bom, mas ela era gorda. Ela era gorda, mas foi bom, diz o primo na festa da família e os outros querem saber mais e ele diz mais. Ela era gorda, mas foi bom. Foi bom, mas ela era gorda. E Maiara quer chorar. Ela também é gorda e imagina que outros falam assim sobre ela. Não os primos, para os primos, Maiara é Maiara apenas. Uma pessoa, não uma mulher. Como as mães, as suas, é claro, não as dos outros.

Você tem um rosto tão bonito, escuta sem responder à ofensa velada. Entende muito bem o ‘mas’ implícito nesse tipo de colocação. Olha-se no espelho, só o rosto descoberto. A parte de si que talvez se salve. E o grande ‘mas’ permeando tudo do pescoço para baixo. Saias longas, mangas compridas, roupas largas, sapatos fechados. Tudo na tentativa de esconder o que mais se evidencia. Já aprendeu a não enxergar o grande espelho no banheiro.

Cores, joias, maquiagem. Tudo muito feminino. Nem sabe se gosta. Só sabe que se cansou de ouvir que, se além de gorda, for desleixada, aí não dá. Se cansou e foi vencida. Sempre pensa nas mulheres naturalmente bonitas, elas podem ser desleixadas e viverão sem críticas, ainda serão bonitas, femininas.

No apartamento ao lado, Jéssica ouve os tios. Mulher tem que ter onde pegar. Essas modelo aí é tudo tábua, que graça tem? Jéssica não tem graça. Ela não é apenas magra. É esquelética. Não tem peito nem bunda. Parece um menininho, como já ouviu dizerem. Se fosse gorda. Não gorda, gorda. Gordinha. Teria peito, bunda, coxas, lugares onde pudessem pegar. Não tem, nunca terá. Já tentou comer bastante pra ver se alguma coisa mudava. Não mudou. Continuou magra. A única diferença foram as dores de estômago.

Sonia, tia de Jéssica, finge que não nota os olhares do marido em direção à amiga da filha. 15 anos! Uma criança, mas Sonia não vê. Sonia sente raiva, inveja. Aquela menina cheia de espinhas, de gordurinhas, atrai sem querer a atenção de seu marido quando ela tenta tanto e não consegue. Olha as rugas no espelho e pensa que se fosse mais jovem, tudo seria diferente.

No andar de baixo, Larissa entra em desespero. Está saindo com Guilherme há três meses. Ele fez de tudo para conquista-la. Ela é muito bonita. Loira, alta, magra, jovem. Peitos, bunda, coxas. Ela sabe disso. Todos sabem. Larissa é bonita e chora quase sem respirar. Apaixonou-se por Guilherme ou talvez pelo desejo que tinha por ela.

Ela sempre se cuidou. Academia, cremes, dieta, perfumes. Não sabia o que fazer. Guilherme nunca havia feito sexo oral nela. Ela gostava, mas não tinha coragem de pedir. Mas queria tanto, no último mês só conseguia se masturbar pensando nisso. Não dizia nada, mas tentava criar situações propícias, enfeitava-se como nunca. Nada. Não adiantava, mas Larissa queria. Queria tanto que um dia, timidamente introduziu o assunto.

Depois de muita insistência, ele confessou. Disse que não era que não gostasse. O problema era o cheiro. A vagina de Larissa exalava um odor nauseante. Ele não podia suportar.

Larissa ficou desesperada. O que poderia fazer? Foi a um ginecologista e um dermato. Segundo eles, não havia nada de errado com seu corpo. Será que era uma porca? Pesquisava e pesquisava jeitos de eliminar cheiros. Pensava em todos os homens com quem saíra. E eram muitos. Será que todos eles tinham notado? Meu Deus, que vergonha.

Larissa estava tão desesperada que não conseguia pensar. Se conseguisse, lembraria-se de que Guilherme nunca havia chegado perto o suficiente para sentir qualquer cheiro.

No apartamento ao lado do de Larissa, morava um traveco. Na lista de ofensas, essa era das mais insignificantes. Verônica, com muito custo, pagara por seus peitos. Adorava-os. Também tomava hormônios que comprava de um Argentino. Mesmo assim, ainda tinha que fazer a barba todos os dias.

