quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Terra



Olhava a terra se movendo sob seus pés. O chão parecia seco, mas no movimento surgia a umidade. Folhas, sujeira, pedras, pedaços de pão. Não gostava de pureza, terra presa em vaso. 

Seu entre-dedos sorria de cócegas e mexia cada vez mais, as unhas ficando pretas, os pés ganhando cor. A sensação era de muitas coisas em uma só. Uma vida secreta escondida debaixo de uma toalha. Sobre a mesa, um piquenique. Ao redor, crianças perseguindo galinhas e seus filhotes. 

Apenas um parque – árvores, gentes e bichos. 

Via raízes invadindo o concreto e se espalhando pelo mundo. Imagem comum, sedutora demais para mentes cansadas. 

Respirava, diferente – deixar-se ser. A realidade era uma grande caixa cinza após longos caminhos cinzas. Uma vida de pó. 

Gostava de observar os animais. Sabia que a natureza não é cintilante. Via com certa dor a crueza da vida. 

Mas era vida. 

Buscava o mesmo em sua humanidade – uma leitura clara. 

Gostava de olhar: a natureza não estava lá e ela estava, cansada. 

Decidia. Fincar os pés, não mais apenas provocar. 

Seria alguém que também é terra.






sábado, 3 de outubro de 2015

Fazes-me falta, alguma vez te disse?


Inês Pedrosa, que que é essa mulher? Gente do céu. Dá vontade de só colocar um monte de citação pra todo mundo chorar das coisas lindas que ela escreve.

A Inês Pedrosa é um escritora portuguesa contemporânea. No site dela, diz que ela ganhou o Prémio Paridade da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género - nem sei o que é, mas pelo nome já gostei.

Por enquanto só li dois livros e um conto, mas rapidinho essa escritora fantástica entrou na lista dos preferidos. Lendo resumos ou contracapas dos livros, eu ficaria com preguiça. Tenho preconceito com histórinhas de amor (não consigo nem evitar o diminutivo pegajoso)... O problema é que muito romance, tanto em livros quanto no cinema, é machista e totalmente escroto, então acaba ficando difícil não confundir a representação (mal-feita) com a coisa em si.

A Inês Pedrosa fala muito de amor e de uma forma tão bonita que dói. Mas ela não fala só disso - nos livros dela tem injustiça social, preconceito e várias merdas desse nosso mundo. Tenho a impressão de que os problemas das personagens vão muito além de problemas pessoais, sendo quase que um "tratado filosófico" bem entre aspas, mas enfim...

Fazes-me Falta é a história do diálogo de uma mulher jovem que morre inesperadamente e de seu amigo mais velho que fica. É sobre perder oportunidades, não conseguir se conectar e nem mesmo se comunicar. 

Não dá. É impossível descrever. Vou colocar as citações. As muitas citações. 




Descansa em paz. Fizeste uma morta bonita - mais bonita e serena do que alguma vez foste, cachopa. Compuseram-te a imagem. Disso vivem as figuras públicas, mesmo na morte. Viva a imagem. Talvez fosse melhor não te ter visto, não ter beijado a tua testa. Agarrei-me a essa derradeira nota do teu calor. Ficaste-me com um travo a incenso e flores mortas. O cheiro do amor vedado que abandonáramos pela paisagem da nossa pré-história. Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim, que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar. 


O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus


Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam.


E se o céu for o desencanto em que crês? E se a nossa amizade mal vivida não couber na perfeição do céu? Deixa-me ser apenas a beleza magoada da tua vida, enquanto a vida for tua


Os meus passos não criam eco, a minha voz não tem sombra. É a ti que vejo porque não consigo deixar de te pensar. Queria desvendar o Grande Mistério: como vive ele, longe de mim?


(...) eu queria agora dar-te o amor total e infantil que tinha para te dar. Racionei-o a vida inteira como a porra do chocolate de leite _ por que vivemos como se o tempo nos pertencesse infinitamente, como se pudéssemos repetir tudo de novo, como se pudéssemos alguma coisa?


Organizei minha existência por iluminações. Desta forma, todo o amor e todas as vitórias me eram permitidas: já estava morto. Estrangulava as paixões no berço, o que tem a vantagem de as tornar estéreis.



Demasiado tarde. São estas as palavras mais tristes de qualquer língua.

