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segunda-feira, 2 de agosto de 2021

E Luana estava aqui

 Luana achava que era Jesus Cristo. Não, não era como aquele cara estranho que faz versões das músicas da Amy e da Britney. Não era como ele. Era como se tivesse nascido com vocação pra Madre Teresa de Calcutá. Só que não tinha.


Luana nasceu na miséria e cresceu na miséria. Assim, sempre buscou a miséria. Nesse mundo, encontrou-a em abundancia. E continuou acreditando apenas nela.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

História do amor

 Eu fui estuprada e tudo ocorreu como deveria. Ele estava por cima e pediu que eu abrisse as pernas e eu abri. Mais, ele disse. E eu abri mais. Ele me penetrou e tá doendo? ele disse. Diz que tá doendo. E eu disse: tá doendo. E ele gemeu. E ele gozou. 


Ele limpou sua mão melada no meu cabelo e disse: obrigado, meu anjo. E me bateu, mas não para matar. Ele não era assassino. Ele tinha mãe, pai, irmã. Talvez uma namorada. Provavelmente uma namorada. Ele me bateu, mas não quebrou nada. Ele não era mau.

Eu não procurei a polícia porque me olhariam e eu sabia de tudo. Voltei pra casa e tomei banho. Joguei as roupas sujas de sangue e sêmen num canto do quarto. Todos dormiam, ninguém me viu. Tudo doía e eu não tentava me mexer. Fique quietinha, meu amor, ele disse. 

Foi tudo como deveria. Eu estava de saia. Eu estava bêbada. Eu saí sozinha à noite. Sou feia, deveria agradecer, dizem uns. Também... dizem outros. Eu não gritei, eu não tentei fugir, eu não tentei bater. Eu não dificultei. Eu fiquei quieta e obedeci. 

Depois eu chorei, depois eu sofri. Depois eu quis morrer. Eu tentei morrer. Então, lembrei da minha mãe e de como ela também morreria e desisti. Eu continuo. Eu estou aqui. Ninguém sabe. As marcas no meu rosto sumiram. Foi tudo como deveria. Eu continuo. A mesma. O mundo continua. O mesmo. Ele continua. O mesmo. Nada mudou. 

Foi tudo muito rápido, menos de cinco minutos talvez. Pareceu mais enquanto eu contava os movimentos do corpo dele. Não dava pra ver muita coisa naquela noite. Ainda não sei como um borrão pode ser tão nítido. Levanto da cama pensando. Vou deitar pensando. Não foi nada de mais. Ocorreu tudo como deveria. 

Nada mudou. Antes eu era triste e eu continuo triste. Antes eu sofria e eu continuo sofrendo. Antes eu estava cansada e eu continuo cansada. Nada mudou. Eu fui estuprada e tudo ocorreu como deveria. Ele ficou satisfeito. Eu fiquei calada. O mundo ficou o mesmo. 


Três comprimidos além da dose não mudarão nada.

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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Filhos do Vento



Quando tudo está perdido, os ciganos olham para o céu. Lily ouvia as palavras proferidas pelo sábio Miguel como se cada uma delas pudesse salvar a sua vida. Talvez pudessem. 

Não era um cigano comum e não gostava de falar de si, mas, do pouco que sabia, Lily apreendia ancestralidades. Miguel também havia sido treinado como mago, no entanto, preferia surgir sob o símbolo do povo nômade porque gostava de se sentir mais próximo das pessoas.

Sua cor era o roxo.

Lily gostava de Miguel e gostaria que Miguel gostasse dela. Todas as terças conversavam. Atendimento, era o nome dado na instituição. Já fazia algum tempo e o progresso era lento. Coisas da mente e do espírito, que Lily, em seus delírios de culpa, não podia compreender.

O cigano Miguel a incentivava a viver, a não desejar a morte e, principalmente, a não morrer em vida. O culto ao amor, às festas e o otimismo resiliente face a todas as dificuldades são característicos da linha dos ciganos e, por isso mesmo, Lily fora direcionada a ela. 

Frequentemente recebia ofertas de vinho, frutas e sugestões em relação ao modo de encarar a vida. Aceitava de bom grado o vinho, as frutas; e as sugestões em relação ao modo de encarar a vida ficavam para uma próxima. 

Mas não seria possível que tantas ondas de energia espiritual, tantas velas, tantos momentos em cômodos preparados não surtissem efeito. Falava com Miguel, finalmente, sobre a vida, parte dela, que podia ou não ser boa e decerto era negligenciada.

Era o amigo de um ex por quem muito sofrera. À pessoa que questionara por que aqueles homens seriam amigos se realmente fossem tão diferentes, nada dissera. A Miguel, falara sobre conversas e momentos agradáveis de acolhimento. Tudo o que ela sempre desejara, mas nunca obtivera do pai. E, só mais tarde descobriria, da mãe.

Miguel, em sua sabedoria, falara sobre a vida, sobre a importância de buscar aquilo que nos faz bem e sobre muitas coisas belas e poéticas que Lily não saberia reproduzir. A ela, o cigano entregou duas maçãs, dizendo apenas e enigmático que as frutas são perecíveis.

Assim que saiu da instituição, Lily enviou uma mensagem ao amigo do ex dizendo que precisava dar a ele uma coisa e que precisava ser o mais rápido possível. O homem, que costumava demorar para responder mensagens, dessa vez não o fez e no mesmo instante e marcou o encontro para o dia seguinte.

Lily preparara-se para fazer o necessário assim que estivessem no carro, pensou que não conteria a ansiedade, mas o medo foi maior. Quando chegaram ao restaurante, o amigo do ex perguntou o que ela precisava tanto dar. Lily respondeu que teria vergonha de fazer aquilo no restaurante, que seria melhor resolver tudo depois do jantar. Ele concordou. Saíram do italiano já de madrugada, a noite havia sido muito agradável apesar do garçom que ria dos dois como se fossem crianças.

Quando ele estava pronto para deixá-la na porta de casa, a tensão crescia e não havia mais desculpas. Lily precisava vencer o medo e partir para a ação, não havia mais como fugir. Era chegada a hora.

