domingo, 1 de novembro de 2015

Elas


Foi bom, mas ela era gorda. Ela era gorda, mas foi bom, diz o primo na festa da família e os outros querem saber mais e ele diz mais. Ela era gorda, mas foi bom. Foi bom, mas ela era gorda. E Maiara quer chorar. Ela também é gorda e imagina que outros falam assim sobre ela. Não os primos, para os primos, Maiara é Maiara apenas. Uma pessoa, não uma mulher. Como as mães, as suas, é claro, não as dos outros.

Você tem um rosto tão bonito, escuta sem responder à ofensa velada. Entende muito bem o ‘mas’ implícito nesse tipo de colocação. Olha-se no espelho, só o rosto descoberto. A parte de si que talvez se salve. E o grande ‘mas’ permeando tudo do pescoço para baixo. Saias longas, mangas compridas, roupas largas, sapatos fechados. Tudo na tentativa de esconder o que mais se evidencia. Já aprendeu a não enxergar o grande espelho no banheiro.

Cores, joias, maquiagem. Tudo muito feminino. Nem sabe se gosta. Só sabe que se cansou de ouvir que, se além de gorda, for desleixada, aí não dá. Se cansou e foi vencida. Sempre pensa nas mulheres naturalmente bonitas, elas podem ser desleixadas e viverão sem críticas, ainda serão bonitas, femininas.

No apartamento ao lado, Jéssica ouve os tios. Mulher tem que ter onde pegar. Essas modelo aí é tudo tábua, que graça tem? Jéssica não tem graça. Ela não é apenas magra. É esquelética. Não tem peito nem bunda. Parece um menininho, como já ouviu dizerem. Se fosse gorda. Não gorda, gorda. Gordinha. Teria peito, bunda, coxas, lugares onde pudessem pegar. Não tem, nunca terá. Já tentou comer bastante pra ver se alguma coisa mudava. Não mudou. Continuou magra. A única diferença foram as dores de estômago.

Sonia, tia de Jéssica, finge que não nota os olhares do marido em direção à amiga da filha. 15 anos! Uma criança, mas Sonia não vê. Sonia sente raiva, inveja. Aquela menina cheia de espinhas, de gordurinhas, atrai sem querer a atenção de seu marido quando ela tenta tanto e não consegue. Olha as rugas no espelho e pensa que se fosse mais jovem, tudo seria diferente.

No andar de baixo, Larissa entra em desespero. Está saindo com Guilherme há três meses. Ele fez de tudo para conquista-la. Ela é muito bonita. Loira, alta, magra, jovem. Peitos, bunda, coxas. Ela sabe disso. Todos sabem. Larissa é bonita e chora quase sem respirar. Apaixonou-se por Guilherme ou talvez pelo desejo que tinha por ela.

Ela sempre se cuidou. Academia, cremes, dieta, perfumes. Não sabia o que fazer. Guilherme nunca havia feito sexo oral nela. Ela gostava, mas não tinha coragem de pedir. Mas queria tanto, no último mês só conseguia se masturbar pensando nisso. Não dizia nada, mas tentava criar situações propícias, enfeitava-se como nunca. Nada. Não adiantava, mas Larissa queria. Queria tanto que um dia, timidamente introduziu o assunto.

Depois de muita insistência, ele confessou. Disse que não era que não gostasse. O problema era o cheiro. A vagina de Larissa exalava um odor nauseante. Ele não podia suportar.

Larissa ficou desesperada. O que poderia fazer? Foi a um ginecologista e um dermato. Segundo eles, não havia nada de errado com seu corpo. Será que era uma porca? Pesquisava e pesquisava jeitos de eliminar cheiros. Pensava em todos os homens com quem saíra. E eram muitos. Será que todos eles tinham notado? Meu Deus, que vergonha.

Larissa estava tão desesperada que não conseguia pensar. Se conseguisse, lembraria-se de que Guilherme nunca havia chegado perto o suficiente para sentir qualquer cheiro.

No apartamento ao lado do de Larissa, morava um traveco. Na lista de ofensas, essa era das mais insignificantes. Verônica, com muito custo, pagara por seus peitos. Adorava-os. Também tomava hormônios que comprava de um Argentino. Mesmo assim, ainda tinha que fazer a barba todos os dias.

Verônica era prostituta. Prostituta não, traveco. Era tudo o que permitiam que fosse. Não queriam deixar, mas Verônica era mulher. Sempre fora mulher. Nascera com um pênis e vivia com um pênis, mas era mulher. E, portanto, estava errada. E seu corpo não era seu. E o discurso sobre seu corpo não era seu.

Verônica, como todas as outras, não sabia. O problema não é ser gorda, magra, alta, baixa, jovem, velha. Ser bonita ou feia. Burra ou inteligente. O problema também não é ter um pênis. O problema é ser mulher.

E se Verônica soubesse. E se as outras soubessem, poderiam começar a se libertar.


Mas elas ainda não sabem. 

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