domingo, 22 de novembro de 2015

Aula



Já na faculdade e ainda virgem. Fabíola não se incomodava muito, mas preferia não falar nada. As pessoas achavam um absurdo que aos 19 anos ela nunca tivesse beijado. Não era puritana. Era tímida. Só isso. Tivera vontade, não tivera coragem. Acreditava que nunca ninguém houvesse se apaixonado por ela, da mesma forma que nunca havia se apaixonado por ninguém. Não gostava muito de meninos. Não gostava muito de meninas. Na verdade, achava que as pessoas eram meio desinteressantes. Preferia não. 

Viveu bem. Sem grandes dramas. Escolhera o curso de biologia. Parecia lógico, já que não se sentia atraída pela ideia de interagir com outros seres humanos. Não sabia que provavelmente teria que dar aulas, lidando com um tipo especial de seres humanos – estudantes.

Até que gostava da faculdade. Tirava boas notas, menos nos trabalhos em grupo. Fazia-os sozinha e até repetira por isso. Achava que pessoas como ela, que não ligavam muito para pessoas, seriam comuns ali. Não era o caso. Decepcionante, tinha que admitir. 

Logo, como de costume, ganhara fama de estranha. Nunca achavam que era maluca, apenas estranha. Não sabia se gostava ou não do destaque. Tudo bem. Não sabia se era tímida ou não. Tudo bem. Não sabia se ligava ou não de não saber. Vivia sua vidinha fazendo suas coisinhas. Pronto.

De uma certa forma, era desenvolta. Andava pela faculdade como se fosse sua casa, sabia onde estavam todas as coisas nos laboratórios, na secretaria, em todos os recintos e salas. Ninguém estranhava a presença de Fabíola nesses lugares. Era como se ela estivesse sempre ali. Parte da paisagem.

Entrou no armário à procura de uma escada. Queria subir em uma árvore que conhecera. Adilson, o segurança, estava lá. Fabíola não sabia que o nome dele era Adilson e Adilson não sabia que o nome dela era Fabíola. 

Sem saber ou sem querer saber porquê, Fabíola sorriu um sorriso lindo, Adilson pensou. O armário era apertado e enquanto ele tentava dar passagem para que ela chegasse até a escada e ele chegasse até a porta, seus corpos se tocaram. 

Fabíola parou. Segurou o braço de Adilson que, constrangido, não fazia contato visual e tentava se mover sem deixar vestígios. Ela segurou aquele braço como se nunca tivesse se deparado com nada parecido. Com curiosidade de cientista, tateava-o, tentando compreender. Adilson a olhava fixamente quando ela deslizou a mão esquerda e sentiu o membro enrijecido. Membro? Riu da palavra. Pênis? Pinto? Pau? Salsiiiiiicha. Antes que Adilson expressasse o que quer que fosse, Fabíola abaixou suas calças. Depois, abaixou as dele. 

Sua xoxota é tão quentinha. Fabíola riu. Muito alto. Quando Adilson tentou tapar sua boca, ela o mordeu. Ninguém estragaria o momento. Não durou muito. Mas também durou para sempre. 

Na semana seguinte, Fabíola repetia incansavelmente. Xoxota. xo – xo – ta. x – o – x – o –t –a. Xoxóta. Xoxóoooota. 

Pelo resto da vida, Fabíola trabalhou com biologia. Foi pra Sabesp, pra Amazônia e pra Recife. E pelo resto da vida buscou pessoas que lhe dissessem xoxota. E sempre que ouvia e sempre que dizia, lembrava-se. Xo – xo –ta. Tinha uma xoxota e a amava.

Era feliz.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O quarto andar

O preto, a gorda e o viado sempre almoçavam juntos e era bom. O viado comia muitas salsichas, o preto comia arroz, feijão, macarrão e ovo frito, e a gorda comia todo o resto.

O preto, a gorda e o viado não gostavam da vadia porque achavam que ela tinha dado para o chefe e, por isso, recebera a promoção. Eles estavam errados, a vadia nunca daria para alguém como o chefe. Ela dava para o manobrista e gostava muito. Ele também gostava muito, mas nunca largaria a esposa, e a vadia achava certo.