Contendo o tremor do nervosismo nas mãos, quase imóvel, sem coragem de olhar para os lados, entregou a maçã. Não conseguiu dizer nada. O amigo do ex começou a comê-la imediatamente. Disse que era seu tipo de maçã preferido, que, se fosse ao mercado, era exatamente aquele tipo de maçã o que escolheria comprar, disse ainda que estava crocante, na consistência certa, e com o exato equilíbrio entre doce e azedo. Comeu até o caroço. Perguntou se ela não comeria a dela e perguntou qual era mesmo a história das frutas.

Lily mordeu a sua já um pouco murcha e disse, ganhei de um cigano na Umbanda, mas juro que não a esfreguei nas minhas calcinhas. 

Ele riu desconfortável, enrubescendo. Lily pensou que ele não conseguia olhar para ela.

Saiu do carro e entrou em casa também sem conseguir olhar para si mesma.

Jogou o resto da maçã fora. Nunca fora sua fruta preferida.

Não se viram novamente.

Viver, nunca mais.



domingo, 23 de abril de 2017

Feminismo branco de apartamento






Mari é uma feminista branca de apartamento. Além da questão da mulher, outras lutas a inquietam. Racismo, homofobia – de transfobia nunca ouviu falar –, desigualdade e pobreza estão dentre suas preocupações. É desconstruída.

De tudo isso, o que mais a perturba são seus próprios problemas. Vestidos de feminismo branco de apartamento. Em bairro nobre.

Não é má pessoa. Afinal, quanto é realmente possível estar no outro? 

Sabe que é difícil ser mulher. Em apenas um dia de trabalho, tanta coisa acontece.

Segunda-feira, por exemplo.

Mari sentiu-se mal durante o almoço, pois, ao entrar em um recinto comercial, como acontece às vezes, supôs que uma pessoa negra parada ali fosse funcionária do local. Sentiu-se mal, mas se perdoou. Sabe que é difícil supor que pessoa de tal cor e em tal recinto seja algo além de funcionária. É fruto da sociedade racista e extremamente desigual em que vivemos. 

No mesmo dia, em conversa corriqueira perto da máquina de café, indignou-se ao ouvir que na empresa não havia negros. Não ficou surpresa com o preconceito das pessoas, a isso já estava acostumada, mas se indignou com a invisibilidade estrutural que os negros enfrentam em nossa sociedade, afinal a faxineira, a copeira e diversos membros do call center eram sim de pele escura e, apesar de, enquanto pessoa consciente perceber que estes não são cargos de chefia, sabe também que trabalhar em uma grande empresa já é um grande passo para sair das margens.

Mari sabia que tinha muito a aprender, mas não se deixava levar. Era uma pessoa equilibrada e, ainda na fatídica segunda-feira, ao ouvir que não havia pessoas de cabelos cacheados na empresa, revoltou-se e disse que usava chapinha sim porque acreditava que, dessa forma, ficava mais bela e não havia problemas nisso. Para uma mulher, é importante se colocar. Além disso, feminismo é liberdade, sempre soube.

Às vezes, tinha dificuldade para entender as pessoas. Não compreendia por que sua secretária do lar ainda mandava mensagens perguntando se podia pegar algo da geladeira. É claro que podia, ela já havia dito mil vezes.

Questões como essas povoavam sua mente, pois sabia quanto era difícil ser mulher nesse mundo. Hiperssexualizada, opiniões desvalorizadas, preterida em promoções, temendo andar nas ruas, no metrô. Sentia profundamente a dor de ser mulher. Por vezes, chegava a pensar que...

Mas não se deixava radicalizar pelo medo. Entendia o poder que o medo tem de nos levar a extremos. Era uma agressão sem tamanho dizer a uma criança com câncer, uma criança, veja só, que ela não poderia usar um turbante. E turbantes nem são exclusividade da cultura africana. Mari tinha conhecimento desse dado porque estudava. Era importante.

Procurava se inteirar de assuntos feministas e apoiá-los. Adorava Jout Jout e já tinha perdido a conta das vezes que assistira Survivor, de Clarice Falcão. Gostava muito mais do que a versão de Beyoncé. Sabia quanto era importante para as mulheres se colocarem e quase não perdoava as que não o faziam.

Havia sido um dia difícil, cheio de lembranças de opressão cotidiana. Era o seu ser mulher. Voltou para casa exausta depois de tantas discussões. Pôs o lixo para fora. Maria o deixara na porta da sala, mas decidiu não falar nada, era só um lapso, e Maria era uma boa pessoa. Não se importou de descer até o térreo, caminhar até a lixeira, voltar pelo longo caminho e subir novamente. Era uma boa pessoa também.

Tudo bem.

Entrou em casa. Atrás de si, fechou a porta e seguiu com seu feminismo. Branco. De apartamento.

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domingo, 3 de julho de 2016

Saliva, sêmen e sangue



Havia se tornado hora de acordar, abrir as janelas, sentir o calor do sol, respirar e ser corpo novamente, mas a única janela possível havia se feito concreto, e todas as manhãs eram enfim noites e, no ar puro, ela nunca deixaria de enxergar a sua sujeira.

Luana escolhia outras paisagens, caminhos baixos e cheios de barro, nos quais pudesse ver mais o céu sem deixar de sentir o vermelho da terra que buscava e que sabia ser. Fruto de infâncias que repetia na aprendizagem do seu ser mulher.

Quando seu corpo lhe dizia que havia chegado, Luana sabia que era apenas mais um e de qualquer forma assentia porque nunca soubera que era mesmo verdade que se podia dizer não. 

Retirava-se desses momentos e deixava que seu corpo fosse, porque era outro que não ela. Via-o, sem vontade, com outros corpos que não viam a ela. Sedentos, débeis, com mãos que não sabem enxergar.

Quando voltava a ser Luana, cuidava do que devia ser seu e não era. Limpava saliva, sêmen e sangue. Quantos corpos não sabiam o que era Luana, o que era corpo e o que era sentir? Quantas Luanas havia sido porque também não soubera qual era o seu corpo e como ser sem se tornar a dor de outro? 

Até mesmo seus olhos de Iemanjá estavam secos. As águas, que corriam livres em filhos da rainha das ondas, recusavam-se em Luana, não havia lágrimas nessas ocasiões, apenas sangue em um corpo sem ser. Sacrifício.

