domingo, 8 de fevereiro de 2015

Razão Natural


É necessário muito cuidado na produção de um casaco de pele. Para manter os pelos intactos e brilhantes, os animais, agrupados em grandes quantidades num compartimento apertado, costumam ser eletrocutados ou afogados. Existem outras técnicas, o que importa é não sujar o futuro artigo de luxo com fluidos. Também é preciso reduzir custos. Às vezes, corta-se a língua do animal para que sangre até a morte, assim o risco de manchas torna-se quase nulo. Lidar com as carcaças pode ser desagradável, mas o resultado é belíssimo.

O trânsito estava pior que de costume. Nas últimas semanas tinha sido assim, mais dias anormais que qualquer outra coisa. Felizmente Bete conseguira se sentar. Na janela, ainda por cima, o que a protegia um pouco da mistura de hálitos e odores passeando pelo ônibus lotado, mesmo assim era difícil respirar naquele ambiente tão claustrofóbico. Relaxar então era impossível, ainda mais com a senhora cheia de sacolas que se sentara a seu lado e insistia em invadir seu espaço. A senhora, por sua vez, tentava a todo custo desviar da mochila do rapaz de pé em sua frente, a qual insistia em descansar em sua cabeça. Toda vez que o ônibus parava, olhares incrédulos, não cabia mais ninguém ali, mesmo assim cinco ou seis novos acabavam entrando em cada ponto, era sempre assim.


 Por mais que tentasse, Bete não conseguia ficar nervosa com o atraso, talvez fosse o calor. Acabara de passar pelo período de experiência e agora era funcionária registrada de um grande prédio. Torre, não era prédio, era torre, precisava se lembrar de utilizar as palavras corretas, tinha sido corrigida pela coordenadora.

Levava quase duas horas para chegar ao centro da cidade, sempre espremida entre cotovelos, bolsas, queixos e rabos de cavalo. Tinha que estar pronta para o serviço às sete. Como recepcionista, era responsável por causar a primeira impressão, a que ficava e tinha que ser boa, segundo o treinamento. Chegava uniformizada, seus cabelos deveriam estar sempre limpos, as unhas pintadas com cores claras e delicadas, o rosto com maquiagem leve, mas evidente. A alergia na pele era irrelevante, a base e o corretivo escondiam a vermelhidão e Bete aprendera a ignorar a ardência. Quando os cílios ficavam molhados e as pálpebras teimavam em fechar, ela os apertava discretamente com um lenço de papel caríssimo que comprara na tentativa de minimizar a dor. Não estava funcionando.

O teste de irritação dos olhos mede a nocividade dos ingredientes químicos presentes em cosméticos. O produto é aplicado nos olhos do animal, em geral um coelho, que fica consciente durante todo o processo. Para prevenir que a cobaia arranque os próprios olhos, ela é imobilizada e clipes de metal mantêm as pálpebras abertas. O teste pode durar até dezoito dias. Ao final, o animal é eliminado para que seja possível a averiguação dos efeitos internos das substancias experimentadas. Os guinchos podem incomodar os ouvidos mais sensíveis, mas o resultado são produtos razoavelmente seguros.

Bete sentia falta de olhar as unhas vermelhas que tanto a orgulhavam. Eram enormes, mas tiveram que ser cortadas porque vulgaridade não era um dos princípios regentes da empresa. No início não se importou, teriam a cor que quisesse aos finais de semana. No primeiro estava cansada e devia alguns documentos para o RH. No segundo teve que comprar a maquiagem de cores claras que fariam seu rosto arder. No terceiro limpou a casa e foi ao supermercado. Saía todos os dias às cinco horas e voltava só depois das sete. Exausta, às vezes nem conseguia terminar de assistir a novela. No quarto, dormiu o tempo todo. Então entendeu e desistiu.

