segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Os porcos somos nós – Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos de Ana Paula Maia



Gosto muito de bichos. Sou dessas que, nos filmes, chora mais quando o cachorro morre. É uma coisa comum até. Algo que eu fico tentando entender... por que tanta gente se sensibiliza com o sofrimento dos bichinhos, mas fica alheia ao sofrimento dos seres humanos? Não é todo mundo, claro. Também tem muita gente que não está nem aí para os animais... Tem gente que não liga pra ninguém (será?)... Enfim, tem todo o tipo de gente.

A compaixão em relação aos animais e não em relação às pessoas me inquieta mais. Falta de compaixão generalizada é horrível, mas coerente. Falta de compaixão para com animais tem uma explicação (muito da ruim, mas que muita gente compra): não são gente – é como se fossem coisa. Entendo as pessoas que se desiludiram com a humanidade e “preferem bichos”, mas ter compaixão seletiva me confunde. Não tenho resposta pra isso, ainda não consegui entender.

Só que quando comecei a ler Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, da Ana Paula Maia, publicado pela editora Record, foi isso o que aconteceu. Fiquei com dó dos bichos. Fiquei com dó dos bichos-porcos e dos bichos-cachorros e não fiquei com dó dos bichos-homens.

A narrativa começa com um porco sendo abatido. O protagonista, Edgar Wilson, quer sair logo do abatedouro em que trabalha porque é dia de rinha de cachorros e ele quer fazer sua aposta em Chacal, um cão enjeitado pelo demo. O porco tenta fugir, esperneia e urra enquanto Edgar Wilson e Pedro conversam, fumam e abatem o bicho. É tudo muito cotidiano, o que torna a cena ainda mais pavorosa. Ela lembra um pouco suspenses com serial killers: há uma vítima aterrorizada implorando pela vida enquanto o assassino ouve música ou realiza qualquer tarefa de forma serena e sem preocupações. A morte é apenas mais uma das tarefas do dia.

Fiquei tão concentrada na ênfase dada à dor e à miséria dos animais (será que é isso mesmo ou foi meu preconceito que leu assim?) que me esqueci da miséria banalizada da vida dos homens. O horror está por todos os lados, e não há como fugir:

“Cão de rinha é um cão que não teve escolha. Ele aprendeu desde pequeno o que o seu dono ensinou. Podem ser reconhecidos pelas orelhas curtas ou amputadas e pelas cicatrizes, pontos e lacerações. Não tiveram escolhas. Exatamente como Edgar Wilson, que foi adestrado desde muito pequeno, matando coelhos e rãs. Que carrega algumas cicatrizes pelos braços, pescoço e peito. São tantos riscos e suturas na pele que não se lembra onde conseguiu a metade. Porém a marca da violência e resistência à morte de outros animais nunca tiraram o brilho de seus olhos quando contempla um céu amplo. Dia ou noite, ele passa boa parte do seu tempo olhando para cima. Quem sabe espera que alguma coisa aconteça no céu ou com o céu... talvez queira retalhar algumas nuvens com seu facão.”

Esse parágrafo me marcou bastante. Quando comecei a lê-lo imaginei que a analogia entre cão e homem, muito óbvia nesse ponto da narrativa, ficaria a cargo do leitor, mas a narração continua, seguindo o estilo de escrita que segue as personagens na falta de construção de significado (muitas aspas aqui). O fim do parágrafo mata a possibilidade de qualquer poética, indicada pelo imaginário literário de “olhar para o céu”, com a frase terrivelmente maravilhosa “talvez queira retalhar algumas nuvens com seu facão” – nos lembrando que violência e morte é só o que existe no mundo desses seres.

Demorou pra cair a ficha. Fiquei boa parte do livro horrorizada pelo tratamento terrível conferido aos animais e completamente alheia ao tratamento terrível conferido aos homens.

Não quero dar spoilers. No fundo, quero muito dar spoilers e contar várias cenas absurdas e algumas muitíssimo engraçadas da história, mas não vou. Seria sacanagem.