Luana aceitava seu destino porque o fazia ela. Punia seu corpo porque eram um e outro e não o mesmo. Saliva, sêmen e sangue. Sem Luana. Ou assim pensava sabendo que a dor pertencia a ambos. 

Cansada de não ter mais lágrimas, resolveu que era hora de não ser mais corpo. Calou-o, calando-se a ela e, por muito tempo, achou que aquilo era viver. Não havia dor. Não havia saliva, sêmen e sangue. Mas não havia dor, não havia corpo e não havia Luana.

Silenciou-se e fez o que achava que era viver, mas não era. E quando enfim havia se tornado hora de acordar, abrir as janelas, sentir o calor do sol, respirar e ser corpo novamente, a única janela possível havia se feito concreto, e todas as manhãs eram enfim noites e, no ar puro, ela nunca deixaria de enxergar a sua sujeira.

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domingo, 19 de junho de 2016

Mãe que cria



A mãe de Malu a pegou com drogas, veja só, maconha, meu Deus, onde é que esse mundo vai parar. Por sorte, a menina tinha apenas quatorze anos e ainda podia ser salva apesar de suas origens peculiares.

Malu havia sido fruto de um adultério, e sua mãe, porque mãe é aquela que cria, não aquela que abandona, a acolhera mesmo sabendo de sua raiz problemática. O casamento se manteve, o caso aparentemente terminou.

A mãe de Malu suspeitava que aquela que a abandonara era uma prostituta. Não agora, bem, talvez agora, mas na época principalmente. Com 15 anos já era prostituta, por isso a mãe de Malu se preocupava, porque a adolescente estava chegando na idade da perdição, e genética é uma coisa com a qual não se brinca. Era preciso fazer algo.

Foi internada em uma clínica de reabilitação em Piratininga, no interior de São Paulo. A família não a visitava porque a distância era um inconveniente, e as despesas da viagem somadas à mensalidade da clínica eram pesadas. Além disso, e, mais importante, a visita fazia mal à Malu, que chorava, ficava manhosa, não queria se levantar da cama e suplicava para voltar para casa. Dizia até que estava com saudades da escola, a malandrinha. A família, preocupada com a recuperação da menina, cuidava para não a atrapalhar.

O problema todo foi que um promotor desses de justiça se atentou para o fato de que Malu estava na clínica já há um ano e meio e isso constituía abandono de escola. Uma coisa que alguém inventou para que outra pessoa fosse responsável; pessoa a qual deixou a cargo de outrem, que passou a fiscalizar os responsáveis legais, no caso, os pais. Ou melhor dizendo, a mãe que criou, não que a abandonou. O pai não vai aparecer na história; muitos não aparecem.

O promotor de justiça era uma daquelas exceções que não acreditamos existir e que surpreendentemente fazem seu trabalho. Descobriu Malu na clínica de reabilitação em Piratininga. Descobriu que a menina estava lá há um ano e meio e que, devido a seus vários problemas de drogadição e de inserção social, era fortemente medicada, o que a deixava tranquila e menos combativa. Nem pela família, que não a visitava há seis meses, ela perguntava mais. O promotor também descobriu que Malu havia sido abusada por um dos funcionários da clínica de reabilitação. Para algumas pessoas, abusada seria um eufemismo de estuprada. Para outras, entre elas a mãe de Malu, a que criou, não a que abandonou, abusada era um exagero para relações sexuais.

Porque ela amava muito sua filha, Deus sabia. Amava-a muito e, como toda mãe, conhecia o que tinha em casa. Sabia, com todo o seu amor, que Malu não era boa coisa, tinha o mal na semente, e já vira como ela se comportava na frente dos homens. Vira com aqueles olhos perspicazes de mãe preocupada que faria tudo por amor, inclusive aceitar a verdade da natureza da filha.

Disse tudo isso quando foi questionada pelo promotor desses de justiça sobre por que havia deixado uma adolescente dopada por um ano e meio em uma clínica de reabilitação no interior de São Paulo, mesmo após o fato do abuso. O promotor disse ainda que Malu era menor de idade e que não tinha nenhuma culpa em relação ao ocorrido. O responsável era o funcionário da clínica que, além de maior de idade, estava em situação de poder, pois cuidava de uma criança em situação de vulnerabilidade ou qualquer coisa assim.

A mãe de Malu se explicou, disse que amava sim e muito a filha, mas que não podia negar o tratamento que a menina dava aos homens, disse que via, presenciava e que não havia possibilidade nenhuma de o funcionário ter tido qualquer culpa, porque homens são assim. Uma questão de natureza.

O promotor também disse que não era possível deixar uma adolescente sem estudar por um ano inteiro e meio, que aquilo a prejudicaria demasiado em toda a sua vida futura. Mas a mãe sempre diligente respondia que tudo o que havia feito era pelo bem da filha, por amor. Era na escola que estavam as drogas, as más companhias. A família até tentou mudar a adolescente de instituição, mas não adiantou. A menina juntou os desviados de uma com os desviados da outra. Foi assim que a mãe de Malu descobriu e, no caso, confirmou, que a origem da discórdia estava na própria filha. Era a semente. E, no interesse de salvar a família e a própria menina, mandou-a para longe, onde ocorreu toda a história. Nada mais justo. Era certo. Tinha fé de que tudo o que havia feito, havia feito no amor.

E, conhecendo todos esses fatos, o promotor desses de justiça que, surpreendentemente fazia seu trabalho, precisava convencer Malu e sua mãe de que elas se amavam e de que estariam melhores juntas, porque é assim que famílias devem ser.

O promotor de justiça conhecia muito bem os abrigos e as casas de acolhimento com todos os seus nomes de eufemismo. Por isso ele tentava convencê-las com as palavras que dizia e com os ouvidos que fingiam para si mesmo acreditar no que ouviam, porque só assim poderiam continuar. E ele continuava e convencia. Ele as convencia de que se amavam, de que estariam melhores juntas, de que famílias são boas e nos fazem bem. Ele talvez as convencesse e talvez convencesse a si mesmo, porque era muito bom, mas não tinha certeza.


