quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O dia em que os discos voadores chegaram - Neil Gaiman

Naquele dia, os discos voadores pousaram. Centenas deles, dourados,
Silenciosos, descendo do céu como grandes flocos de neve,
E o povo da Terra ficou
      olhando enquanto desciam,
Esperando, boquiabertos, para saber o que nos esperava dentro deles
E nenhum de nós sabendo se estaríamos aqui amanhã
Mas você nem notou porque

Aquele dia, o dia em que os discos voadores chegaram, por uma coincidência,
Foi o dia em que os túmulos devolveram seus mortos
E os zumbis surgiram da terra macia
ou irromperam, cambaios e de olhos baços, irrefreáveis,
Vindo até nós, os vivos, e nós gritamos e corremos,
Mas você não notou nada disso porque

O dia dos discos, que também foi o dia dos zumbis, foi também
O Ragnarök, e as telas de televisão nos mostraram
um navio feito de unhas de homens mortos, uma serpente, um lobo,
Todos maiores do que a mente podia conceber,
      e o câmera não conseguia
Se afastar o suficiente, e então os Deuses surgiram
Mas você não os viu chegando porque

No dia dos discos-zumbis-deuses-em-guerra
      as comportas cederam
E cada um de nós foi engolido por gênios e espíritos
Oferecendo-nos desejos, maravilhas e eternidades
E charme e esperteza e
      corações valentes e potes de ouro
Enquanto gigantes funga-fungavam por toda
      a terra, e abelhas assassinas,
Mas você nem fazia ideia disso porque
Naquele dia, o dia dos discos dia dos zumbis
Dia das fadas e do Ragnarök, o
      dia em que vieram os grandes ventos
E nevascas, e as cidades se transformaram em cristal, o dia
Em que todas as plantas morreram, os plásticos se dissolveram, o dia
Em que os computadores se rebelaram, as telas nos dizendo
      que iríamos obedecer, o dia em que
Os anjos, ébrios e confusos, saíram trôpegos dos bares
E todos os sinos de Londres tocaram, o dia
Em que os animais nos falaram em sírio, o dia do Yeti,
Das capas flutuantes e da chegada
      da Máquina do Tempo,
Você não notou nada disso porque
estava sentada no seu quarto, sem fazer nada,
nem lendo, nem mesmo isso, só
olhando para o telefone,
imaginando se eu iria ligar.



In: Coisas Frágeis 2

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