domingo, 28 de fevereiro de 2016

BALADA DO AMOR ATRAVÉS DAS IDADES - Carlos Drummond de Andrade





Eu te gosto, você me gosta 

desde tempos imemoriais. 

Eu era grego, você troiana, 

troiana mas não Helena. 

Saí do cavalo de pau 

para matar seu irmão. 

Matei, brigámos, morremos. 




Virei soldado romano, 

perseguidor de cristãos. 

Na porta da catacumba 

encontrei-te novamente. 

Mas quando vi você nua 

caída na areia do circo 

e o leão que vinha vindo, 

dei um pulo desesperado 

e o leão comeu nós dois. 




Depois fui pirata mouro, 

flagelo da Tripolitânia. 

Toquei fogo na fragata 

onde você se escondia 

da fúria de meu bergantim. 

Mas quando ia te pegar 

e te fazer minha escrava, 

você fez o sinal-da-cruz 

e rasgou o peito a punhal... 

Me suicidei também. 




Depois (tempos mais amenos) 

fui cortesão de Versailles, 

espirituoso e devasso. 

Você cismou de ser freira... 

Pulei muro de convento 

mas complicações políticas 

nos levaram à guilhotina. 




Hoje sou moço moderno, 

remo, pulo, danço, boxo, 

tenho dinheiro no banco. 

Você é uma loura notável, 

boxa, dança, pula, rema. 

Seu pai é que não faz gosto. 

Mas depois de mil peripécias, 

eu, herói da Paramount, 

te abraço, beijo e casamos.

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