 A gente nunca tem.

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sábado, 20 de fevereiro de 2016

O que faz um farol



Saindo com o carro, já penso no farol. Estou sozinha, espero que não esteja fechado. O cruzamento ao lado do mercado é desconfortável. Um bom ponto para reforçar a culpa. Logo após as compras, nem 50 centavos para o velho de muletas? Como não recompensar os malabarismos mal-feitos da criança? E quanto ao jovem esforçado que todos os dias chega cedo para vender doces?

Sinal vermelho. É claro. Fecho os vidros. Não sou um monstro, quando passam por mim, ensaio um não com expressão sentida. Ao esverdear da luz, abro os vidros e aumento o volume da música que fala de amor.

O mundo é mesmo um lugar sem graça.

Chegando à garagem, desligo o rádio, se não me concentrar, o carro vai ficar ainda mais ralado. Fecho os vidros caso algum vizinho esteja por perto. No subsolo, tudo é escuro e as luzes nunca se acendem. Pelo menos não para mim.

Subir as escadas é trabalhoso, devido à falta de espaço, os degraus são altos demais.

Entro na casa abafada apesar das janelas abertas. Quero conversar, mas não há o que dizer. Não consigo ler, olho o celular insistentemente à procura de mensagens. Nada.

A citação postada no facebook é um pedido de atenção, o próximo passo são pequenas confissões. Melhor comer alguma coisa.

Depois do jantar, jornal. Sangue, corrupção, classe média, impostos, animais fofinhos e brincalhões.Sangue. A sensação de desamparo se perde ante as fortes emoções dos últimos capítulos da novela.

Não. Prefiro me apegar ao vazio que não vem de fora.

O teto do quarto é sujo e cheio de pernilongos. O chão está quente, a cabeça e as costas doem. Ao lado, um tufo de poeira sendo perseguido pelos olhos do gato esparramado pelo corredor. Até ele prefere não se mexer.

Tento pensar, mas só consigo sentir. Não, não chega a isso. Nem a isso. Um nó no peito, costumam dizer. Já ouvi falar em obsessão, inveja, trabalho. Até de cachorro preto já chamaram. Coitado do cachorro. Depressão, bile negra, melancolia. Frescura, de acordo com meu querido pai.

Minha irmã só se preocupa se for de longe. Minha mãe pede ajuda sobre como ajudar. Eu não entendo. Talvez não deva ser entendido. 


Ninguém ve, mas todos sabem qual é a causa. Eu estou apaixonada. Sou egocêntrica. Não me amo o suficiente. Me amo demais. Sou tímida. Não, não sou tímida. Ponho muito peso nas coisas. Penso demais. Não penso direito. Talvez. 

Fica tarde, vou para a cama. Os pensamentos são os mesmos. Minto. Não são pensamentos. Não sei o que são. Não durmo, engulo o comprimido, ganho duas horas de olhos fechados e uma dor de cabeça.

É assim.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

458 pedras




Sara carregava as pedras. Ela talvez fosse forte porque, apesar de não ficar em pé, ficava ali, resistente. Não que servisse para muito, pedras são sinuosas. Ficavam todas em Sara, mas continuavam por aí, no mundo. O dobro de dor numa dor só.

Ela pedia mais, queria mais e buscava mais. Quando não achava, sentia um vazio pior que qualquer toda dor do mundo. Um buraco e ela não sabia viver sem preencher os seus. 

Vivia carregando 458 pedras, das que vieram depois, perdeu as contas. Ia se arrastando, esforçando-se para as pernas não quebrarem, para as pedras não caírem, para manter a cabeça erguida à procura. 

Os passos estavam ali, mas quem olhasse veria falta de movimento. Se olhassem para sempre, veriam passos milenares. Curtos, com pés que quase não se levantam. 

Adorava pedras. Para outros, pareceriam todas iguais; para Sara, cada uma era singular e todas igualmente belas. Muitas pedras. Desamor. Era quase um vício, como os outros. Buscava o sofrimento, mas não suportava senti-lo, então, as substâncias. 

Andava exibindo seu casaco de dor, pior que qualquer casaco de pele porque eram todos juntos. Um dia, seus pés se desmancharam e ela andou de joelhos. Mas seus joelhos também não podiam suportar e viraram pó. As pedras caíram e começaram a seguir na direção de quem estivesse por ali. Primeiro, os que mais amava, depois os que cruzavam o caminho. 

Sara, coletora de pedras, não poderia deixar as suas em outros. Esse pensamento a fazia se desmanchar mais, por isso, precisou olhar em outra direção. Alguns aceitaram porque a amavam e o amor ainda existe. 

Procurou ajuda. Muitas erradas e por tanto tempo. Encontrou três certas que disseram a mesma coisa. Ela não podia carregar todas as pedras do mundo. Podia carregar talvez as suas e apenas as solúveis. As outras, deveria deixar ir. 

Não queria, mas as pedras escapavam de suas mãos transparentes, caindo sobre as costas de quem não as tinha pedido, mas as aceitava. 

Enfim ela parou e lentamente reconstruiu joelhos, não como passos, não milênios, talvez séculos. Depois, foi a vez dos pés renasceram frágeis e pequenos para um corpo humano. Fizeram com que Sara se sentisse forte – tinha muito mais do que estava acostumada a conhecer. Até sorria e começou a recuperar pedras que havia perdido, o que era justo. Seus pés doeram. Estavam acostumados à dor. 

Vendo que ainda andava, voltou ávida ao vício de coletar pedras, que a receberam como quem encontra um grande amigo. Cambaleava, andava e era bom. 

Mas o cambalear ficou cada vez mais presente e os pés que nem tinham terminado de estar inteiros já começavam a se desfazer. Mais uma vez.

E Sara ouviu das três ajudas a mesma coisa. Ela não podia carregar todas as pedras do mundo. Podia carregar talvez as suas e apenas as solúveis. As outras, deveria deixar ir. 