No site da Ana Paula Maia tem o início do livro. Vou colocar um trecho aqui:

"E o teu rim? Eu tô falando do bom, daquele que tá lá com a tua irmã."
"Acho que vai bem."
"Você não pensa em pegar de volta. Quer dizer, quando você deu pra ela, não estava precisando, ele não te fazia falta, mas agora é diferente."
"É, eu sei. Parece que ela tá com câncer."
"Então, ela não vai precisar dele por muito tempo."
"Acho que não. Escuta, eu deixei aquele vídeo do Chuck Norris na sua casa?"
"Braddock?"
"O resgate."
"Só estou com o Braddock II. O resgate, esse não tá não."
"Acho que perdi meu vídeo. É um desfalque e tanto na minha coleção."
Silêncio.
"Você vai deixar seu rim jovem e saudável ser comido pelo câncer da tua irmã?"
"Parece que ela vai começar a fazer aquele troço que deixa careca."
"Sei... então a radiação vai matar o teu rim."
"Você acha mesmo?"
"Acho que o teu rim já era."

Essa história do rim se desenrola, vou logo avisando. O livro me lembrou um pouco de Vidas Secas. É uma mistura de Graciliano Ramos com Tarantino. Há características comuns da contemporaneidade na obra – violência é figurinha carimbada. Mais que violência, violência banalizada, violência do dia a dia, violência estrutural. “Violência absurda ali do lado e tudo bem”. Isso tem de sobra no livro de Ana Paula Maia.

A questão da crueldade contra os animais e do paralelo com a crueldade contra os seres humanos pode levar à reflexão das pessoas, das que só se importam com uns, das que só se importam com outros e, quem sabe, das que não se importam com nenhum, se é que elas existem mesmo. Quanto a isso, vou deixar uma frase e o link de um texto da Marcia Tuburi sobre “De Gados e Homens”, também de Ana Paula Maia, para a revista Cult, já que ela falou muito melhor do que eu poderia.

“Sabemos pouco sobre frigoríficos. Quem vê a mera carne em seu prato não pensa no sofrimento dos animais. Quem pensa no sofrimento dos animais nem sempre lembra da miséria dos homens.”

Elas não disseram tudo? (Tanto?) O que falta pra gente entender?

Desencanto - Manuel Bandeira






Eu faço versos como quem chora

De desalento... de desencanto...

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.




Meu verso é sangue. Volúpia ardente...

Tristeza esparsa... remorso vão...

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.




E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.




- Eu faço versos como quem morre.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

BALADA DO AMOR ATRAVÉS DAS IDADES - Carlos Drummond de Andrade





Eu te gosto, você me gosta 

desde tempos imemoriais. 

Eu era grego, você troiana, 

troiana mas não Helena. 

Saí do cavalo de pau 

para matar seu irmão. 

Matei, brigámos, morremos. 




Virei soldado romano, 

perseguidor de cristãos. 

Na porta da catacumba 

encontrei-te novamente. 

Mas quando vi você nua 

caída na areia do circo 

e o leão que vinha vindo, 

dei um pulo desesperado 

e o leão comeu nós dois. 




Depois fui pirata mouro, 

flagelo da Tripolitânia. 

Toquei fogo na fragata 

onde você se escondia 

da fúria de meu bergantim. 

Mas quando ia te pegar 

e te fazer minha escrava, 

você fez o sinal-da-cruz 

e rasgou o peito a punhal... 

Me suicidei também. 




Depois (tempos mais amenos) 

fui cortesão de Versailles, 

espirituoso e devasso. 

Você cismou de ser freira... 

Pulei muro de convento 

mas complicações políticas 

nos levaram à guilhotina. 




Hoje sou moço moderno, 

remo, pulo, danço, boxo, 

tenho dinheiro no banco. 

Você é uma loura notável, 

boxa, dança, pula, rema. 

Seu pai é que não faz gosto. 

