Luana achava que era Jesus Cristo. Não, não era como aquele cara estranho que faz versões das músicas da Amy e da Britney. Não era como ele. Era como se tivesse nascido com vocação pra Madre Teresa de Calcutá. Só que não tinha.
segunda-feira, 2 de agosto de 2021
E Luana estava aqui
segunda-feira, 26 de julho de 2021
História do amor
Eu fui estuprada e tudo ocorreu como deveria. Ele estava por cima e pediu que eu abrisse as pernas e eu abri. Mais, ele disse. E eu abri mais. Ele me penetrou e tá doendo? ele disse. Diz que tá doendo. E eu disse: tá doendo. E ele gemeu. E ele gozou.
quinta-feira, 27 de maio de 2021
E Marília?
Era como se Marília sempre tivesse sido mãe. Sua carreira
promissora na juventude fora apagada pelos muitos anos em que cuidou dos
filhos. Era a mãe modelo. Sempre respeitando, sempre tentando ouvir, deixando
que as crianças, e depois adultas, tivessem sempre sua individualidade.
Quando seu pai morreu, se tornou mãe da própria mãe, que
tinha sido criada à moda antiga e, como tal, não sabia fazer nada da vida
prática sozinha. Marília tinha que levá-la ao mercado, ao médico, à
fisioterapia, à natação. Também precisava ter os cuidados emocionais, então a visitava
todos os dias para que não se sentisse sozinha. Na casa pequena de Marília, não
havia espaço físico para sua mãe.
Era uma espécie de tortura porque a mãe, diferente de
Marília, nunca tinha sido uma mãe de verdade e a deixara com feridas profundas
e uma sensação de abandono da qual não conseguia se desvencilhar e que, sem
querer, passou para as filhas.
A situação piorou quando veio o diagnóstico de Parkinson.
Foi preciso encontrar lugar para a mãe de Marília em sua casa e isso aconteceu
porque, naquele ano, as duas filhas se mudaram. Uma para casar, a outra para
morar sozinha.
Marília deparava-se com uma nova filha. Um corpo de mulher
exigindo cuidados de criança. Fraldas, pomadas, papinhas. Tudo durou mais ou
menos cinco anos e, nesse período, a filha de Marília que havia saído para
morar sozinha e que se chamava Clarice, voltou. Dormia na sala. Era depressiva
e bipolar, então Marília precisava cuidar dela também. Duas filhas grandes como
se fossem pequenas não é tarefa fácil para uma mulher, mas Marília era a
mulher. E fazia tudo não com resignação, mas com uma vontade de ferro.
Depois que a mãe partiu e a Clarice melhorou (encontrou um
bom psiquiatra e acertou os remédios), ela decidiu fazer inseminação artificial
e ter seu próprio filho ou filha. Marília apoiou, sua outra filha tinha uma
mulher, uma companhia, mas Clarice era sozinha. Talvez por seus problemas nunca
conseguiu fixar-se em um relacionamento duradouro.
Fizeram o procedimento com todos os medos, dores e alegrias
que ele traz e Clarice finalmente engravidou. Uma menina a que chamou Cecília.
Clarice tomava seus remédios, estava bem e cuidava da filha
com o maior amor que conseguia sentir. Marília também fazia sua parte, era mais
que avó, era segunda mãe.
Conforme Cecília crescia, Clarice começou a ter cada vez
mais dificuldades em engolir. Principalmente os remédios, engasgava e vomitava
com frequência. Marília se preocupava e exigiu que ela fizesse os exames de
Parkinson. Eles não são tão precisos assim, mas era melhor ter uma ideia.
O médico foi taxativo. Sim, havia a presença do Parkinson, e
os sintomas começariam a aparecer. Marília e Clarice choraram muito. Clarice
tinha presenciado todo o sofrimento da mãe e não queria que ela passasse por
tudo aquilo de novo. Cecília tinha cinco anos.
Conversaram muito e tomaram uma decisão. Mãe, não chore por
mim, te deixo de presente meu bem mais precioso. Cuide dela e tente fazer ela
não se esquecer de mim. Eu te amo com todo o meu coração e quero que você viva
feliz.
Clarice pegou todos os comprimidos de Rivotril que tinha em casa e os tomou de uma vez. Deitou-se no colo da mãe com a filha a seu lado. Quando percebeu que Clarice havia parado de respirar, a mãe acariciou seus cabelos, pegou o celular e chamou a ambulância.
Para conhecer meus livros, acesse www.mahanacassiavillani.com.br
O caminho da serpente
É com muita alegria que anuncio a publicação do meu novo livro, O caminho da serpente.
Escrever é um derramamente, um chamado. E poder compartilhar esse chamado com os outros é um presente sem igual. Vou colocar aqui a capa e um conto do livro. Quem quiser adquirir é só entrar no site www.mahanacassiavillani.com.br ou me procurar no Whatsapp (11) 99111-7614 .
Em "O caminho da serpente", Mahana Cassiavillani dá provas que sua voz tem o peso e as medidas necessárias para fincá-la entre as grandes escritoras da literatura contemporânea. No segundo livro de contos, gênero que pratica com maestria, a autora se contorce, mais uma vez, entre temas difíceis; não de modo panfletário, mas plenamente absorvidos pelos corpo textual: a criança gorda, a menina lésbica, o filhinho da mamãe, situações de assédio, masturbação, depressão, traição, doença, bullying, invisibilidade, perdas, reaparecem com a mesma ironia, mas agora, deitados com uma enganosa indiferença sobre o papel.
