terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A vida sempre sem graça de Sandra



Tinha sido um ano bom. Não ficara o tempo todo trancada dentro de casa. Finalmente superara o medo de dirigir, há oito meses usava o carro quase todos os dias. Com oito anos de carta, era uma motorista inexperiente. Não importava, agora se virava no trânsito. 

Sandrinha era muito tímida. Atividades as mais banais a torturavam. Parecia uma adolescente. Morria de vergonha de perguntar o preço das coisas. Pedir uma pizza então era tarefa impossível. Era incapaz de manter uma conversa por mais simples que fosse. Nem sobre o tempo conseguia falar. Sentia-se sempre inadequada. 

Não havia jeito. Era a vida. A vida sempre sem graça de Sandra.

Um dia a inadequação se intensificou. Não pega bem ir ao trabalho depois de três dias sem tomar banho. Nem chegar ao escritório de chinelo. Cada vez mais esquisita, Sandra foi obrigada a procurar um médico. O primeiro remédio não funcionou, o segundo também. O terceiro, depois de três doses aumentadas, surtiu efeito. Vieram insônias e enxaquecas. Sem problemas, agora Sandrinha invariavelmente calçava sapatos apropriados.

Depois das sete pílulas diárias de três espécies diversas, Sandrinha estava em paz. Nunca chorava mais que duas vezes por semana escondida no banheiro do escritório. Sentia-se forte. Deixava o serviço em dia. Começou até a usar maquiagem. Todas as manhãs rebocava o rosto na tentativa de esconder rugas que ainda não se tinham formado.

Quase conseguia sorrir. Num domingo de tédio resolveu mandar uma mensagem para uma amiga do ensino médio. Não, não. Amiga é um termo muito forte. Uma colega do ensino médio. Logo se arrependeu. Tarde demais. Iriam se encontrar na semana seguinte. 

A tortura durou sete dias. Na adolescência, não era nada demais. Não tirava notas ruins. Nem boas. Não era popular. Não bebia muito. Não fazia parte de nada. Não fazia nada. A colega também era dessas. Sandra soube que se casara. Tinha feito alguma coisa. Trabalhava também. Devia ganhar mais que ela. Sobre o que conversariam? Não teriam nada em comum. Nem antes tinham. Eram apenas as sobras.

No dia do encontro acordou com palpitações, sem falar na dor de barriga. Sandra seria lembrada de todos os seus fracassos. A colega era um pouco sem graça. Muito comum, na verdade, mas ultrapassava Sandra em todos os sentidos. Sabia que se sentiria mais feia, mais chata, mais burra e mais inútil que normalmente. Tentou imaginar uma desculpa boa. Não teve criatividade para tal. 

Marcaram na catraca da estação. Aquele lugar tão amplo e tão lotado deixava Sandra tonta. Chegara vinte minutos antes da hora, tinha se esquecido do hábito da colega de sempre se atrasar e estava impaciente. 

Meia hora depois, Sandrinha sorriu. Quase não enxergava a jovem de outrora na mulher caminhando em sua direção. Ela estava gorda. Almoçaram, andaram pelo shopping, tomaram sorvete. Relembraram histórias nunca vividas. Durante toda a tarde Sandrinha sorriu. Tati, era esse o nome da colega, estava casada e tinha dois filhos. Atendente de telemarketing, trabalhava fora por meio período. No restante do tempo, servia ao marido e às crianças. Mentia-se feliz e, a cada mentira da outra, Sandrinha se sentia mais forte, mais capaz, mais cheia de vida. Nunca uma tarde havia sido tão revigorante.

Na semana seguinte, ao receber o pagamento, Sandrinha foi ao cabeleireiro e pediu um corte que diminuísse o frizz de suas mechas indefinidas. Saiu satisfeita, não bonita. Sua confiança só aumentava. Olhando uma vitrine próxima cobiçou um vestido. Ele era rosa-choque com grandes flores verdes pintadas com primor. Era um tubinho. Sandra hesitou, aquela roupa vibrante não combinava com seu jeito bege de ser. Ia embora e então se lembrou. Gorda. Tati era gorda. Era gorda e usava vestidos curtos e saltos altos. Comprou a peça e a usou para ir ao trabalho.