Tu não estás só - não me sentes, real amiga imaginária? Distribui a dor que te deixei pelos famintos de dor, meu querido, pelos que não experimentaram ainda a mobilização do sofrimento. Faz-me existir nesse trabalho de conferir beleza aos dias póstumos. Havia uma criança abandonada chorando por detrás da porta, no centro da nossa cidade. Havia uma criança que acabou por morrer de fome, arranhando a porta, sem que os vizinhos, ouvindo esse choro incessante, se movessem. E se nessa criança habitasse o segredo derradeito da teoria quântica? Há tão poucas pessoas cujo talento possa salvar-nos - e nem sequer sabemos descobri-las e salvá-las. Consolamo-nos na beleza imediata das coincidências, escapa-nos a beleza catastrófica dos acasos.


- Sei que é um momento difícil , mas disseram-me que era um dos seus melhores amigos.
Confirmaste: é por isso mesmo que não falo dela. Continuarei apenas a falar com ela.


Como é que, de um dia para o outro, a sua voz deixou de me procurar e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?


Deus é misericordioso; põe-me diante de ti, em vez de me despachar a alma para um desses países onde as mães mutilam as próprias filhas, cortando-lhes o próprio sexo à faca e cosendo-as com espinhos. Ouço continuamente o grito dessas meninas _ acordei com eles a vida inteira. Abria os olhos escutando concretamente esses gritos vindos da Somália ou do Sudão, esses gritos que podiam ser meus.


Quero por o livro inteiro aqui.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Minas na Literatura




Virginia Woolf

Então, né? Não existe mais machismo. Feminazi é tudo doida, vitimista, mimimi.  Pois é, eu quero ser escritora. Ou sou, não sei bem como funciona isso. Fiz letras e tenho quase pós – não fiz a monografia, mas cursei todas as matérias.

J.K. Rowling
Um dia pedi indicações de literatura contemporânea para um professor. Ele mencionou vários escritores, mas, grande surpresa, nenhuma escritora. Perguntei se ele não tinha nenhuma escritora para indicar, mas ele não conseguiu se lembrar de nenhuma. Fiquei meio puta, achei meio absurdo.

É muito absurdo.

Numa universidade, falando com especialistas e nada.

Clarice Lispector
Em uma pesquisa feita por Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), constatou-se que cerca de 93,9% dos escritores são brancos, 72,7% são homens, 47,3% moram no Rio e 21,2% moram em São Paulo.

Desses dados surgem duas possibilidades.

Primeira. Homens brancos residentes no eixo Rio-São Paulo são melhores e têm mais inclinação para a literatura que os demais brasileiros.

Segunda: preconceito. Talvez os não-homens-brancos-Rio-São-Paulo não tenham as mesmas oportunidades.

O que será? Hmmm...


Maya Angelou
Eu sempre tento ler obras escritas por mulheres, negros, LGBTs, mas, mesmo assim, entre meus livros a maioria é de autoria dos ditos cujos: homens brancos Rio-São Paulo. Se alguém te pedisse pra listar cinco escritores contemporâneos – contemporâneos mesmo, que estão publicando agora – quantos deles seriam mulheres? Negros? Trans?

Tá feia a coisa... Passou da hora de todo mundo ter voz, representatividade, protagonismo e tudo a quem tem direito. Imagina que delícia ler o mundo sob outras perspectivas?

Quem sabe as coisas mudam um pouquinho... já passou da hora.




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Os Ricos Também Morrem



Acho que estou ficando velha. Sabe aquelas pessoas que dizem: Meu Deus, onde esse mundo foi parar? Tô dessas. É tanta coisa errada acontecendo ao mesmo tempo que a gente acaba se alienando ou enlouquecendo. 

É tanta tragédia junta, é tanta gente sofrendo. O mundo tá com overdose de desgraça e muita gente não liga e quem liga quase sempre tá perdido. Não sabe muito bem o que fazer. Sou dessas também.

Por tudo isso, quando fui ler Os Ricos Também Morrem, do Ferréz, preconceituosamente esperava mais um conjunto de tristezas no papel. Apesar da vontade de ler e conhecer, tinha essa mentalidade, achei que seria apenas mais uma dose, fraca demais pra fazer efeito, de tudo aquilo que já vejo todos os dias nos jornais, nas ruas, nas pessoas. 

Estava errada, ainda bem.

Pra quem não sabe, Ferréz é um expoente da chamada literatura marginal. À margem, fora do centro. Um bom exemplo desse tipo de literatura é a obra de Paulo Lins, Cidade de Deus, que virou filme e fez muito sucesso. Ferréz cresceu e vive até hoje em Capão Redondo, São Paulo, local que possui todos os problemas bem conhecidos das periferias. 