Mas depois de mil peripécias, 

eu, herói da Paramount, 

te abraço, beijo e casamos.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

since feeling is first - E.E. Cummings





since feeling is first

who pays any attention

to the syntax of things

will never wholly kiss you;

wholly to be a fool

while Spring is in the world




my blood approves,

and kisses are a better fate

than wisdom

lady i swear by all flowers. Don't cry

—the best gesture of my brain is less than

your eyelids' flutter which says




we are for each other: then

laugh, leaning back in my arms

for life's not a paragraph




And death i think is no parenthesis

PSICOLOGIA DE UM VENCIDO - Augusto dos Anjos




Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênesis da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.




Profundíssimamente hipocondríaco, 

Este ambiente me causa repugnância... 

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia 

Que se escapa da boca de um cardíaco.




Já o verme — este operário das ruínas —

Que o sangue podre das carnificinas 

Come, e à vida em geral declara guerra,




Anda a espreitar meus olhos para roê-los, 

E há-de deixar-me apenas os cabelos, 

Na frialdade inorgânica da terra!


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Bluebird - Charles Bukowski

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up? 
you want to screw up the
works? 
you want to blow my book sales in
Europe? 
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?

Foram as dores que o mataram - Dina Salústio



Não importa o dia. Nem importa mesmo o ano em que se conheceram. Aconteceu. E houve um momento em que se amaram. Talvez tenha havido muitos momentos em que se amaram.
Depois a rotina de vidas que se afastaram e, incompreensilvemente, continuam juntas. E, dramaticamente caminham juntas, num desafio permanente à vida, à morte, ao direito de viver.
Não matei o meu marido.
Eu amava-o. Por quê matá-lo?
Foram as dores do meu corpo que o condenaram. Foram o sangue pisado, o ventre moído, as feridas em pus.
Foram as pancadas de ontem, as de hoje e, sobretudo, as pancadas de amanhã que o mataram.
Eu amava-o. Por quê matá-lo?
Foi o meu corpo recusado e dolorido após o uso e os abusos. Foram a tristeza, o desespero e a dor o amor que não tinha troco.
Eu amava-o. Por quê matá-lo?
Às vezes ficava à janela, meio escondida, vendo-o partir para o trabalho com a roupa que eu lavara e engomara.
Gostava do seu modo de andar, do jeito como inclinava a cabeça. Via-o partir e ali ficava horas e dias à espera que voltasse e me trouxesse um riso e a esperança de que as coisas iriam mudar. Nesse dia não lembraria mais os tempos duros, os paus de pedra que me roíam e me desgastavam as entranhas. Mas para mim, não voltava nunca. Apenas para pedaços do meu corpo que esquecia logo.
Eu amava-o. Por quê matá-lo?
Ele matou-se. Criou um espaço onde coabitavam a violência, a destruição, a miséria, o animalesco. E nós.
Deu-me as armas e fez-me assassina.
...depois ficou tudo escuro.
E o corpo a doer, a doer, a...
Um soluço frágil absorve a última palavra.


In: Mornas eram as noites.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

When You Are Old - Yeats






When you are old and gray and full of sleep, 

And nodding by the fire, take down this book, 

And slowly read, and dream of the soft look 

Your eyes had once, and of their shadows deep; 




How many loved your moments of glad grace, 

And loved your beauty with love false or true; 

But one man loved the pilgrim soul in you, 

And loved the sorrows of your changing face. 




And bending down beside the glowing bars 

Murmur, a little sadly, how love fled 

And paced upon the mountains overhead 

And his his face amid a crowd of stars. 