O sucesso fez com que se sentisse encorajada. Notou olhares. Um segurança do prédio a fitava descaradamente. Sandrinha decidiu que era hora de conhecer alguém. Não podia mais negar sua sexualidade. Era um ser sexual. Precisava de calor. Precisava de sexo. Não era ingênua, sabia que sua beleza não faria com que fosse cortejada. Teria que tomar a iniciativa.

Passou a tarde no banheiro do escritório tentando expelir seu medo de rejeição. O desespero entrava e saía em ondas violentas que se formavam em seu abdômen. Não podia murchar antes mesmo da primeira flor. Pensava e pensava, buscando uma solução. Superar a timidez não soava como realidade possível. 

Voltou à mesa do escritório. Desanimada, desgostosa, desesperançada. Lembrou-se do vestido. Tão lindo. Tão perfeito. Não. Não podia desistir. Em casa, vasculhou a internet à procura de uma salvação. Psicólogos. Sites de relacionamentos. Florais de Bach. Praias de nudismo. Rituais de umbanda. Simpatias do pai Didi. Nada disso servia. Cansada, com fome e dores nas costas, Sandra estava prestes a desistir e se jogar na cama com seu melhor amigo, um cachorro de pelúcia chamado Ted, quando leu uma sugestão interessante. Aulas de teatro.

Passou uma semana entre sonhos de estrelato em horário nobre e períodos no mais privado dos cômodos de qualquer residência ou estabelecimento comercial. Por fim decidiu-se. A escola, ou melhor, academia de teatro era caríssima. Sandra não se importou, sabia que nenhum valor era alto demais quando se tratava de buscar a felicidade. Pagou uma parte no débito e o restante, parcelou no crédito. As aulas começariam no mês seguinte.

Sandrinha brilhava, não só devido ao óleo acumulado em sua face, mas também ao gozo futuro e imaginado. Cantava alto enquanto dirigia pela marginal. Estava feliz. Tão feliz que não viu o carro da frente parar de forma brusca. Nem o caminhão se aproximando de seu pequeno Fiat.



3 comentários:

  1. Excelente, este seu conto. Gostei muito. O nome Sandra mexe muito comigo: é o da primeira garota de quem gostei, e com quem sonhei em casar, quando crescesse. Eu e ela tínhamos 9 anos, então. Depois, sua família se mudou para outro estado,e nunca mais soube dela. Mas seu conto, com um final surpreendente, me remete a um poema que nasceu em minha cabeça, de repente, sobre outra pessoa, que conheci muito bem, grande amiga, e que morreu atropelada por um buggy, numa praia de Maceió. Irene.
    Ver Irene Rir

    Vi Irene rir...
    Pela última vez,
    Vi Irene rir.
    E, pela primeira vez,
    Vi Irene rir
    De verdade!

    A risada de Irene
    Tinha um ruído de sirene,
    Alertando ao mundo inteiro
    Que a alegria era perene!

    A risada de Irene,
    Muito alegre e insolente,
    Provocava toda a gente
    E ofendia aos descontentes!

    A risada de Irene
    Tinha ódio e era inocente:
    Doía nos brios dos tementes,
    Desafiando os prepotentes!

    A risada de Irene
    Nunca se mostrava ausente:
    Era mordaz, contundente,
    E desconcertava os crentes!

    À risada de Irene
    Eu estava acostumado,
    E sempre tinha saudade
    Do seu riso debochado!

    À risada de Irene
    Ninguém era indiferente:
    Ou se ficava contente,
    Ou com ódio bem patente!

    Mas, naquela manhã quente,
    Com seus cabelos vermelhos
    Espalhados pelo asfalto,
    Da cor do sangue vermelho
    (derramado no mesmo ato):
    O carro vermelho, ao lado,
    Um buggy desembestado,
    Não parou na hora certa,
    Pegou Irene na reta,
    E espalhou seu corpo amado
    Aos meus pés: olhos vidrados,
    E os dentes, muito alinhados,
    Mostrando seu riso aberto...

    Em seu último momento,
    Sua risada era potente!
    E, pela primeira vez,
    Vi Irene rir, realmente:
    Nem a morte conseguia
    Fazê-la sentir temente.
    Ela tanto amava a vida,
    Que eu compreendi, finalmente,
    Como é que Irene ria
    Realmente!

    Eu, que ouvia Caetano:
    “Quero ver Irene rir...”
    Via que ele não veria,
    Como eu vi, tão de repente,
    Que Irene ria como se
    Fosse rir eternamente!

    (Maceió, 18 de fevereiro de 1973).

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