Heloísa Buarque de Holanda, em um texto sobre literatura marginal, que pode ser encontrado aqui, diz o seguinte:  

O que surpreende nos livros de Ferréz é, sobretudo, a inversão do lugar da violência. Em vez de ser tema da narrativa, a violência é apenas o entorno, a condição de vida de personagens comuns que, como nós, têm emoções, prezam a família, amam, têm ciúmes, fazem sexo e sonham com um futuro mais tranqüilo. Isso é um choque para o leitor que não vive nos cenários do crime e termina promovendo uma forma de identificação ou, pelo menos, entendimento, do personagem agressor, ainda não conhecida na nossa literatura. 

Os Ricos Também Morrem é um livro de contos impressionantes que rehumanizam pessoas que a gente teima em desumanizar. 

Prato Feito, que fala sobre a relação patrão-empregado e toda essa história da exploração, é genial e descreve uma revolta que apesar de muito particular, é de quase todos.

Pensamentos de um "Correria" me lembrou muito um certo causo com o Luciano Huck ;)

Reportagem foi o que mais gostei. Doeu ler e me reconhecer e reconhecer o mundo nesse conto:

E desde quando você parou?
Foi há alguns anos, acho que uns 4.
Alguém da sua família passou por isso antes?
Não que eu me lembre.
E foi aos poucos ou você deixou de uma vez?
Deixei de uma vez, logo que entrei, foi uma manhã, me lembro como se fosse hoje.
Foi com coisas pequenas, primeiro, ou é tudo a mesma coisa.
É a mesma, mas em algumas situações eu me surpreendo.
E as pessoas duvidam?
Quase sempre, mas eu não ligo.
Você não expressa nada mesmo?
Nada, em nenhum lugar.
Como é seu dia a dia?
Acordo, vou pra academia, depois me levam para lá, onde tudo começou.
E como é sua rotina lá?
Ando, converso, tomo capuccino, mas principalmente faço muitas reuniões.
E lá também você passa por isso?
Sim.
E onde mais?
Na rua, em casa, em qualquer lugar que vou.
No serviço as pessoas são assim, tem esse mal também?
Acho que sim, esses dias a mulher que faz o café caiu e torceu a perna, e todos passaram sem fazer nada.
Você fez?
Eu não.
E pensou algo?
Não.
Nem por um segundo?
Bom, pensei que tinha 2 minutos para procurar outro café.
Sua família, como reage?
Eles estranham, perdi uma festa de aniversário do meu filho, aí deu problema.
E o que você sentiu?
Nada.
Nem no caso da família?
Nada.


Morri.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Mulheres que Amam Demais e os Relacionamentos Abusivos




Nunca gostei de autoajuda. Os livros são simplistas, reducionistas, vários outros istas e servem para emburrecer. Geralmente, só os títulos me deixam com nojo, raiva ou preguiça. Para mim, eles são, de forma geral, uma maneira muito baixa de extrair dinheiro do sofrimento alheio. Os voltados para mulheres costumam ser cheios de machismo. Basicamente ensinam como ser magra e casar. Pq, né? Está no nosso DNA. O Tico quer que a gente case. O Teco quer que a gente seja magra.

Minha lista de coisas que funcionam melhor que autoajuda incluem terapia (óbvio), literatura, filmes, música, álcool, vídeos de gatos e chorar no banheiro. Até isso. E nada. Muitas vezes nada é infinitamente melhor que autoajuda.

Mas livros de autoajuda vendem muito. Muito, muito, muito. Não é um indicativo de qualidade, mostra apenas que tá todo mundo fudido e procurando uma solução mágica.


Quando acontece algo muito doloroso emocionalmente e dizemos a nós mesmos que falhamos, estamos na verdade dizendo que temos controle sobre isso: se nos modificarmos, o sofrimento cessará... Culpando-nos, prendemo-nos à esperança de que seremos capazes de descobrir onde está o erro e corrigi-lo, controlando, dessa forma, a situação e fazendo o sofrimento cessar.


Uma vez me disseram que quando temos uma dor muito grande, fazemos qualquer coisa, qualquer coisa mesmo para que ela vá embora. Deve ser verdade. Eu mesma já gastei muito e já fiz muita bobagem na minha tentativa de diminuir meu desespero. 

Minha grande dor era, e continua sendo, a depressão e todas as suas causas. A maioria delas não funcionou, algumas coisas chegaram até a atrapalhar, mas, por enfim ter encontrado ajuda, valeu a pena.

Uma dessas coisas que fiz foi ler livros de autoajuda. Mesmo achando que eles não serviam para nada, ou pior, que faziam um desserviço, mesmo me achando ridícula. Li.

A maioria foi tudo aquilo que eu pensava mesmo e me frustrou bastante. Um deles foi diferente e serviu, pelo menos para mim.

Nas livrarias, Mulheres que Amam Demais, da Robin Norwood, aparece classificado como psicologia e/ou autoajuda. Talvez seja um pouco dos dois.