O dia em que os discos voadores chegaram - Neil Gaiman

Naquele dia, os discos voadores pousaram. Centenas deles, dourados,
Silenciosos, descendo do céu como grandes flocos de neve,
E o povo da Terra ficou
      olhando enquanto desciam,
Esperando, boquiabertos, para saber o que nos esperava dentro deles
E nenhum de nós sabendo se estaríamos aqui amanhã
Mas você nem notou porque

Aquele dia, o dia em que os discos voadores chegaram, por uma coincidência,
Foi o dia em que os túmulos devolveram seus mortos
E os zumbis surgiram da terra macia
ou irromperam, cambaios e de olhos baços, irrefreáveis,
Vindo até nós, os vivos, e nós gritamos e corremos,
Mas você não notou nada disso porque

O dia dos discos, que também foi o dia dos zumbis, foi também
O Ragnarök, e as telas de televisão nos mostraram
um navio feito de unhas de homens mortos, uma serpente, um lobo,
Todos maiores do que a mente podia conceber,
      e o câmera não conseguia
Se afastar o suficiente, e então os Deuses surgiram
Mas você não os viu chegando porque

No dia dos discos-zumbis-deuses-em-guerra
      as comportas cederam
E cada um de nós foi engolido por gênios e espíritos
Oferecendo-nos desejos, maravilhas e eternidades
E charme e esperteza e
      corações valentes e potes de ouro
Enquanto gigantes funga-fungavam por toda
      a terra, e abelhas assassinas,
Mas você nem fazia ideia disso porque
Naquele dia, o dia dos discos dia dos zumbis
Dia das fadas e do Ragnarök, o
      dia em que vieram os grandes ventos
E nevascas, e as cidades se transformaram em cristal, o dia
Em que todas as plantas morreram, os plásticos se dissolveram, o dia
Em que os computadores se rebelaram, as telas nos dizendo
      que iríamos obedecer, o dia em que
Os anjos, ébrios e confusos, saíram trôpegos dos bares
E todos os sinos de Londres tocaram, o dia
Em que os animais nos falaram em sírio, o dia do Yeti,
Das capas flutuantes e da chegada
      da Máquina do Tempo,
Você não notou nada disso porque
estava sentada no seu quarto, sem fazer nada,
nem lendo, nem mesmo isso, só
olhando para o telefone,
imaginando se eu iria ligar.



In: Coisas Frágeis 2

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Política Sexual - Kate Millett



Política Sexual, escrito por Kate Millett, foi publicado em 1970 e é considerado o primeiro livro de crítica literária feminista. A obra foi o resultado da tese de doutorado da autora e causou bastante polêmica, tanto no mundo literário quanto no feminista. 

O livro fala sobre alguns clássicos da literatura e sobre obras filosóficas e da psicologia, analisadas sob a perspectiva das relações de gênero e da representação da mulher. 

É um livro bastante denso, afinal, é uma tese de doutorado. Kate Millett encheu 361 páginas de informação condensada, cada parágrafo oferece algo novo sobre o tema discutido. Demorei um pouco para terminar de lê-lo, pois Política Sexual exige bastante concentração, tanto pela avalanche de conteúdo quanto pelo modo como o conteúdo é apresentado. 

Basicamente, o livro fala da defesa do patriarcalismo e da opressão da mulher presentes nas obras analisadas pela autora. O escopo de Kate Millett é bastante amplo, ela fala desde a primeira revolução sexual no período vitoriano até a obra de Jean Genet (1910 – 1986), seu contemporâneo. Com muitos dados históricos, o livro não pretende analisar o valor literário das obras abordadas e sim como se dá a relação de poder entre os sexos e a mistificação (ou não) do feminino e do masculino em cada uma delas. 

Uma das partes mais interessantes, em minha opinião, foi a análise da obra de Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, cuja influência perdura até hoje. Freud é como Shakespeare, povoa o imaginário coletivo e é conhecido “por tabela”. De acordo com Kate Millett, a visão de Freud com relação à mulher é, além de contraditória, cheia de misticismo. Sua crença na inferioridade intelectual do sexo feminino devido à sua natureza mais primitiva é especialmente desconcertante. 