Verônica era prostituta. Prostituta não, traveco. Era tudo o que permitiam que fosse. Não queriam deixar, mas Verônica era mulher. Sempre fora mulher. Nascera com um pênis e vivia com um pênis, mas era mulher. E, portanto, estava errada. E seu corpo não era seu. E o discurso sobre seu corpo não era seu.

Verônica, como todas as outras, não sabia. O problema não é ser gorda, magra, alta, baixa, jovem, velha. Ser bonita ou feia. Burra ou inteligente. O problema também não é ter um pênis. O problema é ser mulher.

E se Verônica soubesse. E se as outras soubessem, poderiam começar a se libertar.


Mas elas ainda não sabem. 

domingo, 25 de outubro de 2015

Almas Ingênuas



Luísa amava Igor, nada mais natural, eram perfeitos um para o outro. Trabalhavam em uma grande empresa há anos e, com o tempo, inevitável decidir que o queria.

Igor era bastante versátil, com os homens conversava sobre boceta, futebol e carros; com as mulheres flertava inocentemente. Era uma pessoa esclarecida, falava com confiança sobre política, economia e ciência. Adequava seu discurso de acordo com o interlocutor. Admirável.

Não era apenas uma mente brilhante, exibia o corpo de quem frequenta e, muito bem, a academia. Tomava shakes de proteína às manhãs. Tinha músculos definidos, mas sem exageros. Andava com as costas arqueadas e o peito estufado, como o dono de si que sabia ser. Era o proprietário de uma Ferrari amarela, não o vermelho clichê. Não fazia nada para compensar a careca que se aproximava, mais uma prova irrefutável de sua superioridade. Luísa não tinha dúvidas de que Igor era bem-dotado.

Ele tinha namorada. Namorada não, noiva. Um inconveniente, de fato, mas já estava na terceira e, em suas pesquisas, Luísa descobrira que o histórico de Igor era favorável. Costumava trair.

Almas ingênuas poderiam enxergar uma falha de caráter, mas Luísa sabia que não. Homens como aquele, tão raros, estavam incessantemente à procura de uma mulher à sua altura, capaz de satisfazer suas necessidades mais variadas. Natural que as coisas sejam diferentes num nível superior. Luísa sabia também que, assim que encontrasse a criatura ideal, Igor seria fiel. Evidente.

Conhecia diversas técnicas de sedução, aprendera-as na vida e nas revistas. Sabia quais funcionavam e com quem. Não gostava de incentivar interesses que não pudesse retribuir, era contra seus princípios, mas não podia bloquear seu brilho natural. Além disso, muitas das técnicas já haviam sido internalizadas e ela as usava sem perceber.

Com Igor, deveria ser mais cuidadosa. Se quisesse apenas sexo, seria fácil. Muito fácil. Não apreciava atitudes extremas, mas chegaria a usar a estratégia mais baixa que conhecia, caso necessário. Baixa porque direta, vulgar, sem mistérios. A técnica consistia em usar uma saia e, no momento propício, abrir as pernas para revelar a ausência da calcinha. Funcionara todas as vezes.

Mas, se fizesse isso, nunca se casaria com Igor. Ele não a valorizaria, não confiaria nela. Também não podia agir como uma moça inocente, isso o entediaria com certeza. Não, deveria ser algo diferente. Precisava deixá-lo curioso, sem saber em que posição a colocar. Esse seria o início de tudo.

Luísa já identificara sua rival. Nina era simpática com todos. Falsamente simpática. E era jovem, 23 anos apenas. Podia ser inocente com verossimilhança e o fazia. Sempre prestativa e sorridente, pronta a aprender, a aceitar qualquer ensinamento que recaísse sobre ela.

Nina era magra, diferente de Luísa, com suas bordas recheadas. Era assim que o ex-namorado costumava defini-la. É comum dizer que homens gostam de ter onde pegar, talvez fosse verdade no tempo de nossas avós, talvez seja verdade para homens de menor categoria, mas Luísa sabia que Igor não pensava assim. Nele, a verdadeira apreciação estética era grande e por isso preferia as magras.