Devorei tudo em dois dias e, no meu desespero, grifei 70% das frases. Me identifiquei com muitas informações ali. Percebi comportamentos similares em pessoas a meu redor.

Tenho muitas críticas ao livro. A heteronormatividade e o machismo que encontrei algumas vezes incomodaram bastante, mas, de forma geral, ele ajudou mais do que atrapalhou.

Ao redor do mundo foram criados grupos de apoio para essa condição chamada amar demais. É um nome horrível. Não tem nada de nada a ver com amor, tem a ver com abuso e autosabotagem. A autora se concentra em relacionamentos homem-mulher (heteronormatividade), mas dá pra transpor as ideias para diversos cenários.

O título é bastante sensacionalista, mas o livro em si não é assim.

Ele basicamente fala sobre pessoas que buscam relacionamentos destrutivos, reproduzindo situações também destrutivas na tentativa de corrigi-las, de consertar o passado. Quem não conhece essa história?

Agora que não estou mais tão vulnerável e que estou tentando dizer um grande foda-se para todas as coisas ruins do meu passado, (antigo e recente), chega até a parecer meio bobo. Quando a gente entende, tudo fica meio óbvio e é inevitável o sentimento de: mano, qual era o meu problema? Mas, quando a gente tá afundada na merda, merda é tudo o que dá pra enxergar.

Foi difícil, mas agora posso quase rir de todas aquelas coisas. 

O grande problema é que relacionamentos abusivos são tão banais, tão comuns, que não só as pessoas os vivendo, mas aquelas à sua volta, enxergam tudo como normal. 

É fácil condenar um marido que espanca a mulher ou os filhos. É fácil identificar o erro. É fácil condenar a mulher que não tem coragem de denunciar, que volta para os braços do abusador. Difícil mesmo é sair de uma situação em que acreditamos merecer estar. Mesmo que inconscientemente. 

Difícil é perceber os relacionamentos abusivos na sutileza. Dica: não é nada sutil, é que a gente vive numa sociedade tão perturbada e fica tão dependente que começa a achar tudo normal.

Quando nossas experiências na infância são bastante dolorosas, somos frequentemente compelidos a recriar situações parecidas em nossa vida, com o intuito de conseguirmos domínio sobre elas

O número de pessoas que vive ou já viveu esse tipo de situação é absurdamente alto. É um problema grave e parece que ninguém liga muito. Por isso, tudo o que ajudar a sair disso, tá valendo. Mesmo que seja autoajuda.


O livro fez tanto sucesso que foram criados vários grupos de apoio, nos quais mulheres podem compartilhar experiências e entender que não estão sozinhas. O endereço para o grupo de São Paulo é: 





domingo, 2 de agosto de 2015

Meu herói



Ele é um menino assustado, nunca foi bom no futebol. Não o suficiente. Teve família, teve comida, teve amor, estudou, vai na igreja, tudo certo. Não tem o que disseram. 

Imagina quando vai ser o que devia, dirigir carros velozes, matar o bandido, salvar a mocinha, como nos filmes. Ele é o herói.

Queria arma, só pra se proteger. Não vai atirar, tem medo, só pra se defender. Bandido bom é bandido morto. Não pode deixar estuprador solto, assassino solto. Pena de morte, arma pro cidadão, não pro bandido. Ele não é mau, ele é o herói.

Fez tudo certo. Estudou. Trabalhou cedo, 20 anos, é justo ter carro. Vem vagabundo querendo roubar. Não tem nada contra negros, tem amigos, colegas de trabalho que são. Não é justo as cotas, ele estudou, se esforçou e o outro nem sabe ler e rouba vaga na faculdade. Viu a notícia do catador de papelão que passou no concurso. Ele não é preconceituoso, a escravidão já acabou faz tempo, ele não escravizou ninguém. Fez tudo certo e agora tem um emprego mais ou menos e o preto que entrou depois já ganha mais que ele. Não pode, ele é o herói. Estudou, se esforçou, entrou primeiro. 

Ele faz tudo certo, respeita mulher, abre a porta do carro, não tem coragem de chegar. Quer casar, na igreja, tudo certo. Ele não é mau, ele é o herói. E vêm as feministas dizendo que tá errado. Ele é contra estuprador, bandido bom, bandido morto, mas a mocinha fica com o bandido, não com ele que é o herói. Todas putas, menos pra ele.

Ele vai na igreja, quer casar. Casamento entre homem e mulher, tá na bíblia. Ele não leu. Aí vem os gays, se abraçando, se beijando, na rua. Casal, casados, não pode. Ele é o herói e os gays com o amor que era pra ser dele. Tá errado. Viu que eles querem legalizar a pedofilia, não pode. Ele é o herói, vai salvar as criancinhas.