Ouviu das três ajudas muitas vezes a mesma coisa. Ouviu o mesmo de uma baiana, de uma criança e de um cigano. E ouviu das pessoas que a amavam. Foram palavras duras em seu desespero que as pedras deixassem seu peso. Ela ouviu sempre, olhando as pedras, olhando os mundos, olhando as pessoas, em seu êxtase de sacrifício. O mundo não ajudava, sempre cheio de mesquinhezes e grandezas das mais assustadoras que Sara tomava para si, mesmo que estivessem do outro lado, mesmo que ela fosse uma só e bem pequena. 

O dilema.

Porque, como disseram, rir estava em sua essência, mas ela também não podia desperdiçar a dor. Não nesse mundo. 

Então ela fechou os olhos, ouviu de novo e encontrou verdades que não sabiam o que fazer. 

Por isso, escreveu este texto. 

E colocou as pedras aqui.

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domingo, 9 de agosto de 2015

Danaus plexippus




Lembrava-se da picada que ficou vermelha rapidamente e foi crescendo até chegar a um roxo claro, mas não lilás, em relevo. Texturas e cores. Vira com certa inveja o bicho sendo expelido, se contorcendo como festa. Achava lindo saber tanto. Data e hora da invasão. Marca, história, cicatriz.

A ferida estava quase se fechando para sempre. O invasor tinha que sair, e a preocupava. Não era berne, mas talvez tivesse a pureza da minhoca espremida pelo avô do pé da irmã. Uma memória cheia de nojo e afeto.

A irmã não se lembrava do acontecimento, mas ela nunca esqueceria porque aquela era a raiz de tanta diferença entre as duas. Ela, presa no quarto. A irmã, jogada no mundo, toda voltada pra lá e ela toda voltada pra cá. 

Por que sempre procuramos os extremos? A irmã cada vez mais fora e ela parando sem nunca perceber. Quando viu, já era tarde, estava imóvel em uma cama. Paralisada de tanto pensar, sem entender sua invasão, sem sabê-la. Lutando? contra um monstro que não sabia existir. 

Ninguém sabia o porquê de tanta tristeza. Sua vida era boa. Tinha amor, tinha dinheiro. Quer um chocolate, filhinha? Ela também não sabia. A inveja da irmã não era real. Não queria saber seu invasor nem suas cores. Achava que se soubesse teria que o expelir e então ficaria só. Por isso não se mexia, para que nada novo acontecesse e ela não tivesse que enxergar. 

Foi assim que aprendeu. Uma traição fazer diferente. E a solidão. Ela, sempre só, com medo de ficar sozinha. Sem saber que invasores nunca acompanham, só invadem. Roubam a vida que se deixa passar. 

E a irmã pra fora, se mexendo e ela pra dentro, quase sem sair. Livros nunca foram o bastante, mas um dia deixaram mesmo de ser. E então a doença. Depois de espiar pelo buraco da fechadura, o não. Foi assim que tudo começou quando parecia ser uma pausa. E o ficar imóvel era na verdade um se mover. Abrir os olhos apenas. Tão difícil, cerrados, sem cílios em pálpebras amarelas de conjuntivite. 

E quando ela os abriu, viu o escuro de suas mãos comprimindo, tentando cobrir. E já foi uma noite diferente. E ela continuou sem saber se queria, se escolhia ou se podia ser. 

Quanto mais imóvel mais se mexia. O sofrimento dos opostos. Sem equilíbrio. Sem comunhão. E ela morreu. Lenta e dolorosa, mas não como se imagina. Não foi cheio de lágrimas e romance. A morte foi feita de gritos, palavrões e mau cheiro. De soluços, catarro e humilhação. Ela não chorou, ela gritou e esperneou como um porco no abate. E ela morreu e foi cercada por terra escura e fria. O silêncio.

E no silêncio ela pôde ouvir. E no frio ela pôde queimar. E no escuro ela pôde ser luz. E então descobriu que era seu próprio invasor, se despiu de suas roupas de humano e de borboleta à larva, foi. 

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domingo, 2 de agosto de 2015

Meu herói



Ele é um menino assustado, nunca foi bom no futebol. Não o suficiente. Teve família, teve comida, teve amor, estudou, vai na igreja, tudo certo. Não tem o que disseram. 

Imagina quando vai ser o que devia, dirigir carros velozes, matar o bandido, salvar a mocinha, como nos filmes. Ele é o herói.

Queria arma, só pra se proteger. Não vai atirar, tem medo, só pra se defender. Bandido bom é bandido morto. Não pode deixar estuprador solto, assassino solto. Pena de morte, arma pro cidadão, não pro bandido. Ele não é mau, ele é o herói.

Fez tudo certo. Estudou. Trabalhou cedo, 20 anos, é justo ter carro. Vem vagabundo querendo roubar. Não tem nada contra negros, tem amigos, colegas de trabalho que são. Não é justo as cotas, ele estudou, se esforçou e o outro nem sabe ler e rouba vaga na faculdade. Viu a notícia do catador de papelão que passou no concurso. Ele não é preconceituoso, a escravidão já acabou faz tempo, ele não escravizou ninguém. Fez tudo certo e agora tem um emprego mais ou menos e o preto que entrou depois já ganha mais que ele. Não pode, ele é o herói. Estudou, se esforçou, entrou primeiro. 

Ele faz tudo certo, respeita mulher, abre a porta do carro, não tem coragem de chegar. Quer casar, na igreja, tudo certo. Ele não é mau, ele é o herói. E vêm as feministas dizendo que tá errado. Ele é contra estuprador, bandido bom, bandido morto, mas a mocinha fica com o bandido, não com ele que é o herói. Todas putas, menos pra ele.

Ele vai na igreja, quer casar. Casamento entre homem e mulher, tá na bíblia. Ele não leu. Aí vem os gays, se abraçando, se beijando, na rua. Casal, casados, não pode. Ele é o herói e os gays com o amor que era pra ser dele. Tá errado. Viu que eles querem legalizar a pedofilia, não pode. Ele é o herói, vai salvar as criancinhas.

Ele é o herói. Acreditou na mãe, acreditou no padre, acreditou no filme. Ele tá certo. Por que sua vida não dá certo? Não é como disseram. Ele tá certo. É o mundo. O mundo tá errado. São os negros vitimistas querendo roubar o lugar dele que estudou, se esforçou, fez tudo certo. São as feministas que fazem mulher não gostar mais de homem. São os gays roubando o amor que era pra ser dele. Ele é o herói, vai consertar, bandido bom, bandido morto. 