Luísa já frequentava a academia, mas, ao invés de três vezes por semana, passou a frequentá-la seis. Até aos sábados. Tudo por Igor. Também fazia horas extras para passar mais tempo com ele e impressioná-lo. No tempo livre, pesquisava sobre seus assuntos favoritos. Queria seduzi-lo com corpo e mente para que ele desejasse desposá-la.

Estava cansada, mas valia a pena. Mesmo assim, devia tomar cuidado, não era de bom tom cochilar no caminho para o trabalho. As buzinas eram ferozes. 

Luísa aprendeu desde criança a importância e eficácia do esforço. Dessa vez não seria diferente, Igor já começava a flertar. É verdade que flertava com muitas outras, mas seu caso era especial. Ela sabia, ela sentia.

Ainda se preocupava com Nina, afinal, era importante estar sempre alerta, mas tudo corria conforme o planejado. Igor cada vez mais demonstrava seu interesse lançando-lhe olhares, sorrisos, palavras. 

Luísa estava tão feliz num dia em que fizera não duas, não três, mas quatro horas extras que acabou adormecendo no assento sanitário, sua cabeça repousando graciosamente contra a porta da cabine.

Ao acordar, caminhando com cautela pelo escritório, ainda enlevada pelo mais doce sonho, viu as costas de Igor. Seu corpo pressionava-se vigorosamente contra algo.

Gisele. A gorda do financeiro. 

Gisele e Igor casaram-se três meses depois. Ele vendeu sua parte na empresa e foi morar no Pantanal. 

sábado, 3 de outubro de 2015

Fazes-me falta, alguma vez te disse?


Inês Pedrosa, que que é essa mulher? Gente do céu. Dá vontade de só colocar um monte de citação pra todo mundo chorar das coisas lindas que ela escreve.

A Inês Pedrosa é um escritora portuguesa contemporânea. No site dela, diz que ela ganhou o Prémio Paridade da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género - nem sei o que é, mas pelo nome já gostei.

Por enquanto só li dois livros e um conto, mas rapidinho essa escritora fantástica entrou na lista dos preferidos. Lendo resumos ou contracapas dos livros, eu ficaria com preguiça. Tenho preconceito com histórinhas de amor (não consigo nem evitar o diminutivo pegajoso)... O problema é que muito romance, tanto em livros quanto no cinema, é machista e totalmente escroto, então acaba ficando difícil não confundir a representação (mal-feita) com a coisa em si.

A Inês Pedrosa fala muito de amor e de uma forma tão bonita que dói. Mas ela não fala só disso - nos livros dela tem injustiça social, preconceito e várias merdas desse nosso mundo. Tenho a impressão de que os problemas das personagens vão muito além de problemas pessoais, sendo quase que um "tratado filosófico" bem entre aspas, mas enfim...

Fazes-me Falta é a história do diálogo de uma mulher jovem que morre inesperadamente e de seu amigo mais velho que fica. É sobre perder oportunidades, não conseguir se conectar e nem mesmo se comunicar. 

Não dá. É impossível descrever. Vou colocar as citações. As muitas citações. 




Descansa em paz. Fizeste uma morta bonita - mais bonita e serena do que alguma vez foste, cachopa. Compuseram-te a imagem. Disso vivem as figuras públicas, mesmo na morte. Viva a imagem. Talvez fosse melhor não te ter visto, não ter beijado a tua testa. Agarrei-me a essa derradeira nota do teu calor. Ficaste-me com um travo a incenso e flores mortas. O cheiro do amor vedado que abandonáramos pela paisagem da nossa pré-história. Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim, que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar. 


O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus


Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam.


E se o céu for o desencanto em que crês? E se a nossa amizade mal vivida não couber na perfeição do céu? Deixa-me ser apenas a beleza magoada da tua vida, enquanto a vida for tua


Os meus passos não criam eco, a minha voz não tem sombra. É a ti que vejo porque não consigo deixar de te pensar. Queria desvendar o Grande Mistério: como vive ele, longe de mim?


(...) eu queria agora dar-te o amor total e infantil que tinha para te dar. Racionei-o a vida inteira como a porra do chocolate de leite _ por que vivemos como se o tempo nos pertencesse infinitamente, como se pudéssemos repetir tudo de novo, como se pudéssemos alguma coisa?