Ele é o herói. Acreditou na mãe, acreditou no padre, acreditou no filme. Ele tá certo. Por que sua vida não dá certo? Não é como disseram. Ele tá certo. É o mundo. O mundo tá errado. São os negros vitimistas querendo roubar o lugar dele que estudou, se esforçou, fez tudo certo. São as feministas que fazem mulher não gostar mais de homem. São os gays roubando o amor que era pra ser dele. Ele é o herói, vai consertar, bandido bom, bandido morto. 

Feliciano, Bolsonaro, de Carvalho. Eles tão certos. Falam certo. Têm seguidores, fazem sucesso. Ele vai copiar, São Paulo tem que separar. Ditadura, não gayzista. Feminazi não quer dar. Não pra ele. Lésbica peluda, tá errado, no filme pode. Negro vitimista, rouba o lugar. Não vai deixar. 

Ele fez tudo certo, o carro é dele, a mulher é dele, a igreja é dele, o emprego é dele. Ele é o herói. Não vai deixar ninguém tirar o seu lugar.

Ele tem uma arma.





quarta-feira, 15 de julho de 2015

Ninguém



Ninguém é a favor do estupro. Estuprador apanha na cadeia. Até bandido tem código de honra. Nem bandido faz esse tipo de coisa.

Ninguém é a favor do estupro. Mas muita gente até acha normal as atrizes mostrando os peitos na TV pra vender mais. Alguns dizem que é uma imoralidade, mas até esses assistem pornô. Que jogue a primeira pedra quem nunca assistiu. E jogam, mesmo já tendo assistido.

Ninguém é a favor do estupro. Mas muitos acham normal pressionar a namorada pra transar e pôr a mão aqui e ali depois de ela ter dito não.

Ninguém é a favor do estupro. Mas quase todos olham a mulher que passou de shortinhos, afinal, ela passou de shortinhos, mesmo que ela tenha apenas 14 anos.

Ninguém é a favor do estupro. Mas quem não adora ver o e-mail com nudes da ex-namorada de alguém tentando se vingar?

Ninguém é a favor. Mas muitos contratam a loira gostosa, mesmo que houvesse candidatos mais qualificados. Só pra olhar.

Ninguém é a favor. Mas todos estão acostumados a pensar que o corpo feminino existe para olhos, mãos e bocas dos outros.

Ninguém é a favor. Mas quantos praticam a autocrítica e procuram consertar o erro dentro de si?

Ninguém é. Mas muita gente acha feminista exagerada e mulher vitimista.

Ninguém é. Mas quantos acreditam que a cultura dele seja um mito inventado por petralhas, metralhas, comunas, feminazis ou qualquer coisa que se decida odiar?

Ninguém é.


Ninguém.

domingo, 5 de julho de 2015

Quem tem cu...





Eu ouvi dizer que tem uma terapia de grupo. Terapia de grupo. Terapia já é coisa de viado. De grupo então. E só macho. Nada de mulher. Eu não vou ficar falando dos meus problemas prum bando de imbecil. Chorando porque minha mãe mimimi. Tive criação, sou homem, resolvo minhas coisas. Terapia de grupo. Sai fora. 

Terapia é coisa de viado. Terapeuta é tudo mulher, pode ver. Ou então, viado. Psicologia é curso de mulher. Numa sala de cem pessoas, tem três homens só. Quer dizer, não é homem-homem, porque se fosse não tava lá fazendo psicologia. Mas até aí tudo bem, quer ser bicha, vai ser bicha longe de mim. Agora, ficar participando de grupinho aí. Não tem cabimento. E depois vem contar na maior cara de pau. Não almoço mais com esse sujeito. Depois ele vem com papinho estranho, vem querendo dar tapinha nas costas. Sai pra lá. Se vou no banheiro e ele tá lá, nem disfarço, saio mesmo. Ou então finjo que vou cagar. E quero macho me olhando? Sai fora. 

Já alistou mais um pro grupinho de viado. Não quero essas coisas perto de mim. Sabe como eles chamam esse negócio? Vivência de afetividade. Que porra é essa? Veio me dizer que melhorou o casamento, que agora enxerga a mulher como ser humano e respeita e é capaz de corresponder às necessidades emocionais dela. Repito. Que porra é essa? Isso lá é jeito de homem falar? Sai fora. 

