terça-feira, 10 de novembro de 2015

O quarto andar

O preto, a gorda e o viado sempre almoçavam juntos e era bom. O viado comia muitas salsichas, o preto comia arroz, feijão, macarrão e ovo frito, e a gorda comia todo o resto.

O preto, a gorda e o viado não gostavam da vadia porque achavam que ela tinha dado para o chefe e, por isso, recebera a promoção. Eles estavam errados, a vadia nunca daria para alguém como o chefe. Ela dava para o manobrista e gostava muito. Ele também gostava muito, mas nunca largaria a esposa, e a vadia achava certo.

O chefe havia promovido a vadia porque ela era gostosa e ele queria comê-la. Ele também achava que os clientes todos também desejariam comê-la e isso seria bom para os negócios.

O chefe não gostava do preto porque ele era preto, não gostava da gorda porque ela era gorda e não gostava do viado porque ele era viado.

O viado gostaria de comer o chefe. O viado era sempre ativo porque achava dar o cu muito humilhante. No fundo, o viado gostaria de dar o cu para o chefe e o chefe gostaria de dar o cu para o viado – não daria certo.

O viado não gostaria de comer o preto porque tinha medo que ele risse do tamanho de seu pau. Não era muito pequeno, mas era um pau de branco, nunca poderia se igualar. O viado não sabia que o preto tinha um pau de tamanho normal. Pequeno para um preto, normal para um branco.

O preto gostaria de comer a gorda, a vadia, o viado e o chefe, todos ao mesmo tempo, de preferência, mas era evangélico e acreditava nas palavras do pastor que dizia que pobre era pobre porque desagradava a Deus e que viados e vadias iam todos para o inferno. O inferno é ruim, aparentemente, apesar de estar cheio de viados e vadias.

O preto não entendia muito bem, mas o inferno era um lugar de sofrimento, de mais sofrimento que  a terra, onde ele não podia comer nem viado nem vadia. O céu era um lugar bom. Ele esperava que lá pudesse comer todo mundo, com a benção de Deus.

A gorda até que faz bastante sexo. Ela sempre escolhe gordos mais gordos que ela. Se não os encontra, escolhe alguém bem estranho. É uma questão de princípios, gosta de se sentir superior.

A gorda, quando vê a vadia comendo seus palitinhos de cenoura, faz questão de passar em frente à mesa dela com um grande pedaço de bolo com cobertura de chocolate. A gorda gosta de esfregar sua felicidade de gorda na cara dos outros, considera uma espécie de educação pela pedra.

A vadia se orgulha de ser gostosa de verdade, com carne nos lugares certos. A vadia também se orgulha de nunca usar suas carnes para subir na vida. Seu corpo existe apenas para seu prazer e para o prazer do outro, quando ela assim o decide.

A vadia gosta muito de ler romances eróticos para ver como o resto do mundo é ruim de cama. Ela se considera muito boa, mas não é, porque não sabe fazer a sucção e se esquece das bolas. Ela também não presta atenção em detalhes que importam, como mamilos, pontinhas de orelhas e aquela parte no fim das costas, no não-lugar entre elas e o ventre.

Um dia, estavam o preto, a gorda, o viado, o chefe e a vadia todos juntos no elevador, e ele parou de funcionar. Foram duas horas de respiração no escuro. A vadia achou a gorda cheirosa e ficou com vontade de perguntar o nome de seu perfume. O preto imaginou que finalmente se comeriam uns aos outros e ficou de pau duro. A gorda ficou cansada e quis se deitar. O chefe imaginou-se encoxando o viado por engano, achando que era a vadia, e ficou de pau duro. O viado desconfiava estar apaixonado, o que lhe causava problemas de ereção, e seu pau não endureceu.

Ninguém fez nada e nem comeu ninguém.


Um comentário:

  1. Bah! Sensacional!!!
    Gostei demais. Lembra um pouco de Bukowski, só que mais direto.
    Esse foi o primeiro texto seu que li, espero poder apreciar mais. Parabéns.

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