domingo, 1 de março de 2015

Apaixonadamente






Ela é morena, pequena e delicada, uma princesa. Seus cabelos castanhos são longos e feitos de ondas que afogam o olhar. Lábios convidativos seguidos por olhos ingênuos, alheios até, fazem com que seja tão impossível não desejá-la quanto o é tocá-la. Infinitamente perfeita em sua imperfeição, ela é ansiada.

As pernas dela atraem sem esforço de causa e as palavras que saem de sua boca o sugam mesmo quando ele não as ouve, distraído pelos olhos, boca e trejeitos. Sua implicância obstinada com as coisas mais banais e a indecisão resoluta em sua voz o transportam para esse universo dissonante em que ela reina absoluta.


Não há dúvidas, ele poderia passar vidas inteiras a observando apenas e seria feliz. O modo peculiar como ela segura o lápis por si só é suficiente para explicar o fanatismo e devoção que queimam em seu corpo quando a vê. O vermelho do batom o faz compreender o sentido da cor da paixão. Ela é amável. Simplesmente.

Ele confia na verdade de seu amor que não o arrebatou à primeira vista, mas foi nascido, criado e alimentado durante todos os dois meses em que conviveram, desde o primeiro encontro até o término da matéria que cursaram juntos, e ao longo de todos os dez meses subsequentes em que pouco se falaram e ainda menos se viram, a não ser em sonhos em que ele rememorou todos os motivos que o fizeram escravo.

Ele a ama, pois ela só pode ser amada. Venerada. Súdito voraz, ele foi cativado pelo cozimento lento de sentimentos sinceros, únicos possíveis após a experiência de amar com plenitude. Ele, escolado em inferioridades, mesmo pesaroso após a rejeição, continou a amá-la, idolatrá-la e servi-la, certo da inevitabilidade de suas ações ante o epítome da beleza e encantamento.

Ardentemente é como ele a sente, não apenas porque a deseja, mas porque possuem mentes afins. Conversam fluidamente. Nunca falou ou escutou sobre medos, frustrações, planos para o futuro. Também nunca falou ou escutou sobre empregos, famílias ou preferências, mas poderia. Poderia falar com ela sem nenhum problema sobre todos esses tópicos, se pudesse ser agraciado com o privilégio de sua presença. É por isso que a ama, com ela é tudo tão fácil e agradável.

Quando escreve, ele dá vazão a todo o êxtase que ela produz dentro dele. E, servil, ajoelha-se a seus pés, sua musa fascinante. Com ela, não precisa de nada. Ele a quer para todo o sempre e a vê, ouve e sente em todo e qualquer lugar. As palavras que brotam dele são belas, apesar de imprecisas, insuficientes na tradução da nobreza e eterealidade terrena de sua sereia. De fato, ele a ama. Ela só lhe faz bem. 

Ela nunca disse que ele era mimado, apenas sorriu nas breves conversas em intervalos. Ela nunca pediu favores, apenas leu palavras escritas em sua honra. Ela nunca apontou hipocrisias, apenas agradeceu gentilezas. Ela nunca o acusou daquilo que ele fez, apenas disse oi. 

É um devoto. Ele se sente capaz de fazer qualquer coisa por ela. O conhecimento profundo que tem de sua deusa o tornou assim. 

É por isso que ele a ama e deseja, só a ela, mais ninguém. Ela não é cruel. Não exige. Não questiona. Não espera. Ela nunca pediu nada e ele sempre disposto a tudo. É por isso que ele a ama, suas almas são irmãs e ela, anjo de luz, é incapaz de suscitar qualquer sentimento que não o de gozo. É por isso que ele a ama, ela nunca sorriu com um pedaço de couve entre os dentes. A solidez das relações construídas. O amor.


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