Agora tão os dois aí, almoçando juntos, tomando café juntos, até mijar devem mijar juntos. E você pode imaginar o que acontece naquele banheiro. Imagina! Não, eu não quero. Se cumprimentam com um abraço bem apertado. Todo dia. Todo dia tenho que ficar olhando dois machos na maior agarração. Quer dizer, se fosse macho mesmo não tinha essa pouca vergonha, que macho que é macho agarra mesmo é mulher. Agora, quando Claudinha passa com aquela calça enfiada no rego, que é uma delícia, eles nem falam nada, dizem que é desrespeitoso. Isso lá é coisa de homem? Se ela sai na rua desse jeito, vem trabalhar na fábrica desse jeito, já sabe muito bem o que a espera. Ela gosta. E vem os dois viado com isso de ter que respeitar, nem olhar mais eles devem. Agora só olham um pro outro. Sai fora. 

E no churrasco? Queriam chamar a mulherada, vê se pode. As funcionárias, as esposas, eles disseram. E as putas? Como é que vai fazer? Agora não posso nem jogar mais. Não vou arriscar. Vai que as duas bichas me agarram. Eu fui, mas fiquei só olhando. Só olhando... Futebol é jogo de homem, quero lá me arriscar? Mas não vou mesmo. Sai fora.
Maldito movimento gay. Querem que todo mundo seja bicha. Vão querer ensinar viadagem nas escolas. Os homens de verdade, machos mesmo, têm que se juntar, se unir, se aglomerar... Agarrar não, que não sou fruta. Não vou cair nessa. Fiz faculdade! Curso de homem! Trabalho em fábrica! Sou homem. De bem. Não sou bicha. Por que é que tenho que ficar olhando dois caras na maior agarração? Sai fora.

Homem. Homem de verdade. Homem de bem. Homem de Deus que não aceita viadagem. Um dia, quando tiver coragem, desce o cacete. Sai fora.

** Baseado em uma conversa com um erro de ser humano.



domingo, 14 de junho de 2015

Thiago. Com TH.


Bruno estava chateado. O mundo não andava legal. Na flor da idade, músico, poeta, feminista. E sem ninguém descolado com quem conversar. Michele, a estagiária tatuada em locais estratégicos, havia partido dessa pra uma melhor. Não, não. Ela só fora contratada por outra empresa. O pessoal da análise de crédito era muito coxinha. Bruno gostava de ser visto com eles, afinal, era um homem flexível, capaz de transitar com graça entre vários grupos. O problema era que eles não diziam nada que pudesse ser reproduzido. E também, Bruno sempre perdia na argumentação política.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Com sentimento




Não tinha superstições muitas. Sempre se considerara uma pessoa lúcida. Certa tarde por um descuido sob a água corrente, sua aliança se foi pelo ralo. Pouco se importou, feito de latão, aquele objeto era apenas mais uma tentativa fracassada de ser bem sucedido na arte da pegação. No escritório notava como as mulheres sempre corriam atrás dos casados, principalmente Daniel. O que é que tanto viam naquele cara sem graça? Ele não era forte, não era rico, não era nada. Mesmo assim a mulherada caía matando. Malaquias não entendia. A verdade é que quem carrega uma mala no nome não pode ter um bom destino.

O famigerado Malaquias não aguentava mais ficar sozinho. Não que quisesse uma companheira, queria uma apenas uma cavidade aquecida que não custasse tanto. Nas semanas seguintes à do pagamento passava seu tempo entre sites sobre carros, esportes, aqueles restritos a maiores de 18 anos e finalmente, a cereja do bolo, sites de sedução, nos quais procurava aprender como se tornar um macho alfa.

Destituído de sexo, pobre Malaquias não parava de ler artigos sobre como atrair mulheres. Infelizmente, suas leituras resultavam infrutíferas, já que os argumentos sobre leis da atração e psicologia feminina eram no mínimo inverídicos e a lógica de seus autores, inexistente.

domingo, 10 de maio de 2015

O bastão de mercúrio




Dr. Paulo era médico e às sextas-feiras fazia plantão de madrugada no pronto-socorro de um convênio cuja qualidade era mais ou menos razoável. Costumava ser tranquilo e ele passava boa parte das doze horas comendo, dormindo e tentando seduzir a enfermeira. A auxiliar, a recepcionista, a faxineira. Às vezes aparecia uma paciente da qual ele poderia se gabar. Às vezes aparecia uma paciente que ele gostaria de possuir, mas nunca admitiria. De modo geral, só via velhas cheias de varizes, grávidas neuróticas, homens com gases e bêbados. Praticar a medicina não era tão glamouroso quanto parecia à primeira vista, pensou coçando a grande barriga. O título sim, esse era motivo de orgulho, usava-o sempre que podia, dentro e fora do hospital. A não ser quando havia alguém por perto precisando de atendimento, nessas ocasiões mantinha-se em silêncio, porque precisava proteger sua vida pessoal ou não sobreviveria. 