Isso porque se o caminho é o mesmo - as violências naturalizadas no cotidiano - a serpente trocou de pele: "Cobra real. Cobra pássaro que voa livre de amarras. Meus braços que não são se abrem em prece" e deixa seu rastro numa espécie de travessia entre os contos. Assim, vemos a ausência tão presente pai - da desaparição pelo abandono à morte - perpassar a grande maioria dos contos, deixando marcas profundas nas personagens. A narradora também vai trocando de pele, sendo ora uma, ora outra, irmanando-se de suas personagens para deflagrar situações terríveis a partir da mesma lente acostumada desses indivíduos vidrados em programas sensacionalistas que os olham sem ver, ou melhor, sem sentir. Tudo isso num provocativo serpentear que avança e retrocede com presteza: "Quando adulta, entendeu que, quando criança, fora muito pobre".
Essa horizontalidade na escritura, no entanto, é surpreendida por movimentos fatais: como a cobra real, que se caracteriza por botes certeiros antecedidos ou seguidos de encolhimentos, Mahana finaliza com imagens verticais que nos abismam ao final de cada conto. É uma picada cerebral. A essa autonomia plenamente constituída somam-se ainda as ilustrações de Jacqueline Harsche, que acrescentam provisoriedade e subtaneidade à natureza já serpenteante dos textos.
Geruza Zelnys
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
Um sonho que se realiza
Se alguém quiser adquirir pode entrar no site www.mahanacassiavillani.com.br ou me chamar no Whatsapp (11) 99111-7614
Prepare-se leitor.
Os contos de "Deus é bom e o diabo também", livro de estreia de Mahana Cassiavillani, são uma afetuosa arma de deixar chagas que não cicatrizam. Contos habitados por seres que vagueiam entre a delicadeza e a crueldade. Estão tão próximo de nós que quase somos capazes de sentir o odor que exala de seus corpos, são pessoas comuns, anti-heróis. E podemos, de repente, nos reconhecermos neles. É provável que já tenhamos esbarrado em alguns desses seres.no ônibus, no metrô, no meio da rua ou em alguma repartição pública, mas também também é possível encontrá-los nas redes sociais e dentro de casa, no contato com a família. No entanto, é preciso enxergar para além de suas máscaras, cavouvar os segredos do que não está dito.
Mahana tem intimidade com a arte do conto. Sua narrativa vibra na tensão entre clareza, concisão e um lirismo ácido. Percorre o universo das relações humanas: dos amores incompreendidos, passando pelo desencanto do sexo ao desespero da existência. Investiga sem maquiagens essas relações, expõe os seus preconceitos, dramas, temores e anseios. Escancara o que o bom costume pede para se colocar debaixo do tapete. Não se compadece, nem enaltece suas criaturas, dá a elas a chance de ser o que são. Não há julgamentos, apenas os fatos.
Nesta potente coletânea de contos, contrariando o maniqueísmo, Deus e o Diabo estão sempre de mãos dadas.
Boa leitura.
Marcelo Maluf
Para conhecer meus livros, acesse www.mahanacassiavillani.com.br
domingo, 3 de julho de 2016
Saliva, sêmen e sangue
domingo, 19 de junho de 2016
Mãe que cria
domingo, 12 de junho de 2016
sábado, 20 de fevereiro de 2016
O que faz um farol
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
458 pedras
domingo, 9 de agosto de 2015
Danaus plexippus
domingo, 2 de agosto de 2015
Meu herói
domingo, 26 de julho de 2015
Pés
quarta-feira, 15 de julho de 2015
Ninguém
Ninguém é a favor do estupro. Estuprador apanha na cadeia. Até bandido tem código de honra. Nem bandido faz esse tipo de coisa.
Ninguém é a favor do estupro. Mas muita gente até acha normal as atrizes mostrando os peitos na TV pra vender mais. Alguns dizem que é uma imoralidade, mas até esses assistem pornô. Que jogue a primeira pedra quem nunca assistiu. E jogam, mesmo já tendo assistido.
Ninguém é a favor do estupro. Mas muitos acham normal pressionar a namorada pra transar e pôr a mão aqui e ali depois de ela ter dito não.
Ninguém é a favor do estupro. Mas quase todos olham a mulher que passou de shortinhos, afinal, ela passou de shortinhos, mesmo que ela tenha apenas 14 anos.
Ninguém é a favor do estupro. Mas quem não adora ver o e-mail com nudes da ex-namorada de alguém tentando se vingar?
Ninguém é a favor. Mas muitos contratam a loira gostosa, mesmo que houvesse candidatos mais qualificados. Só pra olhar.
Ninguém é a favor. Mas todos estão acostumados a pensar que o corpo feminino existe para olhos, mãos e bocas dos outros.
Ninguém é a favor. Mas quantos praticam a autocrítica e procuram consertar o erro dentro de si?
Ninguém é. Mas muita gente acha feminista exagerada e mulher vitimista.
Ninguém é. Mas quantos acreditam que a cultura dele seja um mito inventado por petralhas, metralhas, comunas, feminazis ou qualquer coisa que se decida odiar?
Ninguém é.
Ninguém.