Infelizmente, ele não é o único a propagandear dados científicos mais do que duvidosos. Particularmente interessante é perceber como o discurso da supremacia masculina tenta se adaptar a cada época. No período vitoriano, há a ideia de cavalheirismo, na qual mulheres tinham vidas extremamente limitadas “para sua própria proteção” e as que ousassem qualquer outra coisa, as “fallen women” eram aquelas que haviam perdido o contato com sua verdadeira natureza e tentavam ocupar o lugar dos homens na sociedade. Com o passar do tempo, aparecem as ideias da submissão feminina através do ato sexual, juntamente ao desprezo pela mulher com qualquer tipo de ambição intelectual. Posteriormente, o desprezo ao sexo feminino de modo geral, ante a inevitabilidade da emancipação feminina, aparece na forma da redução de todas as mulheres apenas ao sexo. 

É bastante interessante a análise de cenas e de escolhas narrativas pela perspectiva de relações de poder e é isso que Kate Millett faz em grande parte do seu livro. Suas considerações são bem embasadas e, por isso mesmo, bastante assustadoras. 

O que mais me surpreendeu foi a persistência de um tema que se pode encontrar facilmente na atualidade - a ideia das esferas diferentes. De modo sutil ou escancarado essa ideia percorre toda a história da relação entre os gêneros, frases como: 

“Mulheres são mais emotivas.” 

“Homens são melhores em matemática.” 

“Homens são mais visuais.” 

“Mulheres são naturalmente mais intuitivas, e homens mais racionais.” 

partem do princípio das esferas diferentes explicadas no livro. É frustrante ver algo assim ainda presente na sociedade. Também é um pouco decepcionante ver como um livro escrito há mais de 40 anos possa ser tão relevante e não só como documento histórico, mas como uma análise de problemas que ainda não foram resolvidos. 

Política Sexual é uma obra ousada e muito esclarecedora e, como tal, deve estar presente em qualquer biblioteca feminista que se preze.

Nota: Eu sei que há um versão em português publicada pela Dom Quixote, que é uma editora de Portugal. Não conheço nenhuma versão brasileira.

Seu Nome - Fabrício Corsaletti



se eu tivesse um bar ele teria o seu nome
se eu tivesse um barco ele teria o seu nome
se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome
minha cadela imaginária tem o seu nome
se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome
se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome
se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome
se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome
se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome
a primeira garota que beijei tinha o seu nome
na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome
antes de você tive três namoradas com o seu nome
na rua há mulheres que parecem ter o seu nome
na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome
às vezes as nuvens quase formam o seu nome
olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome
o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome
Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome
não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome
se eu fosse um travesti usaria o seu nome
se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome
minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome
se eu tiver uma filha ela terá o seu nome
minha senha do e-mail já foi o seu nome
minha senha do banco é uma variação do seu nome
tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe” em vez do seu nome
tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em vez do seu nome
tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome
tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome
quando fico bêbado falo muito o seu nome
quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome
é difícil falar de você sem mencionar o seu nome
uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome
coelho tinha o seu nome
xícara tinha o seu nome
teleférico tinha o seu nome
no índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome
na foto de Korda para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome?
algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome
detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome
cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome
no cabo da minha bengala gravarei o seu nome
não posso ser niilista enquanto existir o seu nome
não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome
não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome
não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome
não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome
quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome
morei três anos num bairro que tinha o seu nome
espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome
espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome
espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome
espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome
a literatura não me interessa tanto quanto o seu nome
quando a poesia é boa é como o seu nome
quando a poesia é ruim tem algo do seu nome
estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome
estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome
talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome
por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome

VERSOS ÍNTIMOS - Augusto dos Anjos





Vês?! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão - esta pantera -

Foi tua companheira inseparável!




Acostuma-te a lama que te espera!

O Homem que, nesta terra miserável,

Mora entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera




Toma um fósforo, acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro.

A mão que afaga é a mesma que apedreja.




Se a alguém causa ainda pena a tua chaga

Apedreja essa mão vil que te afaga.