Feliciano, Bolsonaro, de Carvalho. Eles tão certos. Falam certo. Têm seguidores, fazem sucesso. Ele vai copiar, São Paulo tem que separar. Ditadura, não gayzista. Feminazi não quer dar. Não pra ele. Lésbica peluda, tá errado, no filme pode. Negro vitimista, rouba o lugar. Não vai deixar. 

Ele fez tudo certo, o carro é dele, a mulher é dele, a igreja é dele, o emprego é dele. Ele é o herói. Não vai deixar ninguém tirar o seu lugar.

Ele tem uma arma.

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domingo, 12 de julho de 2015

Pai






O problema com os monstros é que eles têm olhos que podem chorar. E são lindos. Tão lindos pra quem não aprendeu a ver. Eu cresci cercada deles e aprendi que ser boa é fazer beleza naquilo que é feio. Eu via em tudo aquilo que os outros achavam triste e perigoso o que era certo e bom. Enxergando tudo torto, confundia ter olhos que podem chorar com poder chorar, com querer chorar, com saber chorar. Então aprendi a ver e a viver pensando apenas monstros, tentando achar jeitos de ver uma lágrima cair. 

E sempre houve muita água nessa história, mas ela era toda minha. E eu, boba, achava que tudo bem, porque podia ser espelho. Eu não entendia que os monstros enxergam muito bem uma realidade e sabem usá-la e sempre a usam, mas nunca, nunca a sentem. Eu não sabia que os monstros não podiam nem queriam ver dentro da dor. Mas eles sabem toda ela de fora, toda mesmo, todas as caras e todas as cores e as usam muito bem. Usam o fingir da dor para roubar folhas do livro da vida dos outros. Não podem roubar o livro todo, porque não o enxergam. Se enxergassem roubariam tudo, mas, na verdade, se enxergassem teriam olhos que sabem chorar e escreveriam seu próprio livro com as folhas que construiriam com os olhos que sabem chorar. 

Minhas folhas estão acabando porque eu sempre escrevi muito e desenhei. Desenhei monstros com olhos que podem chorar e acreditei, porque quis acreditar, que eram olhos que sabiam chorar. Cercada por monstros e achando que eles são lindos, mas tão lindos, eu até entreguei algumas folhas, muitas folhas e eles, vendo nas mãos o que não haviam precisado roubar, me olhavam bem fundo de espanto e eu via um brilho que sempre vi como saber chorar, mas não era, não era, era só um fundo de monstro num fundo de olhos que aprendem que existem presas fáceis e descobrem o prazer de roubar não roubando, de roubar como se nem quisessem, de roubar não só a folha do livro da vida dos outros, mas a própria tinta, a letra e o desenho. Ganhar páginas cheias de cor. 

Essa descoberta que eu dei aos monstros era uma felicidade. Eles sorriam tão grande e tão largo que eu, boba de novo, achava que toda aquela iluminação vinha de olhos que sabem chorar. Porque todo mundo sabe, só olhos que sabem chorar podem ter bocas que sabem sorrir. Mas eu era boba de novo e de novo porque não via que toda aquela iluminação vinha do livro da vida dos outros. E das minhas tintas e das minhas cores. Porque eram monstros com olhos que podem chorar, mas não sabem chorar. Roubam folhas pintadas de histórias. E sabem fingir a história que não é a deles. Sabem causar a dor que só sabem enxergar de fora, porque aqueles que têm olhos que sabem chorar doem mais e sofrem mais o mundo e os monstros sabem. Eles sempre sabem. 

Mas os monstros sabem muito. Muito mesmo e usam, usam muito mesmo. Mas não sabem saber o que importa. Não sabem que no sentir da dor pode haver beleza e alegria até e que ter folhas de um livro que é só seu é a coisa mais bonita do mundo. Melhor que roubar, melhor que ver a lágrima cair, melhor que esperar que os monstros que não querem saber chorar queiram saber chorar e usem o chorar e construam suas próprias folhas do livro da vida. 

Mas os monstros, ah, os monstros não querem ter olhos que sabem chorar porque têm medo. Têm medo de chorar, medo de construir suas folhas e mais medo ainda de dizerem que são monstros. Por isso fingem a dor dos outros, fingindo que acham que fingir é o mesmo que sentir. 

E foi assim que descobri o segredo, monstros são feitos todos de medo. O medo de si e o medo dos outros e é assim que eles continuam monstros. Sendo e fazendo medo. E descobrir o segredo me fez olhar mais fundo e querer dar ainda mais folhas com mais tintas, com mais cores só pra ver se eles decidem querer aprender a chorar. Mas não adianta, o que é mais triste nos monstros é que eles escolhem continuar monstros que roubam o livro da vida dos outros. Monstros com olhos que podem chorar não querem ter olhos que sabem chorar e fogem sempre do saber. Eles têm muito, mas muito medo da dor. Da sua própria dor e só dela. E preferem continuar fazendo medo e roubando o sentir de quem já sabe a dor e por isso não quer fazer dor nos outros. 

Sabendo assim do que os monstros são feitos, eles parecem pequeninhos, quase dando vontade de rir ao mesmo tempo em que dá vontade de chorar. Mas monstros são monstros. São feitos de medo e espalham medo. E é por isso que mesmo com vontade de rir e com vontade de chorar e achando tudo pequeninho e às vezes achando tudo muito grande eu, boba que sou, comecei a tentar parar de dar folhas do livro da vida. Mas ainda sim me vejo com a mão esticada falando bem alto, querendo que todos os olhos saibam chorar, aí percebo e me encolho num canto dizendo que não, que não pode, que não quero fazer nem ajudar a fazer medo. Mas os monstros já roubaram as folhas do meu livro da vida. Porque eu entreguei tanto e por tanto tempo que não aprendi a fechar nada e o livro está sempre aberto e as folhas voando, chamando quem quiser roubar.

domingo, 5 de julho de 2015

Quem tem cu...





