domingo, 18 de janeiro de 2015

A língua fria do nada




Cada passo levava anos, não se lembrava das etapas, um pé após o outro, mas e as mãos? O que fazer com os joelhos? Movimentava-se no ritmo correto? O importante era não cair. Assim que esse pensamento a invadiu, suas pernas fraquejaram. Os músculos haviam se esquecido de existir. Respirar para manter-se de pé. Lentamente? E se esquecesse e parasse de vez? Rápido? Também não parecia certo. O importante era esconder.

Foi a última a entrar na sala, não queria encarar as pessoas. Não conseguia entender porque era assim, porque era tudo tão difícil. Invejava as pessoas felizes, as pessoas mais leves, as que não se afogavam em seus próprios problemas. Quando tentava mudar, estragava tudo e dizia as coisas erradas para as pessoas erradas no momento errado. Era assim que se sentia. “E se” era todo o seu vocabulário. E se tivesse sido mais cuidadosa? E se fosse mais sorridente? E se não fosse tão sôfrega? Tudo seria diferente. Ou tudo seria igual, mas ela não carregaria o peso massacrante da culpa.

Agiria de outra maneira se não possuísse o mundo? Seria menos nociva às pessoas a sua volta? Tudo bem ter o corpo queimado se conseguisse manter todo o pus em si mesma, sem jogá-lo, esfregá-lo nos outros pedindo por socorro. Abominavelmente exigindo ser salva.




Um dia inteiro de trabalho se concentrando apenas no tremor das mãos, não haveria problemas se ficasse apenas ali, mas em qualquer outro lugar seria muito mais perigoso. As humilhações conhecidas, o barulho, a necessidade de olhar para as pessoas e fingir que se importa. Outra culpa que carrega, gostaria de se importar, mas perdeu essa capacidade. Ouve tudo, absorvendo o desespero que vem do outro, mas não pode se mexer, não pode ajudar, não pode. É sempre o não.

Depois do almoço, ela resolve passar batom. Vermelho. Não acha que fica bom, sente-se uma aberração, um palhaço talvez. Novamente tenta se lembrar, um passo após o outro, as mãos, os joelhos. 

Respire, respire.

Entende o quanto tudo é uma bobagem, mas não consegue se libertar. Assim que entra na sala, ele começa a rir. Ela segura as lágrimas e aprende, melhor nunca ter cores. Aquela cena se repetirá em sua mente inúmeras vezes, ela sabe. Ele desconfia. Pensa que nunca mais olhará para ele, pensa que é melhor ignorá-lo, não notá-lo, mas para que possa realizar qualquer uma dessas ações ele precisa procurá-la, olhá-la, notá-la e ele nunca o faz. Então ela passa o dia segurando o choro, sem conseguir trabalhar. Um passo após o outro. 

Respire, respire.

Sai do escritório com a cabeça baixa, não suporta a ideia dos olhos. Olhar alguém, ser olhada. Na rua não precisa mais disfarçar, as lágrimas chovem naturalmente. Desse mecanismo ela não se esquece.

Chega em casa nesse mesmo estado, a mãe, tão acostumada àquela cena, pergunta se ela já tomou seus remédios e volta para seu canto, chorando também. A irmã pergunta o que aconteceu, ouve aquela mesma história, oferece quatro comprimidos, tudo natural, ajudam a dormir. Ela aceita e os engole de uma vez assim que consegue controlar os soluços. Depois toma um comprimido do outro, não tão natural, que causa dependência. Mesmo assim não pega no sono, mantém-se alerta rememorando os acontecimentos do dia, discutindo consigo, tentando se convencer de que a realidade não era como a sentia. De qualquer forma, saía derrotada. Para ela, vida era sinônimo de autoagressão. Pensando em conflitos que nunca poderia resolver, adormeceu conquistada pela mistura.

Na manhã seguinte, os remédios insistem em segurar seus olhos. Ela utiliza o pouco de lucidez para se levantar da cama, para tomar banho, para resistir ao impulso de se deitar novamente, de tomar mais comprimidos, de forma definitiva se possível. Sai de casa ainda sob efeito das drogas, mas nem elas podem ensiná-la como não esquecer. Um passo após o outro. Mãos. Joelhos. 

Respire, respire.

Também não podem diminuir o vermelho do sangue, mais intenso em todos os lugares em que deveria ser ralo. Morria todas as vezes que entrava naquela sala, mas tudo bem, morria sempre que abria os olhos, morria ao chegar em casa, morria quando revelava tentando esconder.

Não queria vê-lo, mas não podia evitar. Fins de semana eram uma tortura, como os outros dias, mas sem ele. Era tão agradável sofrê-lo a distancia, idealizava-o, sentia-se preenchida de sua falta, pensava que era uma dor tão pungente, mesmo sem saber o que isso significa. A verdade é que era muito mais fácil obcecar-se por uma questão menor, conhecendo os traços da dor. Sobre essa dor é possível falar, é possível fingir, é possível viver.

A dor conhecida é aconchegante. Se não mais amasse aquele homem, teria que enfrentar outras rejeições, olhar para outros homens, alguns talvez a quisessem. Ou pior, se não estivesse preenchida dele e de todo o seu não, teria que enfrentar aquilo. Aquilo que a tinha levado aos remédios, àquele homem, a se esquecer de como andar sem cair. Mãos. Joelhos.

Respire, respire.

Nem os remédios, nem aquele homem, nem a vida massacrante em casa, nem a vida sufocante no trabalho eram capazes de esconder a língua fria do nada que lambia sua nuca, roçava suas pernas, trazia o tremor a suas mãos. O grande vazio branco que sempre a acompanhava, tão assustador. Sabia que quando finalmente o abraçasse, se esqueceria até mesmo de como fazer as lágrimas caírem. Sem passos, sem mãos, sem joelhos, sem ar. Todas as forças que acreditava ter existiam para não lembrar e é por isso que muitas vezes faltavam para as coisas mais banais como levantar-se, tomar banho, responder a uma pergunta. 

Saiu da sala, foi até o banheiro. De novo, o batom. Vermelho.

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