Organizei minha existência por iluminações. Desta forma, todo o amor e todas as vitórias me eram permitidas: já estava morto. Estrangulava as paixões no berço, o que tem a vantagem de as tornar estéreis.



Demasiado tarde. São estas as palavras mais tristes de qualquer língua.

Tu não estás só - não me sentes, real amiga imaginária? Distribui a dor que te deixei pelos famintos de dor, meu querido, pelos que não experimentaram ainda a mobilização do sofrimento. Faz-me existir nesse trabalho de conferir beleza aos dias póstumos. Havia uma criança abandonada chorando por detrás da porta, no centro da nossa cidade. Havia uma criança que acabou por morrer de fome, arranhando a porta, sem que os vizinhos, ouvindo esse choro incessante, se movessem. E se nessa criança habitasse o segredo derradeito da teoria quântica? Há tão poucas pessoas cujo talento possa salvar-nos - e nem sequer sabemos descobri-las e salvá-las. Consolamo-nos na beleza imediata das coincidências, escapa-nos a beleza catastrófica dos acasos.


- Sei que é um momento difícil , mas disseram-me que era um dos seus melhores amigos.
Confirmaste: é por isso mesmo que não falo dela. Continuarei apenas a falar com ela.


Como é que, de um dia para o outro, a sua voz deixou de me procurar e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?


Deus é misericordioso; põe-me diante de ti, em vez de me despachar a alma para um desses países onde as mães mutilam as próprias filhas, cortando-lhes o próprio sexo à faca e cosendo-as com espinhos. Ouço continuamente o grito dessas meninas _ acordei com eles a vida inteira. Abria os olhos escutando concretamente esses gritos vindos da Somália ou do Sudão, esses gritos que podiam ser meus.


Quero por o livro inteiro aqui.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Minas na Literatura




Virginia Woolf

Então, né? Não existe mais machismo. Feminazi é tudo doida, vitimista, mimimi.  Pois é, eu quero ser escritora. Ou sou, não sei bem como funciona isso. Fiz letras e tenho quase pós – não fiz a monografia, mas cursei todas as matérias.

J.K. Rowling
Um dia pedi indicações de literatura contemporânea para um professor. Ele mencionou vários escritores, mas, grande surpresa, nenhuma escritora. Perguntei se ele não tinha nenhuma escritora para indicar, mas ele não conseguiu se lembrar de nenhuma. Fiquei meio puta, achei meio absurdo.

É muito absurdo.

Numa universidade, falando com especialistas e nada.

Clarice Lispector
Em uma pesquisa feita por Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), constatou-se que cerca de 93,9% dos escritores são brancos, 72,7% são homens, 47,3% moram no Rio e 21,2% moram em São Paulo.

Desses dados surgem duas possibilidades.

Primeira. Homens brancos residentes no eixo Rio-São Paulo são melhores e têm mais inclinação para a literatura que os demais brasileiros.

Segunda: preconceito. Talvez os não-homens-brancos-Rio-São-Paulo não tenham as mesmas oportunidades.

O que será? Hmmm...


Maya Angelou
Eu sempre tento ler obras escritas por mulheres, negros, LGBTs, mas, mesmo assim, entre meus livros a maioria é de autoria dos ditos cujos: homens brancos Rio-São Paulo. Se alguém te pedisse pra listar cinco escritores contemporâneos – contemporâneos mesmo, que estão publicando agora – quantos deles seriam mulheres? Negros? Trans?

Tá feia a coisa... Passou da hora de todo mundo ter voz, representatividade, protagonismo e tudo a quem tem direito. Imagina que delícia ler o mundo sob outras perspectivas?

Quem sabe as coisas mudam um pouquinho... já passou da hora.




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Os Ricos Também Morrem



Acho que estou ficando velha. Sabe aquelas pessoas que dizem: Meu Deus, onde esse mundo foi parar? Tô dessas. É tanta coisa errada acontecendo ao mesmo tempo que a gente acaba se alienando ou enlouquecendo. 

É tanta tragédia junta, é tanta gente sofrendo. O mundo tá com overdose de desgraça e muita gente não liga e quem liga quase sempre tá perdido. Não sabe muito bem o que fazer. Sou dessas também.

