domingo, 25 de outubro de 2015

Almas Ingênuas



Luísa amava Igor, nada mais natural, eram perfeitos um para o outro. Trabalhavam em uma grande empresa há anos e, com o tempo, inevitável decidir que o queria.

Igor era bastante versátil, com os homens conversava sobre boceta, futebol e carros; com as mulheres flertava inocentemente. Era uma pessoa esclarecida, falava com confiança sobre política, economia e ciência. Adequava seu discurso de acordo com o interlocutor. Admirável.

Não era apenas uma mente brilhante, exibia o corpo de quem frequenta e, muito bem, a academia. Tomava shakes de proteína às manhãs. Tinha músculos definidos, mas sem exageros. Andava com as costas arqueadas e o peito estufado, como o dono de si que sabia ser. Era o proprietário de uma Ferrari amarela, não o vermelho clichê. Não fazia nada para compensar a careca que se aproximava, mais uma prova irrefutável de sua superioridade. Luísa não tinha dúvidas de que Igor era bem-dotado.

Ele tinha namorada. Namorada não, noiva. Um inconveniente, de fato, mas já estava na terceira e, em suas pesquisas, Luísa descobrira que o histórico de Igor era favorável. Costumava trair.

Almas ingênuas poderiam enxergar uma falha de caráter, mas Luísa sabia que não. Homens como aquele, tão raros, estavam incessantemente à procura de uma mulher à sua altura, capaz de satisfazer suas necessidades mais variadas. Natural que as coisas sejam diferentes num nível superior. Luísa sabia também que, assim que encontrasse a criatura ideal, Igor seria fiel. Evidente.

Conhecia diversas técnicas de sedução, aprendera-as na vida e nas revistas. Sabia quais funcionavam e com quem. Não gostava de incentivar interesses que não pudesse retribuir, era contra seus princípios, mas não podia bloquear seu brilho natural. Além disso, muitas das técnicas já haviam sido internalizadas e ela as usava sem perceber.

Com Igor, deveria ser mais cuidadosa. Se quisesse apenas sexo, seria fácil. Muito fácil. Não apreciava atitudes extremas, mas chegaria a usar a estratégia mais baixa que conhecia, caso necessário. Baixa porque direta, vulgar, sem mistérios. A técnica consistia em usar uma saia e, no momento propício, abrir as pernas para revelar a ausência da calcinha. Funcionara todas as vezes.

Mas, se fizesse isso, nunca se casaria com Igor. Ele não a valorizaria, não confiaria nela. Também não podia agir como uma moça inocente, isso o entediaria com certeza. Não, deveria ser algo diferente. Precisava deixá-lo curioso, sem saber em que posição a colocar. Esse seria o início de tudo.

Luísa já identificara sua rival. Nina era simpática com todos. Falsamente simpática. E era jovem, 23 anos apenas. Podia ser inocente com verossimilhança e o fazia. Sempre prestativa e sorridente, pronta a aprender, a aceitar qualquer ensinamento que recaísse sobre ela.

Nina era magra, diferente de Luísa, com suas bordas recheadas. Era assim que o ex-namorado costumava defini-la. É comum dizer que homens gostam de ter onde pegar, talvez fosse verdade no tempo de nossas avós, talvez seja verdade para homens de menor categoria, mas Luísa sabia que Igor não pensava assim. Nele, a verdadeira apreciação estética era grande e por isso preferia as magras.

Luísa já frequentava a academia, mas, ao invés de três vezes por semana, passou a frequentá-la seis. Até aos sábados. Tudo por Igor. Também fazia horas extras para passar mais tempo com ele e impressioná-lo. No tempo livre, pesquisava sobre seus assuntos favoritos. Queria seduzi-lo com corpo e mente para que ele desejasse desposá-la.

Estava cansada, mas valia a pena. Mesmo assim, devia tomar cuidado, não era de bom tom cochilar no caminho para o trabalho. As buzinas eram ferozes. 

Luísa aprendeu desde criança a importância e eficácia do esforço. Dessa vez não seria diferente, Igor já começava a flertar. É verdade que flertava com muitas outras, mas seu caso era especial. Ela sabia, ela sentia.

Ainda se preocupava com Nina, afinal, era importante estar sempre alerta, mas tudo corria conforme o planejado. Igor cada vez mais demonstrava seu interesse lançando-lhe olhares, sorrisos, palavras. 

Luísa estava tão feliz num dia em que fizera não duas, não três, mas quatro horas extras que acabou adormecendo no assento sanitário, sua cabeça repousando graciosamente contra a porta da cabine.

Ao acordar, caminhando com cautela pelo escritório, ainda enlevada pelo mais doce sonho, viu as costas de Igor. Seu corpo pressionava-se vigorosamente contra algo.

Gisele. A gorda do financeiro. 

Gisele e Igor casaram-se três meses depois. Ele vendeu sua parte na empresa e foi morar no Pantanal. 

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