domingo, 19 de junho de 2016

Mãe que cria



A mãe de Malu a pegou com drogas, veja só, maconha, meu Deus, onde é que esse mundo vai parar. Por sorte, a menina tinha apenas quatorze anos e ainda podia ser salva apesar de suas origens peculiares.

Malu havia sido fruto de um adultério, e sua mãe, porque mãe é aquela que cria, não aquela que abandona, a acolhera mesmo sabendo de sua raiz problemática. O casamento se manteve, o caso aparentemente terminou.

A mãe de Malu suspeitava que aquela que a abandonara era uma prostituta. Não agora, bem, talvez agora, mas na época principalmente. Com 15 anos já era prostituta, por isso a mãe de Malu se preocupava, porque a adolescente estava chegando na idade da perdição, e genética é uma coisa com a qual não se brinca. Era preciso fazer algo.

Foi internada em uma clínica de reabilitação em Piratininga, no interior de São Paulo. A família não a visitava porque a distância era um inconveniente, e as despesas da viagem somadas à mensalidade da clínica eram pesadas. Além disso, e, mais importante, a visita fazia mal à Malu, que chorava, ficava manhosa, não queria se levantar da cama e suplicava para voltar para casa. Dizia até que estava com saudades da escola, a malandrinha. A família, preocupada com a recuperação da menina, cuidava para não a atrapalhar.

O problema todo foi que um promotor desses de justiça se atentou para o fato de que Malu estava na clínica já há um ano e meio e isso constituía abandono de escola. Uma coisa que alguém inventou para que outra pessoa fosse responsável; pessoa a qual deixou a cargo de outrem, que passou a fiscalizar os responsáveis legais, no caso, os pais. Ou melhor dizendo, a mãe que criou, não que a abandonou. O pai não vai aparecer na história; muitos não aparecem.

O promotor de justiça era uma daquelas exceções que não acreditamos existir e que surpreendentemente fazem seu trabalho. Descobriu Malu na clínica de reabilitação em Piratininga. Descobriu que a menina estava lá há um ano e meio e que, devido a seus vários problemas de drogadição e de inserção social, era fortemente medicada, o que a deixava tranquila e menos combativa. Nem pela família, que não a visitava há seis meses, ela perguntava mais. O promotor também descobriu que Malu havia sido abusada por um dos funcionários da clínica de reabilitação. Para algumas pessoas, abusada seria um eufemismo de estuprada. Para outras, entre elas a mãe de Malu, a que criou, não a que abandonou, abusada era um exagero para relações sexuais.

Porque ela amava muito sua filha, Deus sabia. Amava-a muito e, como toda mãe, conhecia o que tinha em casa. Sabia, com todo o seu amor, que Malu não era boa coisa, tinha o mal na semente, e já vira como ela se comportava na frente dos homens. Vira com aqueles olhos perspicazes de mãe preocupada que faria tudo por amor, inclusive aceitar a verdade da natureza da filha.

Disse tudo isso quando foi questionada pelo promotor desses de justiça sobre por que havia deixado uma adolescente dopada por um ano e meio em uma clínica de reabilitação no interior de São Paulo, mesmo após o fato do abuso. O promotor disse ainda que Malu era menor de idade e que não tinha nenhuma culpa em relação ao ocorrido. O responsável era o funcionário da clínica que, além de maior de idade, estava em situação de poder, pois cuidava de uma criança em situação de vulnerabilidade ou qualquer coisa assim.

A mãe de Malu se explicou, disse que amava sim e muito a filha, mas que não podia negar o tratamento que a menina dava aos homens, disse que via, presenciava e que não havia possibilidade nenhuma de o funcionário ter tido qualquer culpa, porque homens são assim. Uma questão de natureza.

O promotor também disse que não era possível deixar uma adolescente sem estudar por um ano inteiro e meio, que aquilo a prejudicaria demasiado em toda a sua vida futura. Mas a mãe sempre diligente respondia que tudo o que havia feito era pelo bem da filha, por amor. Era na escola que estavam as drogas, as más companhias. A família até tentou mudar a adolescente de instituição, mas não adiantou. A menina juntou os desviados de uma com os desviados da outra. Foi assim que a mãe de Malu descobriu e, no caso, confirmou, que a origem da discórdia estava na própria filha. Era a semente. E, no interesse de salvar a família e a própria menina, mandou-a para longe, onde ocorreu toda a história. Nada mais justo. Era certo. Tinha fé de que tudo o que havia feito, havia feito no amor.

E, conhecendo todos esses fatos, o promotor desses de justiça que, surpreendentemente fazia seu trabalho, precisava convencer Malu e sua mãe de que elas se amavam e de que estariam melhores juntas, porque é assim que famílias devem ser.

O promotor de justiça conhecia muito bem os abrigos e as casas de acolhimento com todos os seus nomes de eufemismo. Por isso ele tentava convencê-las com as palavras que dizia e com os ouvidos que fingiam para si mesmo acreditar no que ouviam, porque só assim poderiam continuar. E ele continuava e convencia. Ele as convencia de que se amavam, de que estariam melhores juntas, de que famílias são boas e nos fazem bem. Ele talvez as convencesse e talvez convencesse a si mesmo, porque era muito bom, mas não tinha certeza.


 A gente nunca tem.

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