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segunda-feira, 31 de maio de 2021

Cortar ou não cortar o cabelo?

 


    Quando tive a pior crise bipolar da minha vida, sobre a qual falei no último post, meu cabelo começou a cair. Quando eu melhorei, ele continuou caindo. Se formavam grandes nós que eu não conseguia desfazer e precisava arrancar. O resultado: fiapos aqui e ali e vários cotocos bem pequenininhos.

    Agora estou fazendo um tratamento e ele parou de cair, mas, toda vez que olhava os fiapos, me lembrava do momento mais difícil da minha vida. E isso me fazia muito mal.

    Apesar de achar que não fico bem de cabelo curto, criei coragem e pedi pra minha cunhada cortar meu cabelo (não tenho coragem de arriscar cabeleireiro com essa pandemia).

    Junto com os poucos fios, foram as lembranças daquele momento difícil. 

    Tirando do meu corpo a memória da doença. 



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quinta-feira, 27 de maio de 2021

A pior crise de bipolaridade que já tive

     


    Tudo começou devagar. Era maio de 2020, mas não teve a ver com a pandemia. Minha avó, que agora já partiu, tinha Parkinson, e nos últimos anos de vida, entrava e saía de hospitais frequentemente. Ela estava internada, e eu tinha medo de ficar sozinha em casa enquanto minha mãe ficava com ela. Primeiro sinal. 

    Comecei a ficar na casa da minha irmã enquanto minha mãe estava no hospital. Mas eu não conseguia ficar sentada. Ficava deitada olhando para o computador esperando aparecer trabalho. 

    Minha avó voltou para casa, mas eu continuei ficando deitada, me sentindo cada vez pior. 

    Então chegou o dia. Estava numa reunião de trabalho ouvindo as pessoas e nada daquilo fazia sentido para mim. Eu senti uma vontade enorme de cortar os pulsos. Tudo na minha mente me dizia que era isso que precisava fazer. Fui até a cozinha e peguei uma faca grande e afiada. Logo que comecei a enfiá-la na carne, minha mãe chegou bem quando eu estava começando, então ficou só um arranhão. Ela escondeu todas as facas.

    Depois, eu comecei a ter uma ideia fixa. Queria furar os olhos. Ela teve que esconder todas as coisas pontiagudas: pinça, cortador de unha, tesoura e até uns palitos aromáticos que eu quebrei e tentei enfiar nos olhos.

    Falava com meu psiquiatra toda semana e toda semana ele mudava o remédio. Acho que nada profissional. Até que chegou o dia em que recebi uma mensagem da secretária dele dizendo que ele havia parado de atender por tempo indeterminado. Era mentira. Conhecia uma menina que passava com ele e ela continuou indo nas consultas normalmente.

    Foi aí que caí de vez. Passava com ele há uns 6 anos. E quem tem esse tipo de problema sabe que a relação com o psiquiatra tem que ser de total confiança.

    Eu ficava deitada no sofá de pijama o dia inteiro, com uma almofada apertada contra o peito para tentar segurar a angústia.

    A empresa em que eu trabalhava e, principalmente, meu chefe, foram muito humanos. Aceitaram vários atestados sem me colocar na caixa.

    Uma amiga recomendou um psiquiatra para mim e foram uns sete meses até acertar o remédio. Sete meses chorando, sem conseguir tomar banho, com uma angústia sem fim. Eu queria morrer, mas não tinha forças nem para tentar me matar.

    Mas, enfim, melhorei. Não quero nunca mais passar por isso, mas sei que é uma possibilidade.

    Acredito, porque preciso acreditar, que a bipolaridade me deu um presente: o dom da escrita.

    Bipolares com frequência têm tendências artísticas. 

    Mas, nunca, nunca romantize essa situação. Disturbios mentais são um assunto sério.


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sábado, 21 de março de 2015

Hoje eu não consegui levantar da cama

Depressão. Dói falar disso. Dói viver nisso. Sinto como se precisasse falar o tempo todo sobre isso. Sinto que preciso escrever, é um transbordamento. Não é como nos filmes, pelo menos não o tempo todo. Eu trabalho, faço coisas, às vezes até saio para me divertir. Também passo finais de semana inteiros sem sair da cama, tenho crises de choro inexplicáveis na frente de qualquer um e chego a ficar o dia todo apenas olhando para a tela do computador sem conseguir fazer meu serviço de tanta ansiedade.

Isso da depressão, ninguém entende direito o que é. Nos raros dias em que estou bem, vejo o quanto poderia estar fazendo. No resto do tempo, sinto uma enorme culpa por não fazer o mais banal. São só alguns pratos, porque é que eu não levanto mais cedo pra lavar a louça? É tão simples, mas toda a minha energia é gasta tentando me convencer a levantar da cama e ir trabalhar, às vezes gasto horas nessa bobagem. O dia ainda nem começou e eu já exausta. A culpa sempre me acompanha. Culpa por não ajudar em casa. Culpa por não trabalhar direito. Culpa por estar sempre triste. Culpa por precisar tanto dos outros. Culpa por não retribuir o que eles me dão.

Sempre penso que não estou doente, que simplesmente sou assim, meio inútil, sempre triste. É comum pensar que todos os remédios e tratamentos que procuro não mudarão nada, que isso é o que sou. Faz mais de dois anos que me disseram que tenho depressão, mas a terapia me ajudou a entender que ela já esteve presente em vários momentos da minha vida, desde muito cedo ela me acompanha.



Muita gente que quer ajudar não entende direito a dimensão das coisas. As pessoas pensam que depressão é igual a tristeza. Não é. Embora a tristeza esteja presente, não é isso que define a depressão, não é só isso. Talvez depressão seja uma tristeza que não vai embora, não importa o que aconteça. Não sei, não consigo entender direito. Ouço muito que preciso sair, fazer coisas de que goste, me distrair. Nem sei como expressar o quanto eu gostaria de fazer todas essas coisas. Às vezes até consigo e me sinto muito grata por isso, mas sentir prazer se torna impossível quando cada palavra, cada movimento me rasgam e me paralisam.