Eu ouvi dizer que tem uma terapia de grupo. Terapia de grupo. Terapia já é coisa de viado. De grupo então. E só macho. Nada de mulher. Eu não vou ficar falando dos meus problemas prum bando de imbecil. Chorando porque minha mãe mimimi. Tive criação, sou homem, resolvo minhas coisas. Terapia de grupo. Sai fora. 

Terapia é coisa de viado. Terapeuta é tudo mulher, pode ver. Ou então, viado. Psicologia é curso de mulher. Numa sala de cem pessoas, tem três homens só. Quer dizer, não é homem-homem, porque se fosse não tava lá fazendo psicologia. Mas até aí tudo bem, quer ser bicha, vai ser bicha longe de mim. Agora, ficar participando de grupinho aí. Não tem cabimento. E depois vem contar na maior cara de pau. Não almoço mais com esse sujeito. Depois ele vem com papinho estranho, vem querendo dar tapinha nas costas. Sai pra lá. Se vou no banheiro e ele tá lá, nem disfarço, saio mesmo. Ou então finjo que vou cagar. E quero macho me olhando? Sai fora. 

Já alistou mais um pro grupinho de viado. Não quero essas coisas perto de mim. Sabe como eles chamam esse negócio? Vivência de afetividade. Que porra é essa? Veio me dizer que melhorou o casamento, que agora enxerga a mulher como ser humano e respeita e é capaz de corresponder às necessidades emocionais dela. Repito. Que porra é essa? Isso lá é jeito de homem falar? Sai fora. 

Agora tão os dois aí, almoçando juntos, tomando café juntos, até mijar devem mijar juntos. E você pode imaginar o que acontece naquele banheiro. Imagina! Não, eu não quero. Se cumprimentam com um abraço bem apertado. Todo dia. Todo dia tenho que ficar olhando dois machos na maior agarração. Quer dizer, se fosse macho mesmo não tinha essa pouca vergonha, que macho que é macho agarra mesmo é mulher. Agora, quando Claudinha passa com aquela calça enfiada no rego, que é uma delícia, eles nem falam nada, dizem que é desrespeitoso. Isso lá é coisa de homem? Se ela sai na rua desse jeito, vem trabalhar na fábrica desse jeito, já sabe muito bem o que a espera. Ela gosta. E vem os dois viado com isso de ter que respeitar, nem olhar mais eles devem. Agora só olham um pro outro. Sai fora. 

E no churrasco? Queriam chamar a mulherada, vê se pode. As funcionárias, as esposas, eles disseram. E as putas? Como é que vai fazer? Agora não posso nem jogar mais. Não vou arriscar. Vai que as duas bichas me agarram. Eu fui, mas fiquei só olhando. Só olhando... Futebol é jogo de homem, quero lá me arriscar? Mas não vou mesmo. Sai fora.
Maldito movimento gay. Querem que todo mundo seja bicha. Vão querer ensinar viadagem nas escolas. Os homens de verdade, machos mesmo, têm que se juntar, se unir, se aglomerar... Agarrar não, que não sou fruta. Não vou cair nessa. Fiz faculdade! Curso de homem! Trabalho em fábrica! Sou homem. De bem. Não sou bicha. Por que é que tenho que ficar olhando dois caras na maior agarração? Sai fora.

Homem. Homem de verdade. Homem de bem. Homem de Deus que não aceita viadagem. Um dia, quando tiver coragem, desce o cacete. Sai fora.

** Baseado em uma conversa com um erro de ser humano.



Para conhecer meus livros, acesse www.mahanacassiavillani.com.br

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Bruno


Este é o último texto que escrevo pra você.
Talvez outros apareçam, mas terão vindo antes.

Eu poderia falar de quanto sofri. Quanto você me fez sofrer.  Quanto eu me fiz sofrer. Mas já fiz isso tantas vezes e nunca terei o que não foi.

Eu poderia me vingar e te pintar como eu te vejo. Ou pior. Poderia até te escrever exatamente como você é, o que incomodaria mais. Mas já fiz isso tantas vezes e nada tira a minha dor.

Eu poderia falar de quanto te amei e das coisas bonitas que vi a seu lado. Mas seria uma mentira. Eu nunca te amei. O que eu amei foi meu desejo de te salvar da sua miséria, de resgatar a menina presa no fundo dos meus olhos.

Nisso somos iguais. Você também só amou o que estava em você.

Eu poderia manchar meus sonhos no papel e escrever uma história do que deveria ter sido. Talvez virasse um best-seller e depois um filme que encheria os olhos de água e fizesse suspirar.

Eu também poderia escrever sobre o desejo. Mas não vou. Agora que ele não existe mais, suas lembranças se misturam à realidade e você só me trouxe memórias tristes. Vejo com olhos que não queria abrir.

O buraco que você deixou foi grande, mas ele está se fechando e não vai deixar cicatriz. Eu poderia acariciá-lo, de leve no começo, depois cada vez mais forte até que estivesse lá. Eu sofreria, sei fazer isso como ninguém, e você seria presença de novo.

Então eu poderia escrever cheia de dor, de desejo, raiva, sarcasmo e vingança, mas não vale a pena.

Minha criatividade não é mais pra você.

Esse texto não é literatura.

Esse texto é uma despedida.

Veio tarde, mas está aqui.


Por favor, não leia.

domingo, 21 de junho de 2015

A curvatura de suas costas





Aninha é uma garota esperta. Mais ou menos. Fez faculdade e tem um emprego sem graça. É engajada com a questão do meio ambiente e adora programas culturais. Ainda contribui com o jornal da universidade. De modo geral, não é má pessoa.

Quando recebeu um e-mail muito elogioso sobre sua produção literária, seu ego, naturalmente do tamanho de uma maçã, inflou-se até parecer uma jaca. Respondeu cheia de palavras bonitas e tratou logo de adicionar Bruno no facebook.

Os próximos fatos se deram na seguinte ordem: descobriu que ele era solteiro, passou a achar que ele era bonito, achou suas fotos divertidas, passou a achar seus posts engraçados, passou a achar seus poemas bons. Ficou a fim.