O chefe havia promovido a vadia porque ela era gostosa e ele queria comê-la. Ele também achava que os clientes todos também desejariam comê-la e isso seria bom para os negócios.

O chefe não gostava do preto porque ele era preto, não gostava da gorda porque ela era gorda e não gostava do viado porque ele era viado.

O viado gostaria de comer o chefe. O viado era sempre ativo porque achava dar o cu muito humilhante. No fundo, o viado gostaria de dar o cu para o chefe e o chefe gostaria de dar o cu para o viado – não daria certo.

O viado não gostaria de comer o preto porque tinha medo que ele risse do tamanho de seu pau. Não era muito pequeno, mas era um pau de branco, nunca poderia se igualar. O viado não sabia que o preto tinha um pau de tamanho normal. Pequeno para um preto, normal para um branco.

O preto gostaria de comer a gorda, a vadia, o viado e o chefe, todos ao mesmo tempo, de preferência, mas era evangélico e acreditava nas palavras do pastor que dizia que pobre era pobre porque desagradava a Deus e que viados e vadias iam todos para o inferno. O inferno é ruim, aparentemente, apesar de estar cheio de viados e vadias.

O preto não entendia muito bem, mas o inferno era um lugar de sofrimento, de mais sofrimento que  a terra, onde ele não podia comer nem viado nem vadia. O céu era um lugar bom. Ele esperava que lá pudesse comer todo mundo, com a benção de Deus.

A gorda até que faz bastante sexo. Ela sempre escolhe gordos mais gordos que ela. Se não os encontra, escolhe alguém bem estranho. É uma questão de princípios, gosta de se sentir superior.

A gorda, quando vê a vadia comendo seus palitinhos de cenoura, faz questão de passar em frente à mesa dela com um grande pedaço de bolo com cobertura de chocolate. A gorda gosta de esfregar sua felicidade de gorda na cara dos outros, considera uma espécie de educação pela pedra.

A vadia se orgulha de ser gostosa de verdade, com carne nos lugares certos. A vadia também se orgulha de nunca usar suas carnes para subir na vida. Seu corpo existe apenas para seu prazer e para o prazer do outro, quando ela assim o decide.

A vadia gosta muito de ler romances eróticos para ver como o resto do mundo é ruim de cama. Ela se considera muito boa, mas não é, porque não sabe fazer a sucção e se esquece das bolas. Ela também não presta atenção em detalhes que importam, como mamilos, pontinhas de orelhas e aquela parte no fim das costas, no não-lugar entre elas e o ventre.

Um dia, estavam o preto, a gorda, o viado, o chefe e a vadia todos juntos no elevador, e ele parou de funcionar. Foram duas horas de respiração no escuro. A vadia achou a gorda cheirosa e ficou com vontade de perguntar o nome de seu perfume. O preto imaginou que finalmente se comeriam uns aos outros e ficou de pau duro. A gorda ficou cansada e quis se deitar. O chefe imaginou-se encoxando o viado por engano, achando que era a vadia, e ficou de pau duro. O viado desconfiava estar apaixonado, o que lhe causava problemas de ereção, e seu pau não endureceu.

Ninguém fez nada e nem comeu ninguém.


domingo, 1 de novembro de 2015

Elas


Foi bom, mas ela era gorda. Ela era gorda, mas foi bom, diz o primo na festa da família e os outros querem saber mais e ele diz mais. Ela era gorda, mas foi bom. Foi bom, mas ela era gorda. E Maiara quer chorar. Ela também é gorda e imagina que outros falam assim sobre ela. Não os primos, para os primos, Maiara é Maiara apenas. Uma pessoa, não uma mulher. Como as mães, as suas, é claro, não as dos outros.

Você tem um rosto tão bonito, escuta sem responder à ofensa velada. Entende muito bem o ‘mas’ implícito nesse tipo de colocação. Olha-se no espelho, só o rosto descoberto. A parte de si que talvez se salve. E o grande ‘mas’ permeando tudo do pescoço para baixo. Saias longas, mangas compridas, roupas largas, sapatos fechados. Tudo na tentativa de esconder o que mais se evidencia. Já aprendeu a não enxergar o grande espelho no banheiro.