Escarra nessa boca de que beija!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Teresa - Manuel Bandeira







A primeira vez que vi Teresa

Achei que ela tinha pernas estúpidas

Achei também que a cara parecia uma perna



Quando vi Teresa de novo

Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo

(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)



Da terceira vez não vi mais nada

Os céus se misturaram com a terra

E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS - Carlos Drummond de Andrade




Oh! sejamos pornográficos

(docemente pornográficos).

Por que seremos mais castos

que o nosso avô português?




Oh! sejamos navegantes,

bandeirantes e guerreiros

sejamos tudo que quiserem,

sobretudo pornográficos.




A tarde pode ser triste

e as mulheres podem doer

como dói um soco no olho

(pornográficos, pornográficos).




Teus amigos estão sorrindo

de tua última resolução.

Pensavam que o suicídio

fosse a última resolução.

Não compreendem, coitados,

que o melhor é ser pornográfico.




Propõe isso ao teu vizinho,

ao condutor do teu bonde,

a todas as criaturas

que são inúteis e existem,

propõe ao homem de óculos

e à mulher da trouxa de roupa.

Dize a todos: Meus irmãos,

não quereis ser pornográficos?

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O que faz um farol



Saindo com o carro, já penso no farol. Estou sozinha, espero que não esteja fechado. O cruzamento ao lado do mercado é desconfortável. Um bom ponto para reforçar a culpa. Logo após as compras, nem 50 centavos para o velho de muletas? Como não recompensar os malabarismos mal-feitos da criança? E quanto ao jovem esforçado que todos os dias chega cedo para vender doces?

Sinal vermelho. É claro. Fecho os vidros. Não sou um monstro, quando passam por mim, ensaio um não com expressão sentida. Ao esverdear da luz, abro os vidros e aumento o volume da música que fala de amor.

O mundo é mesmo um lugar sem graça.

Chegando à garagem, desligo o rádio, se não me concentrar, o carro vai ficar ainda mais ralado. Fecho os vidros caso algum vizinho esteja por perto. No subsolo, tudo é escuro e as luzes nunca se acendem. Pelo menos não para mim.

Subir as escadas é trabalhoso, devido à falta de espaço, os degraus são altos demais.

Entro na casa abafada apesar das janelas abertas. Quero conversar, mas não há o que dizer. Não consigo ler, olho o celular insistentemente à procura de mensagens. Nada.

A citação postada no facebook é um pedido de atenção, o próximo passo são pequenas confissões. Melhor comer alguma coisa.

Depois do jantar, jornal. Sangue, corrupção, classe média, impostos, animais fofinhos e brincalhões.Sangue. A sensação de desamparo se perde ante as fortes emoções dos últimos capítulos da novela.

Não. Prefiro me apegar ao vazio que não vem de fora.

O teto do quarto é sujo e cheio de pernilongos. O chão está quente, a cabeça e as costas doem. Ao lado, um tufo de poeira sendo perseguido pelos olhos do gato esparramado pelo corredor. Até ele prefere não se mexer.

Tento pensar, mas só consigo sentir. Não, não chega a isso. Nem a isso. Um nó no peito, costumam dizer. Já ouvi falar em obsessão, inveja, trabalho. Até de cachorro preto já chamaram. Coitado do cachorro. Depressão, bile negra, melancolia. Frescura, de acordo com meu querido pai.

Minha irmã só se preocupa se for de longe. Minha mãe pede ajuda sobre como ajudar. Eu não entendo. Talvez não deva ser entendido. 


Ninguém ve, mas todos sabem qual é a causa. Eu estou apaixonada. Sou egocêntrica. Não me amo o suficiente. Me amo demais. Sou tímida. Não, não sou tímida. Ponho muito peso nas coisas. Penso demais. Não penso direito. Talvez. 

Fica tarde, vou para a cama. Os pensamentos são os mesmos. Minto. Não são pensamentos. Não sei o que são. Não durmo, engulo o comprimido, ganho duas horas de olhos fechados e uma dor de cabeça.

É assim.