O pior de fazer esse turno era atender os jovens com toda a sua juventude. Chegavam bêbados, arrogantes, com seus abdomens definidos e sua falta de tato, falando alto, fazendo barulho, constrangendo as mocinhas, as bonitas e empinadas pelo menos. Todos virgens, Dr. Paulo tinha certeza. Sabia das coisas. 

terça-feira, 21 de abril de 2015

A pretendente número 2




Bruno é um bom partido. Acredita em igualdade, fraternidade e liberdade. É a favor de ciclo faixas e condena as declarações de Jair Bolsonaro. Vota mais à esquerda. É abertamente contra a corrupção, o racismo, a homofobia e a misoginia. Quando descobrir a gordofobia, também será abertamente contra ela. 

Trabalha todos os dias, de segunda a sexta, e sente o peso do sistema que massacra o homem moderno obrigando-o a viver alienado numa sociedade que só valoriza quem é uma perfeita engrenagem. Ser bom não é bom o suficiente, pensa de si para si. Depois do almoço com duração de duas horas lê os títulos das matérias dos grandes portais de notícias e fica ainda mais revoltado com esse mundo que tanto o explora.

Uma vez leu O Banqueiro Anarquista até o fim. Adorou tudo e ficou imaginando o dia em que poderia ser livre daquela forma. Escapou-lhe a ironia. Ela é fundamental, mas nem todos os cérebros produzem a substância capaz de torná-la visível. A medicina ainda não achou a cura. 

Bruno possui três pretendentes. 

sábado, 4 de abril de 2015

Músicas que empoderam - Don't rain on my parade!





A versão de Funny Girl com a Barbra Streisand é simplesmente incrível, mas também gosto muito da versão de Lea Michele como Rachel Berry em Glee. Só vou dizer uma coisa: Não me diga pra não viver ;)

DON'T RAIN ON MY PARADE

Don't tell me not to live
Just sit and putter
Life's candy
And the sun's a ball of butter
Don't bring around a cloud
To rain on my parade

Don't tell me not to fly
I simply got to
If someone takes a spill
It's me and not you
Who told you
You're allowed to rain on my parade

I'll march my band out
I'll beat my drum
And if I'm fanned out
Your turn at bat, sir
At least I didn't fake it
Hat, sir
I guess I didn't make it

But whether I'm the rose
Of sheer perfection
A freckle on the nose
Of life's complexion
The cinder or the shiny apple of its eye

I gotta fly once
I gotta try once
Only can die once, right, sir
Oh, life is juicy, juicy and you see
I gotta have my bite, sir

Get ready for me, love
Cause I'm a "comer"
I simply gotta march
My heart's a drummer
Don't bring around a cloud
To rain on my parade

I'm gonna live and live now
Get what I want, I know how
One roll for the whole shebang
One throw that bell will go clang!
Eye on the target and wham!
One shot, one gun shot and bam!
Hey Mister Arnstein, here I am!

I'll march my band out
I'll beat my drum
And if I'm fanned out
Your turn at bat, sir
At least I didn't fake it
Hat, sir.
I guess I didn't make it

Get ready for me, love
Cause I'm a "comer"
I simply gotta march
My heart's a drummer
Nobody. No, nobody
Is gonna rain on my parade

domingo, 29 de março de 2015

A fada




A fada me disse sai de trás da pedra filha. Ela me disse. A fada me disse que via muitas borboletas ao meu redor. Ela me disse. A fada me disse que borboleta é o bicho mais abusado que tem, passando bem na frente pra mostrar aquela asa desproporcional. Ela me disse. Mas eu não gosto de borboletas. 

A fada me disse que tinha muito doce nesse corpo. Ela me disse. A fada me disse que eu podia carregar a casa inteira e não me importar. Ela me disse. Eu não disse nada. Eu agradeci. Eu sei que onde sou só existe o azedo no gosto. Eu sei que não consigo nem carregar meus pensamentos sem cair. Nem meus sentimentos. Nem os dos outros.

quinta-feira, 19 de março de 2015

É o acordar que nos mata





Suzie era uma mulher. Sua maior característica era ser trouxa. Todos viviam dizendo a Suzie o quanto ela era trouxa e ela agradecia com os olhos cheios d’água. Porque era trouxa. No trabalho, oferecia ajuda a qualquer um que indicasse precisar. Ajudava quem não queria trabalhar por causa de problemas pessoais, por acumulo de serviço, por problemas de saúde, por preguiça. Ajudava sem ninguém nunca pedir e, quando ouvia o quão errado tinha realizado as tarefas, sentia-se muito grata por trabalhar com pessoas tão honestas que sempre diziam a verdade. Também se sentia mal por ser inútil e não conseguir fazer as coisas direito. E jurava melhorar. Era trouxa.