Aninha se esqueceu de que o facebook é uma vitrine de nada e que e-mails escondem as entrelinhas. Coitada, era esperta, mas não tinha bola de cristal. Como poderia saber que as opiniões que tanto a atraíam em seu pretendente eram todas roubadas? Como saber que aquele homem que curtia páginas como Frieda explica, se precisar repete passara seus 27 anos de vida com as costas curvadas, compenetrado nas peculiaridades do próprio umbigo, sendo que agora, nem que quisesse, e não queria, seria capaz de levantar os olhos e apreender a existência de outro ser humano? Nem mesmo o amor seria capaz de endireitar as costas daquele homem porque esse sentimento ele só tinha e só queria ter pelo próprio umbigo.

domingo, 14 de junho de 2015

Thiago. Com TH.


Bruno estava chateado. O mundo não andava legal. Na flor da idade, músico, poeta, feminista. E sem ninguém descolado com quem conversar. Michele, a estagiária tatuada em locais estratégicos, havia partido dessa pra uma melhor. Não, não. Ela só fora contratada por outra empresa. O pessoal da análise de crédito era muito coxinha. Bruno gostava de ser visto com eles, afinal, era um homem flexível, capaz de transitar com graça entre vários grupos. O problema era que eles não diziam nada que pudesse ser reproduzido. E também, Bruno sempre perdia na argumentação política.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Com sentimento




Não tinha superstições muitas. Sempre se considerara uma pessoa lúcida. Certa tarde por um descuido sob a água corrente, sua aliança se foi pelo ralo. Pouco se importou, feito de latão, aquele objeto era apenas mais uma tentativa fracassada de ser bem sucedido na arte da pegação. No escritório notava como as mulheres sempre corriam atrás dos casados, principalmente Daniel. O que é que tanto viam naquele cara sem graça? Ele não era forte, não era rico, não era nada. Mesmo assim a mulherada caía matando. Malaquias não entendia. A verdade é que quem carrega uma mala no nome não pode ter um bom destino.

O famigerado Malaquias não aguentava mais ficar sozinho. Não que quisesse uma companheira, queria uma apenas uma cavidade aquecida que não custasse tanto. Nas semanas seguintes à do pagamento passava seu tempo entre sites sobre carros, esportes, aqueles restritos a maiores de 18 anos e finalmente, a cereja do bolo, sites de sedução, nos quais procurava aprender como se tornar um macho alfa.

Destituído de sexo, pobre Malaquias não parava de ler artigos sobre como atrair mulheres. Infelizmente, suas leituras resultavam infrutíferas, já que os argumentos sobre leis da atração e psicologia feminina eram no mínimo inverídicos e a lógica de seus autores, inexistente.

domingo, 24 de maio de 2015

Aqueles fios dourados





Marcos os olhava incompreendido. Eram longos e lisos. Lindos, com movimentos mais naturais que uma propaganda de xampu. A cabeça de onde nasciam era igualmente bela. Priscila possuía no nome o P da perfeição. Ela era jovem e bonita, não precisava esconder o rosto atrás de maquiagem. Usava roupas simples que evidenciavam as curvas de seu corpo. 

Marcos a olhava embevecido. Nunca se cansava. Ela era graciosa e sorridente na medida adequada. Quieta e distraída, uma boneca. Priscila era olhada por todos aonde quer que fosse. Eram os fios dourados que deixavam sua marca. Sua presença era muito mais imponente que sua dona. Mas não para Marcos. De vida simples, nunca imaginara que seu ideal de mulher pudesse existir nesse mundo. Ele a amava. 

domingo, 10 de maio de 2015

O bastão de mercúrio




Dr. Paulo era médico e às sextas-feiras fazia plantão de madrugada no pronto-socorro de um convênio cuja qualidade era mais ou menos razoável. Costumava ser tranquilo e ele passava boa parte das doze horas comendo, dormindo e tentando seduzir a enfermeira. A auxiliar, a recepcionista, a faxineira. Às vezes aparecia uma paciente da qual ele poderia se gabar. Às vezes aparecia uma paciente que ele gostaria de possuir, mas nunca admitiria. De modo geral, só via velhas cheias de varizes, grávidas neuróticas, homens com gases e bêbados. Praticar a medicina não era tão glamouroso quanto parecia à primeira vista, pensou coçando a grande barriga. O título sim, esse era motivo de orgulho, usava-o sempre que podia, dentro e fora do hospital. A não ser quando havia alguém por perto precisando de atendimento, nessas ocasiões mantinha-se em silêncio, porque precisava proteger sua vida pessoal ou não sobreviveria. 

O pior de fazer esse turno era atender os jovens com toda a sua juventude. Chegavam bêbados, arrogantes, com seus abdomens definidos e sua falta de tato, falando alto, fazendo barulho, constrangendo as mocinhas, as bonitas e empinadas pelo menos. Todos virgens, Dr. Paulo tinha certeza. Sabia das coisas. 

domingo, 3 de maio de 2015

#maispuraverdade


Amanda tinha facebook. Amanda gostava do facebook. Curtia páginas cool e estalkeava tranquilamente as pessoas. Um dia viu no feed de notícias que uma das páginas cool havia postado um vídeo mega interessante. O título era: vídeo mostra reação das pessoas ao presenciar um morador de rua sendo roubado.

Amanda não era uma pessoa má. Não era violenta. Não tinha nada contra gays, apesar de achar dois homens se beijando meio nojento. Não tinha nada contra negros, apesar de fechar os vidros do carro quando algum se aproximava. Tinha dó das crianças carentes, apesar de ignorá-las nos faróis e em todo o resto. Acreditava que os velhinhos mereciam respeito, apesar de nunca visitar a avó viúva e solitária. Não entendia porque gente gorda simplesmente não fechava a boca e emagrecia. Todos nós somos feitos de pequenas incoerências e hipocrisias. Amanda sabia. Tinha visto no facebook.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Lado B



Conto publicado na 12ª edição da Revista Flaubert


Passava pelo corredor escuro a caminho da sala 128. O calor não combina com as nuvens lá fora. A minha frente, encostados às paredes, alguns PMs e oito crianças algemadas. Os infratores estão virados para o concreto cinza, mas sinto os olhos dos policiais com suas armas em mim. Odeio passar aqui nessa hora. Na sala de testemunhas, mães e namoradas choram ou conversam distraidamente.