domingo, 12 de abril de 2015

E Luana estava aqui



Luana achava que era Jesus Cristo. Não, não era como aquele cara estranho que faz versões das músicas da Amy e da Britney. Não era como ele. Era como se tivesse nascido com vocação pra Madre Teresa de Calcutá. Só que não tinha.

Luana nasceu na miséria e cresceu na miséria. Assim, sempre buscou a miséria. Nesse mundo, encontrou-a em abundancia. E continuou acreditando apenas nela.

Luana só sabia a miséria, mas não suportava a dor. Não a sua, não a de ninguém. É por isso que ela tentava salvar o mundo e a si mesma. Coitada, como é que poderia salvar quando tudo que via, sentia e refletia era miséria?
Luana caminhava em busca de campos áridos. Foi assim com seu amor primeiro, foi assim com todos os outros. Depositava-o em recipientes rasos, impermeáveis, envolvidos por camadas e camadas de miséria. Não sabia outra coisa, por isso quando a rasgavam com o sal na terra, ela lia na destruição o amor de que tanto precisava e no abafado dos corações pequenos, a profundidade sem fim que possuía e evocava a miséria. Miséria, tudo que sabia enxergar e receber.

Aconteceu uma, duas, mais vezes do que ela podia compreender. Estranho como um olhar pode ver tanto e tão pouco do que importa. Luana via a dor e a miséria nos outros e partia a salvá-los porque queria ela ser salva, porque só assim sabia amar. Luana não via que nem sempre a dor e a miséria se vestem de querer salvar e ser salva e de querer preencher o buraco imenso de amor. Luana não via que a dor e a miséria muitas vezes, muitas mesmo, se vestem de crueldade e mesquinhez e de querer preencher o buraco com a dor e a miséria dos outros na tentativa de esconder a própria. Luana também não via que, embora todos pudessem ter profundezas, alguns escolhiam a rasidão e essa rasidão nunca poderia ser preenchida de amor justamente porque era rasa e rasgar profundidades dói e as pessoas fogem da dor. 

Luana não via porque achava que não suportaria enxergar. Luana inventava um céu azul da cor da noite, com pontinhos brilhantes capazes de iluminar o viver, mas que ficavam de olhos fechados só porque não sabiam ser feitos de luz. Luana inventava tudo isso quando só havia a noite pintada de cinza, sem nuvens porque nuvem também é imensidão. Era só uma quase cor escondendo o que talvez pudesse ser. Isso não podia no mundo de Luana, então ela pintava o cinza em azul e brilho porque seu mundo podia ser triste, essa miséria ela achava que podia salvar, mas não podia e não seria nunca feio nem raso, porque essa miséria sua profundeza não alcançava. 

Era assim e a cada pintura nova ela cavava um pouco mais fundo, tirando pedaços do que já não tinha, jogando sementes em terra morta de vontade, olhando bem forte, esperando o amor de que tanto precisava. 

Um dia ela conheceu um anjo-pirata que ela achou iluminado e meio bobo e que tinha o abraço mais gostoso que Luana já havia sentido na vida. Foi a primeira coisa que ela notou, um alguém que abraça como se quisesse mesmo abraçar. E porque ela queria e estava morrendo de tanta miséria e desamor, ele começou a cuidar de Luana que foi aos poucos tentando abrir os olhos. A luz de todas as coisas foi tanta que o monstro-miséria de Luana começou a espernear dentro dela querendo que ela abrisse os olhos só para aquilo que fosse dor e não pudesse ser fora. Então ela voltou a sua terra de sal e o olhou bem fundo, quase sem pensar. Por um tempo ela olhava os cristais branquinhos e enxergava que era brilho e ficava quase feliz e tentava salvar achando que finalmente tinha achado. Aquilo que a salvaria.

Dói. Luana queria e não queria ver. Muito dos dois. A miséria era grande e a puxava pra sua profundeza dizendo que os cristais eram sim brilho, aquele brilho que virava amor e que salvar existia e podia e que Luana deveria jogar sementes, cavocar mais um pouco, jogar sementes no sal e esperar. Luana acreditava porque miséria era tudo que sabia. Não sabia amar sendo amada. Com verde. Só sabia amar na terra árida e ler na destruição o amor. Mas Luana estava cansada. Sentia que se tornava seca e logo não haveria mais sementes, nem profundeza, nem miséria, nem Luana. Por isso começava a querer ver mais de um do que do outro. Bem pouquinho primeiro, depois um pouco mais. E Luana estava aqui. Nesse lugar de querer amar sendo amada, de querer ganhar sementes só pra ver o que a miséria diz. 

Então ela olhou a sua terra e ele era pequeno e raso e protegia sua rasidão com tudo que sabia. E doeu, doeu muito porque Luana viu a maldade e a mesquinhez e entendeu que aquilo tudo era medo e teve vontade de salvar e chorou tanto até quase ficar tão seca quanto ele. Chorou porque era triste, chorou porque não podia salvar, chorou porque ainda queria jogar sementes e chorou porque nada disso adiantava. E Luana morreu. E morrendo disse até, porque não conseguia ir embora toda. Ainda não conseguia ir embora toda. Mas Luana queria aprender a amar.


Luana disse até. Disse até, até o dia em que pôde dizer não. Mas esse dia agora aconteceu.

2 comentários:

  1. suas escritas estão no beiral que separa o sarcasmo da lírica! Invista nelas! Esses perfis femininos são de uma sagacidade!

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    1. Nossa, Lucas! Obrigada pelo elogio, me deixa muito, muito feliz! :)

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