domingo, 29 de março de 2015

A fada




A fada me disse sai de trás da pedra filha. Ela me disse. A fada me disse que via muitas borboletas ao meu redor. Ela me disse. A fada me disse que borboleta é o bicho mais abusado que tem, passando bem na frente pra mostrar aquela asa desproporcional. Ela me disse. Mas eu não gosto de borboletas. 

A fada me disse que tinha muito doce nesse corpo. Ela me disse. A fada me disse que eu podia carregar a casa inteira e não me importar. Ela me disse. Eu não disse nada. Eu agradeci. Eu sei que onde sou só existe o azedo no gosto. Eu sei que não consigo nem carregar meus pensamentos sem cair. Nem meus sentimentos. Nem os dos outros.

quinta-feira, 19 de março de 2015

É o acordar que nos mata





Suzie era uma mulher. Sua maior característica era ser trouxa. Todos viviam dizendo a Suzie o quanto ela era trouxa e ela agradecia com os olhos cheios d’água. Porque era trouxa. No trabalho, oferecia ajuda a qualquer um que indicasse precisar. Ajudava quem não queria trabalhar por causa de problemas pessoais, por acumulo de serviço, por problemas de saúde, por preguiça. Ajudava sem ninguém nunca pedir e, quando ouvia o quão errado tinha realizado as tarefas, sentia-se muito grata por trabalhar com pessoas tão honestas que sempre diziam a verdade. Também se sentia mal por ser inútil e não conseguir fazer as coisas direito. E jurava melhorar. Era trouxa.

O namorado de Suzie era muito bom, ficava com ela apesar de ela não agradar a seus pais, de não saber cozinhar. Ficava com ela apesar de ela estar sempre triste e não lhe dar atenção suficiente. Ou dar muita atenção quando ele não queria nenhuma. Às vezes, até saía com Suzie aos finais de semana. Era realmente uma pessoa admirável, ela pensava, surpresa por um homem como aquele tê-la aceitado em sua vida, exceto na maioria dos finais de semana ou quando ele tinha alguma outra coisa para fazer. Ficava agradecida por ele, tão generoso, demonstrar interesse por alguns assuntos dos quais Suzie gostava. Ele perguntava a ela sobre livros mesmo odiando ler. O rosto de Suzie se iluminava e seus olhos se enchiam d’água pelo esforço que o namorado fazia. Nessas ocasiões, ficava tão feliz que era egoísta e passava vários minutos falando sobre seu assunto preferido. Quando, pouco depois, ele reproduzia tudo, mas tudo mesmo, que ela havia dito em um post no facebook, ficava cheia de orgulho por ele tê-la escutado com tanta atenção. O orgulho era tanto que nem se incomodava de não ver seu nome ali. Trouxa.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Músicas que empoderam - Alix Olson : A Boca de Eva



Eve’s Mouth 




A boca de Eva dói de tanto segurar o riso 

Por uma piada que algum acadêmico fez 

Sobre ela ser a metade de alguém, 

Foi uma piada, uma mentira, um exagero, uma farsa 

E agora todos acreditam que eu vim da costela dele! 

Ela grita com todas as suas forças: 
Eu sou inteira! Sou corpo, coração, mente, alma. 



Bem, a Rainha Vitória deu conselhos a sua filha 

Pois a filha estremeceu em sua noite de casamento 

A Rainha Vitória disse a sua filha 

“Apenas não se mexa e pense no Império” 

E o marido, apesar de gentil e brando 

Nunca parou para pensar por que ela nunca sorria. 


Chapeuzinho Vermelho andava pela estrada afora 

Carregando os doces, 

ela pensou “Eles vão estragar” 

Então ela comeu todos e foi assim 

Depois vomitou tudo por medo de engordar 

Porque até a Chapeuzinho lê revistas 
Daquelas que publicam dietas para pré-adolescentes 



Também tem a Cinderela, sossegada em casa 

Se sentindo feliz por estar sozinha 

Está brincando com os camundongos e cantando com os pássaros e eles são os únicos que a ouviram dizer isto. 

Ela disse “Vou entrar nessa abóbora. Fazer tudo certo, chorar e perder meu sapato, dar chilique à meia-noite. 

Mas há uma coisa da qual o príncipe pode não gostar 

É da Fada-madrinha que estou a fim, 
Eu sou sapatão!” 



Ela grita com todas as suas forças: 

Eu sou inteira! Sou corpo, coração, mente, alma. 

Ela grita com todas as suas forças: 

Eu sou inteira! Sou corpo, coração, mente, alma. 



E a Branca de Neve, uma mulher muito prendada, ela limpa, cozinha e cuida de anões. Um dia eu lhe disse: “Branca de Neve, volte para a escola” 

Ela disse: “Não, não posso, me sentiria uma tola. Sabe, é difícil para nós mulheres tentarmos ser nós mesmas, nós passamos a vida inteira cuidando de duendinhos” 



Também temos a Rapunzel, sossegada na torre, esperando pelo belo príncipe, 

Foi-lhe tirada toda sua força... 

Um belo dia, finalmente, o príncipe apareceu 

Gritou para Rapunzel “Ei, garota, deixe cair!” 

Mas nossa querida Rapunzel não pôde ser avistada; 

Sim, nossa querida Rapunzel havia aprendido algo muito legal 
“Todo aquele tempo sozinha me ensinou como lidar com a situação 
Então eu raspei a cabeça e fiz uma corda!” 



Helena, de Tróia, dizem que foi a causa de uma guerra 

Por causa do tamanho de sua saia e do formato de seus lábios 

E quando aquele bardo velho colocou disse que a culpa era dela 

Pela violação de uma nação 

Lugar errado. Hora errada. 

Helena simplesmente murmurou “A história é nosso teste. 
Vejam as entrelinhas, garotas, leiam além do texto” 



Ela grita com todas as suas forças: 

Eu sou inteira! Sou corpo, coração, mente, alma. 

Ela grita com todas as suas forças: 

Eu sou inteira! Sou corpo, coração, mente, alma. 

Ela grita. 





domingo, 8 de março de 2015

O barulho que fazem os pés quando a gente dança







Luana, era uma vez, gostava muito de bolo com recheio de geleia de morango. Era ela que fazia. Levava o dia inteiro preparando o doce. Como não tinha muita farinha e muito menos morango, o trabalho de um dia inteiro dava só pra uma mordida, mas era a melhor mordida de bolo com recheio de geleia de morango que já existiu, porque esse era o talento de Luana, era um talento só dela.

Luana tinha um vizinho, Bruninho. Bruninho não tinha talento. Ou não sabia seu talento. Ou escondia de todo mundo seu talento. No fundo, no fundo, Bruninho gostava mesmo era de fazer barulho. Não o barulho de cantar ou mesmo o barulho que fazem os pés quando a gente dança. Era um barulho bobo e que não servia pra nada. De verdade, nem Bruninho gostava desse barulho.

domingo, 1 de março de 2015

Apaixonadamente






Ela é morena, pequena e delicada, uma princesa. Seus cabelos castanhos são longos e feitos de ondas que afogam o olhar. Lábios convidativos seguidos por olhos ingênuos, alheios até, fazem com que seja tão impossível não desejá-la quanto o é tocá-la. Infinitamente perfeita em sua imperfeição, ela é ansiada.

As pernas dela atraem sem esforço de causa e as palavras que saem de sua boca o sugam mesmo quando ele não as ouve, distraído pelos olhos, boca e trejeitos. Sua implicância obstinada com as coisas mais banais e a indecisão resoluta em sua voz o transportam para esse universo dissonante em que ela reina absoluta.