Não havia bons lugares para comer naquela região, não que pudesse pagar. O feijão da marmita sempre secava, o arroz era bom, a carne, a mais simples, era quase sempre moída e dura, às vezes um ovo cozido. Gostava de cozinhar, pena que não tivesse mais ânimo. De sobremesa, uma banana. Às sextas-feiras, comia um cachorro quente na esquina, não pelo gosto, mas porque era agradável andar sentindo o sol. No dia do pagamento gostava de comer no McDonald’s, um mimo que dava a si mesma uma vez por mês. Bete podia sentir a marmita no colo, ela estava começando a cheirar. Enquanto isso, pessoas reclamando do governo, se exaltando e se acotovelando na ida para mais um dia de trabalho. E o trânsito parado.

O abate de gado é feito de acordo com normas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - Secretaria de Defesa Agropecuária - Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal. Há um grande corredor estreito que obriga os animais a caminharem um atrás do outro e os leva a um espaço no qual cada um é atingido no cérebro com uma marreta pneumática, a maioria deles pelo menos. Em seguida, como num filme de cunho religioso, o chão se abre e os bovinos ficam em um compartimento até que terminem de vomitar. Depois são içados pela pata traseira e degolados. O abate é concluído quando o animal termina de sangrar. O estrebuchar inevitável pode avariar os equipamentos, mas a carne é deliciosa.

Leonor, uma das recepcionistas mais antigas, com quase sete anos de empresa, vivia dizendo que adorava o trabalho, pois seu negócio era lidar com gente. Gostava de ver pessoas, conversar, interagir, conectar-se. Quando podia, Bete observava para ver se os clientes eram diferentes com ela. Não eram. Na fila, aguardando para fazer o cadastro ou ditar o número do RG, ninguém fazia contato visual, mesmo os educados estavam cegos. Um atrás do outro, olhando para baixo, mexendo no celular, sem saber, sem ser. Os espontâneos, esses eram piores, olhavam-na, mas não a viam. Recebia muitos elogios deles, era chamada de princesa, amor, meu bem. Tivera até propostas de emprego, você devia ser modelo, diziam. Ela sabia o que aquilo tudo significava, sempre soube, mesmo sendo incapaz de retrucar. Fingia-se inocente, era a única maneira de sobreviver, baixava os olhos e tentava não pensar em nada até o final do dia. Um bebê esperneando no colo da mãe, o cheiro de leite azedo, as pessoas irritadas em volta e o ônibus se movendo vagaroso.

Existe um tipo de armadilha muito simples de ser feito, utiliza-se arame farpado e só, baixo custo. Particularmente interessante, pois é mais mortífero e doloroso quanto maior o desejo de liberdade. Quando o primeiro aviso de dor se forma no cérebro já é tarde. O animal entrou no dispositivo agindo por vontade própria, sabendo sem saber. Então é capturado e conforme se movimenta na tentativa de se desvencilhar vai sendo envolvido pelo fio de aço. Suas pontas penetram na carne a cada inspiração. A pele não fica intacta, a carne fica suja de detritos, mas a morte é lenta e dolorosa.

Procurava uma desculpa convincente para o inevitável atraso. Incrível, acabara de completar o período de experiência e era a terceira vez que não chegava na hora. Pareceria uma afronta. Eles não imaginavam, ou talvez soubessem, que a raiva que sentiam e a petulância que enxergavam nela eram muito menores que o medo de Bete ante a possibilidade de perder o sustento. Não naquele dia. Naquele dia não sentia nada. Mesmo assim queria pensar. A primeira vez fora uma passeata de professores exigindo salas de aula menos abarrotadas de alunos, a segunda, um ônibus queimado depois de uma operação da polícia em uma comunidade. Cinco criminosos mortos, dissera o jornal. Chuva não tinha mais, nesse tempo de seca, ela quase sentia saudades das enchentes. Não sabia se era pior a falta de água ou a sala alagada. Riu do absurdo. 

O ônibus avançou mais cinquenta metros e ela entendeu. Era real demais para que acreditassem, Bete continuou a buscar uma explicação plausível. Da janela do ônibus via-se, no sentido contrário logo depois do canteiro, bombeiros lavando a grande mancha de sangue na avenida enquanto carros diminuíam a velocidade e baixavam os vidros, fascinados pela tragédia alheia.  



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