O namorado de Suzie era muito bom, ficava com ela apesar de ela não agradar a seus pais, de não saber cozinhar. Ficava com ela apesar de ela estar sempre triste e não lhe dar atenção suficiente. Ou dar muita atenção quando ele não queria nenhuma. Às vezes, até saía com Suzie aos finais de semana. Era realmente uma pessoa admirável, ela pensava, surpresa por um homem como aquele tê-la aceitado em sua vida, exceto na maioria dos finais de semana ou quando ele tinha alguma outra coisa para fazer. Ficava agradecida por ele, tão generoso, demonstrar interesse por alguns assuntos dos quais Suzie gostava. Ele perguntava a ela sobre livros mesmo odiando ler. O rosto de Suzie se iluminava e seus olhos se enchiam d’água pelo esforço que o namorado fazia. Nessas ocasiões, ficava tão feliz que era egoísta e passava vários minutos falando sobre seu assunto preferido. Quando, pouco depois, ele reproduzia tudo, mas tudo mesmo, que ela havia dito em um post no facebook, ficava cheia de orgulho por ele tê-la escutado com tanta atenção. O orgulho era tanto que nem se incomodava de não ver seu nome ali. Trouxa.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Músicas que empoderam - Alix Olson : A Boca de Eva



Eve’s Mouth 




A boca de Eva dói de tanto segurar o riso 

Por uma piada que algum acadêmico fez 

Sobre ela ser a metade de alguém, 

Foi uma piada, uma mentira, um exagero, uma farsa 

E agora todos acreditam que eu vim da costela dele! 

Ela grita com todas as suas forças: 
Eu sou inteira! Sou corpo, coração, mente, alma. 



Bem, a Rainha Vitória deu conselhos a sua filha 

Pois a filha estremeceu em sua noite de casamento 

A Rainha Vitória disse a sua filha 

“Apenas não se mexa e pense no Império” 

E o marido, apesar de gentil e brando 

Nunca parou para pensar por que ela nunca sorria. 


Chapeuzinho Vermelho andava pela estrada afora 

Carregando os doces, 

ela pensou “Eles vão estragar” 

Então ela comeu todos e foi assim 

Depois vomitou tudo por medo de engordar 

Porque até a Chapeuzinho lê revistas 
Daquelas que publicam dietas para pré-adolescentes 



Também tem a Cinderela, sossegada em casa 

Se sentindo feliz por estar sozinha 

Está brincando com os camundongos e cantando com os pássaros e eles são os únicos que a ouviram dizer isto. 

Ela disse “Vou entrar nessa abóbora. Fazer tudo certo, chorar e perder meu sapato, dar chilique à meia-noite. 

Mas há uma coisa da qual o príncipe pode não gostar 

É da Fada-madrinha que estou a fim, 
Eu sou sapatão!” 



Ela grita com todas as suas forças: 

Eu sou inteira! Sou corpo, coração, mente, alma. 

Ela grita com todas as suas forças: 

Eu sou inteira! Sou corpo, coração, mente, alma. 



E a Branca de Neve, uma mulher muito prendada, ela limpa, cozinha e cuida de anões. Um dia eu lhe disse: “Branca de Neve, volte para a escola” 

Ela disse: “Não, não posso, me sentiria uma tola. Sabe, é difícil para nós mulheres tentarmos ser nós mesmas, nós passamos a vida inteira cuidando de duendinhos” 



Também temos a Rapunzel, sossegada na torre, esperando pelo belo príncipe, 

Foi-lhe tirada toda sua força... 

Um belo dia, finalmente, o príncipe apareceu 

Gritou para Rapunzel “Ei, garota, deixe cair!” 

Mas nossa querida Rapunzel não pôde ser avistada; 

Sim, nossa querida Rapunzel havia aprendido algo muito legal 
“Todo aquele tempo sozinha me ensinou como lidar com a situação 
Então eu raspei a cabeça e fiz uma corda!” 



Helena, de Tróia, dizem que foi a causa de uma guerra 

Por causa do tamanho de sua saia e do formato de seus lábios 

E quando aquele bardo velho colocou disse que a culpa era dela 

Pela violação de uma nação 

Lugar errado. Hora errada. 

Helena simplesmente murmurou “A história é nosso teste. 
Vejam as entrelinhas, garotas, leiam além do texto” 



Ela grita com todas as suas forças: 

Eu sou inteira! Sou corpo, coração, mente, alma. 

Ela grita com todas as suas forças: 

Eu sou inteira! Sou corpo, coração, mente, alma. 

Ela grita.