Por tudo isso, quando fui ler Os Ricos Também Morrem, do Ferréz, preconceituosamente esperava mais um conjunto de tristezas no papel. Apesar da vontade de ler e conhecer, tinha essa mentalidade, achei que seria apenas mais uma dose, fraca demais pra fazer efeito, de tudo aquilo que já vejo todos os dias nos jornais, nas ruas, nas pessoas. 

Estava errada, ainda bem.

Pra quem não sabe, Ferréz é um expoente da chamada literatura marginal. À margem, fora do centro. Um bom exemplo desse tipo de literatura é a obra de Paulo Lins, Cidade de Deus, que virou filme e fez muito sucesso. Ferréz cresceu e vive até hoje em Capão Redondo, São Paulo, local que possui todos os problemas bem conhecidos das periferias. 

Heloísa Buarque de Holanda, em um texto sobre literatura marginal, que pode ser encontrado aqui, diz o seguinte:  

O que surpreende nos livros de Ferréz é, sobretudo, a inversão do lugar da violência. Em vez de ser tema da narrativa, a violência é apenas o entorno, a condição de vida de personagens comuns que, como nós, têm emoções, prezam a família, amam, têm ciúmes, fazem sexo e sonham com um futuro mais tranqüilo. Isso é um choque para o leitor que não vive nos cenários do crime e termina promovendo uma forma de identificação ou, pelo menos, entendimento, do personagem agressor, ainda não conhecida na nossa literatura. 

Os Ricos Também Morrem é um livro de contos impressionantes que rehumanizam pessoas que a gente teima em desumanizar. 

Prato Feito, que fala sobre a relação patrão-empregado e toda essa história da exploração, é genial e descreve uma revolta que apesar de muito particular, é de quase todos.

Pensamentos de um "Correria" me lembrou muito um certo causo com o Luciano Huck ;)

Reportagem foi o que mais gostei. Doeu ler e me reconhecer e reconhecer o mundo nesse conto:

E desde quando você parou?
Foi há alguns anos, acho que uns 4.
Alguém da sua família passou por isso antes?
Não que eu me lembre.
E foi aos poucos ou você deixou de uma vez?
Deixei de uma vez, logo que entrei, foi uma manhã, me lembro como se fosse hoje.
Foi com coisas pequenas, primeiro, ou é tudo a mesma coisa.
É a mesma, mas em algumas situações eu me surpreendo.
E as pessoas duvidam?
Quase sempre, mas eu não ligo.
Você não expressa nada mesmo?
Nada, em nenhum lugar.
Como é seu dia a dia?
Acordo, vou pra academia, depois me levam para lá, onde tudo começou.
E como é sua rotina lá?
Ando, converso, tomo capuccino, mas principalmente faço muitas reuniões.
E lá também você passa por isso?
Sim.
E onde mais?
Na rua, em casa, em qualquer lugar que vou.
No serviço as pessoas são assim, tem esse mal também?
Acho que sim, esses dias a mulher que faz o café caiu e torceu a perna, e todos passaram sem fazer nada.
Você fez?
Eu não.
E pensou algo?
Não.
Nem por um segundo?
Bom, pensei que tinha 2 minutos para procurar outro café.
Sua família, como reage?
Eles estranham, perdi uma festa de aniversário do meu filho, aí deu problema.
E o que você sentiu?
Nada.
Nem no caso da família?
Nada.


Morri.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Mulheres que Amam Demais e os Relacionamentos Abusivos




Nunca gostei de autoajuda. Os livros são simplistas, reducionistas, vários outros istas e servem para emburrecer. Geralmente, só os títulos me deixam com nojo, raiva ou preguiça. Para mim, eles são, de forma geral, uma maneira muito baixa de extrair dinheiro do sofrimento alheio. Os voltados para mulheres costumam ser cheios de machismo. Basicamente ensinam como ser magra e casar. Pq, né? Está no nosso DNA. O Tico quer que a gente case. O Teco quer que a gente seja magra.

Minha lista de coisas que funcionam melhor que autoajuda incluem terapia (óbvio), literatura, filmes, música, álcool, vídeos de gatos e chorar no banheiro. Até isso. E nada. Muitas vezes nada é infinitamente melhor que autoajuda.