Cores, joias, maquiagem. Tudo muito feminino. Nem sabe se gosta. Só sabe que se cansou de ouvir que, se além de gorda, for desleixada, aí não dá. Se cansou e foi vencida. Sempre pensa nas mulheres naturalmente bonitas, elas podem ser desleixadas e viverão sem críticas, ainda serão bonitas, femininas.

No apartamento ao lado, Jéssica ouve os tios. Mulher tem que ter onde pegar. Essas modelo aí é tudo tábua, que graça tem? Jéssica não tem graça. Ela não é apenas magra. É esquelética. Não tem peito nem bunda. Parece um menininho, como já ouviu dizerem. Se fosse gorda. Não gorda, gorda. Gordinha. Teria peito, bunda, coxas, lugares onde pudessem pegar. Não tem, nunca terá. Já tentou comer bastante pra ver se alguma coisa mudava. Não mudou. Continuou magra. A única diferença foram as dores de estômago.

Sonia, tia de Jéssica, finge que não nota os olhares do marido em direção à amiga da filha. 15 anos! Uma criança, mas Sonia não vê. Sonia sente raiva, inveja. Aquela menina cheia de espinhas, de gordurinhas, atrai sem querer a atenção de seu marido quando ela tenta tanto e não consegue. Olha as rugas no espelho e pensa que se fosse mais jovem, tudo seria diferente.

No andar de baixo, Larissa entra em desespero. Está saindo com Guilherme há três meses. Ele fez de tudo para conquista-la. Ela é muito bonita. Loira, alta, magra, jovem. Peitos, bunda, coxas. Ela sabe disso. Todos sabem. Larissa é bonita e chora quase sem respirar. Apaixonou-se por Guilherme ou talvez pelo desejo que tinha por ela.

Ela sempre se cuidou. Academia, cremes, dieta, perfumes. Não sabia o que fazer. Guilherme nunca havia feito sexo oral nela. Ela gostava, mas não tinha coragem de pedir. Mas queria tanto, no último mês só conseguia se masturbar pensando nisso. Não dizia nada, mas tentava criar situações propícias, enfeitava-se como nunca. Nada. Não adiantava, mas Larissa queria. Queria tanto que um dia, timidamente introduziu o assunto.

Depois de muita insistência, ele confessou. Disse que não era que não gostasse. O problema era o cheiro. A vagina de Larissa exalava um odor nauseante. Ele não podia suportar.

Larissa ficou desesperada. O que poderia fazer? Foi a um ginecologista e um dermato. Segundo eles, não havia nada de errado com seu corpo. Será que era uma porca? Pesquisava e pesquisava jeitos de eliminar cheiros. Pensava em todos os homens com quem saíra. E eram muitos. Será que todos eles tinham notado? Meu Deus, que vergonha.

Larissa estava tão desesperada que não conseguia pensar. Se conseguisse, lembraria-se de que Guilherme nunca havia chegado perto o suficiente para sentir qualquer cheiro.

No apartamento ao lado do de Larissa, morava um traveco. Na lista de ofensas, essa era das mais insignificantes. Verônica, com muito custo, pagara por seus peitos. Adorava-os. Também tomava hormônios que comprava de um Argentino. Mesmo assim, ainda tinha que fazer a barba todos os dias.

Verônica era prostituta. Prostituta não, traveco. Era tudo o que permitiam que fosse. Não queriam deixar, mas Verônica era mulher. Sempre fora mulher. Nascera com um pênis e vivia com um pênis, mas era mulher. E, portanto, estava errada. E seu corpo não era seu. E o discurso sobre seu corpo não era seu.

Verônica, como todas as outras, não sabia. O problema não é ser gorda, magra, alta, baixa, jovem, velha. Ser bonita ou feia. Burra ou inteligente. O problema também não é ter um pênis. O problema é ser mulher.

E se Verônica soubesse. E se as outras soubessem, poderiam começar a se libertar.


Mas elas ainda não sabem.