Mas livros de autoajuda vendem muito. Muito, muito, muito. Não é um indicativo de qualidade, mostra apenas que tá todo mundo fudido e procurando uma solução mágica.


Quando acontece algo muito doloroso emocionalmente e dizemos a nós mesmos que falhamos, estamos na verdade dizendo que temos controle sobre isso: se nos modificarmos, o sofrimento cessará... Culpando-nos, prendemo-nos à esperança de que seremos capazes de descobrir onde está o erro e corrigi-lo, controlando, dessa forma, a situação e fazendo o sofrimento cessar.


Uma vez me disseram que quando temos uma dor muito grande, fazemos qualquer coisa, qualquer coisa mesmo para que ela vá embora. Deve ser verdade. Eu mesma já gastei muito e já fiz muita bobagem na minha tentativa de diminuir meu desespero. 

Minha grande dor era, e continua sendo, a depressão e todas as suas causas. A maioria delas não funcionou, algumas coisas chegaram até a atrapalhar, mas, por enfim ter encontrado ajuda, valeu a pena.

Uma dessas coisas que fiz foi ler livros de autoajuda. Mesmo achando que eles não serviam para nada, ou pior, que faziam um desserviço, mesmo me achando ridícula. Li.

A maioria foi tudo aquilo que eu pensava mesmo e me frustrou bastante. Um deles foi diferente e serviu, pelo menos para mim.

Nas livrarias, Mulheres que Amam Demais, da Robin Norwood, aparece classificado como psicologia e/ou autoajuda. Talvez seja um pouco dos dois.

Devorei tudo em dois dias e, no meu desespero, grifei 70% das frases. Me identifiquei com muitas informações ali. Percebi comportamentos similares em pessoas a meu redor.

Tenho muitas críticas ao livro. A heteronormatividade e o machismo que encontrei algumas vezes incomodaram bastante, mas, de forma geral, ele ajudou mais do que atrapalhou.

Ao redor do mundo foram criados grupos de apoio para essa condição chamada amar demais. É um nome horrível. Não tem nada de nada a ver com amor, tem a ver com abuso e autosabotagem. A autora se concentra em relacionamentos homem-mulher (heteronormatividade), mas dá pra transpor as ideias para diversos cenários.

O título é bastante sensacionalista, mas o livro em si não é assim.

Ele basicamente fala sobre pessoas que buscam relacionamentos destrutivos, reproduzindo situações também destrutivas na tentativa de corrigi-las, de consertar o passado. Quem não conhece essa história?

Agora que não estou mais tão vulnerável e que estou tentando dizer um grande foda-se para todas as coisas ruins do meu passado, (antigo e recente), chega até a parecer meio bobo. Quando a gente entende, tudo fica meio óbvio e é inevitável o sentimento de: mano, qual era o meu problema? Mas, quando a gente tá afundada na merda, merda é tudo o que dá pra enxergar.

Foi difícil, mas agora posso quase rir de todas aquelas coisas. 

O grande problema é que relacionamentos abusivos são tão banais, tão comuns, que não só as pessoas os vivendo, mas aquelas à sua volta, enxergam tudo como normal. 

É fácil condenar um marido que espanca a mulher ou os filhos. É fácil identificar o erro. É fácil condenar a mulher que não tem coragem de denunciar, que volta para os braços do abusador. Difícil mesmo é sair de uma situação em que acreditamos merecer estar. Mesmo que inconscientemente. 

Difícil é perceber os relacionamentos abusivos na sutileza. Dica: não é nada sutil, é que a gente vive numa sociedade tão perturbada e fica tão dependente que começa a achar tudo normal.

Quando nossas experiências na infância são bastante dolorosas, somos frequentemente compelidos a recriar situações parecidas em nossa vida, com o intuito de conseguirmos domínio sobre elas

O número de pessoas que vive ou já viveu esse tipo de situação é absurdamente alto. É um problema grave e parece que ninguém liga muito. Por isso, tudo o que ajudar a sair disso, tá valendo. Mesmo que seja autoajuda.


O livro fez tanto sucesso que foram criados vários grupos de apoio, nos quais mulheres podem compartilhar experiências e entender que não estão sozinhas. O endereço para o grupo de São Paulo é: