domingo, 3 de julho de 2016

Saliva, sêmen e sangue



Havia se tornado hora de acordar, abrir as janelas, sentir o calor do sol, respirar e ser corpo novamente, mas a única janela possível havia se feito concreto, e todas as manhãs eram enfim noites e, no ar puro, ela nunca deixaria de enxergar a sua sujeira.

Luana escolhia outras paisagens, caminhos baixos e cheios de barro, nos quais pudesse ver mais o céu sem deixar de sentir o vermelho da terra que buscava e que sabia ser. Fruto de infâncias que repetia na aprendizagem do seu ser mulher.

Quando seu corpo lhe dizia que havia chegado, Luana sabia que era apenas mais um e de qualquer forma assentia porque nunca soubera que era mesmo verdade que se podia dizer não. 

Retirava-se desses momentos e deixava que seu corpo fosse, porque era outro que não ela. Via-o, sem vontade, com outros corpos que não viam a ela. Sedentos, débeis, com mãos que não sabem enxergar.

Quando voltava a ser Luana, cuidava do que devia ser seu e não era. Limpava saliva, sêmen e sangue. Quantos corpos não sabiam o que era Luana, o que era corpo e o que era sentir? Quantas Luanas havia sido porque também não soubera qual era o seu corpo e como ser sem se tornar a dor de outro? 

Até mesmo seus olhos de Iemanjá estavam secos. As águas, que corriam livres em filhos da rainha das ondas, recusavam-se em Luana, não havia lágrimas nessas ocasiões, apenas sangue em um corpo sem ser. Sacrifício.

Luana aceitava seu destino porque o fazia ela. Punia seu corpo porque eram um e outro e não o mesmo. Saliva, sêmen e sangue. Sem Luana. Ou assim pensava sabendo que a dor pertencia a ambos. 

Cansada de não ter mais lágrimas, resolveu que era hora de não ser mais corpo. Calou-o, calando-se a ela e, por muito tempo, achou que aquilo era viver. Não havia dor. Não havia saliva, sêmen e sangue. Mas não havia dor, não havia corpo e não havia Luana.

Silenciou-se e fez o que achava que era viver, mas não era. E quando enfim havia se tornado hora de acordar, abrir as janelas, sentir o calor do sol, respirar e ser corpo novamente, a única janela possível havia se feito concreto, e todas as manhãs eram enfim noites e, no ar puro, ela nunca deixaria de enxergar a sua sujeira.


domingo, 19 de junho de 2016

Mãe que cria



A mãe de Malu a pegou com drogas, veja só, maconha, meu Deus, onde é que esse mundo vai parar. Por sorte, a menina tinha apenas quatorze anos e ainda podia ser salva apesar de suas origens peculiares.

Malu havia sido fruto de um adultério, e sua mãe, porque mãe é aquela que cria, não aquela que abandona, a acolhera mesmo sabendo de sua raiz problemática. O casamento se manteve, o caso aparentemente terminou.

A mãe de Malu suspeitava que aquela que a abandonara era uma prostituta. Não agora, bem, talvez agora, mas na época principalmente. Com 15 anos já era prostituta, por isso a mãe de Malu se preocupava, porque a adolescente estava chegando na idade da perdição, e genética é uma coisa com a qual não se brinca. Era preciso fazer algo.

Foi internada em uma clínica de reabilitação em Piratininga, no interior de São Paulo. A família não a visitava porque a distância era um inconveniente, e as despesas da viagem somadas à mensalidade da clínica eram pesadas. Além disso, e, mais importante, a visita fazia mal à Malu, que chorava, ficava manhosa, não queria se levantar da cama e suplicava para voltar para casa. Dizia até que estava com saudades da escola, a malandrinha. A família, preocupada com a recuperação da menina, cuidava para não a atrapalhar.

O problema todo foi que um promotor desses de justiça se atentou para o fato de que Malu estava na clínica já há um ano e meio e isso constituía abandono de escola. Uma coisa que alguém inventou para que outra pessoa fosse responsável; pessoa a qual deixou a cargo de outrem, que passou a fiscalizar os responsáveis legais, no caso, os pais. Ou melhor dizendo, a mãe que criou, não que a abandonou. O pai não vai aparecer na história; muitos não aparecem.

O promotor de justiça era uma daquelas exceções que não acreditamos existir e que surpreendentemente fazem seu trabalho. Descobriu Malu na clínica de reabilitação em Piratininga. Descobriu que a menina estava lá há um ano e meio e que, devido a seus vários problemas de drogadição e de inserção social, era fortemente medicada, o que a deixava tranquila e menos combativa. Nem pela família, que não a visitava há seis meses, ela perguntava mais. O promotor também descobriu que Malu havia sido abusada por um dos funcionários da clínica de reabilitação. Para algumas pessoas, abusada seria um eufemismo de estuprada. Para outras, entre elas a mãe de Malu, a que criou, não a que abandonou, abusada era um exagero para relações sexuais.

Porque ela amava muito sua filha, Deus sabia. Amava-a muito e, como toda mãe, conhecia o que tinha em casa. Sabia, com todo o seu amor, que Malu não era boa coisa, tinha o mal na semente, e já vira como ela se comportava na frente dos homens. Vira com aqueles olhos perspicazes de mãe preocupada que faria tudo por amor, inclusive aceitar a verdade da natureza da filha.

Disse tudo isso quando foi questionada pelo promotor desses de justiça sobre por que havia deixado uma adolescente dopada por um ano e meio em uma clínica de reabilitação no interior de São Paulo, mesmo após o fato do abuso. O promotor disse ainda que Malu era menor de idade e que não tinha nenhuma culpa em relação ao ocorrido. O responsável era o funcionário da clínica que, além de maior de idade, estava em situação de poder, pois cuidava de uma criança em situação de vulnerabilidade ou qualquer coisa assim.

A mãe de Malu se explicou, disse que amava sim e muito a filha, mas que não podia negar o tratamento que a menina dava aos homens, disse que via, presenciava e que não havia possibilidade nenhuma de o funcionário ter tido qualquer culpa, porque homens são assim. Uma questão de natureza.

O promotor também disse que não era possível deixar uma adolescente sem estudar por um ano inteiro e meio, que aquilo a prejudicaria demasiado em toda a sua vida futura. Mas a mãe sempre diligente respondia que tudo o que havia feito era pelo bem da filha, por amor. Era na escola que estavam as drogas, as más companhias. A família até tentou mudar a adolescente de instituição, mas não adiantou. A menina juntou os desviados de uma com os desviados da outra. Foi assim que a mãe de Malu descobriu e, no caso, confirmou, que a origem da discórdia estava na própria filha. Era a semente. E, no interesse de salvar a família e a própria menina, mandou-a para longe, onde ocorreu toda a história. Nada mais justo. Era certo. Tinha fé de que tudo o que havia feito, havia feito no amor.

E, conhecendo todos esses fatos, o promotor desses de justiça que, surpreendentemente fazia seu trabalho, precisava convencer Malu e sua mãe de que elas se amavam e de que estariam melhores juntas, porque é assim que famílias devem ser.

O promotor de justiça conhecia muito bem os abrigos e as casas de acolhimento com todos os seus nomes de eufemismo. Por isso ele tentava convencê-las com as palavras que dizia e com os ouvidos que fingiam para si mesmo acreditar no que ouviam, porque só assim poderiam continuar. E ele continuava e convencia. Ele as convencia de que se amavam, de que estariam melhores juntas, de que famílias são boas e nos fazem bem. Ele talvez as convencesse e talvez convencesse a si mesmo, porque era muito bom, mas não tinha certeza.


 A gente nunca tem.

domingo, 12 de junho de 2016

Branco e vazio
espaços abertos à sua espera

Todo o amor que não senti e não pude dar
Todo o amor que ainda espero
A invasão que não ocorreu

Sei teu nome e teu rosto
Sei teu segredo
Não há nada ali

Um buraco,
foi só o que pode deixar

pai

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Tudo para mim, nada para os outros


Ontem assisti Requiem for the American Dream, que começa com as credenciais de Noam Chomsky - apenas um dos intelectuais mais influentes de nossa época. O documentário é baseado em uma série de entrevistas feitas durante quatro anos. Já vou dizer que achei a legendagem bem mais ou menos, podiam ter feito um trabalho muito melhor nessa parte. Já vou dizer em segundo lugar que esse post é basicamente um monte de citação que eu adorei. É o Noam Chomsky, mano, achei melhor deixar ele "falar". 


A primeira coisa que Chomsky diz é: "A desigualdade é realmente sem precedentes" ... "a desigualdade vem da riqueza extrema em uma pequena parcela da população, uma fração de um por cento." 


Sabe aquele maldito um por cento? Pois é, mas o que tem de errado com isso, fora a raiva incontrolável que dá?


"Não só é extremamente injusta por si própria, a desigualdade tem consequências muito negativas em toda a sociedade, pois a sua simples existência tem um efeito corrosivo e prejudicial à democracia."


"É importante entender que setores privilegiados e poderosos nunca gostaram da democracia por vários bons motivos. A democracia coloca o poder nas mãos do povo e tira deles."


O documentário é uma análise da sociedade americana, mas tem muita coisa que faz pensar. Há várias semelhanças com o Brasil. É tudo bem esquematizado e organizadinho. São apresentados OS 10 PRINCÍPIOS DA CONCENTRAÇÃO DE RIQUEZA E PODER.


"A concentração de riqueza gera a de poder, principalmente conforme o custo das eleições aumenta muito, o que força os partidos políticos a serem controlados por grandes corporações."


OU POR QUE NÃO PODEMOS TER FINANCIAMENTO PRIVADO DE CAMPANHA POLÍTICA.


"E esse poder político logo se estende à legislação, que aumenta a concentração de riqueza. Então a política fiscal, como a tributária... desregulamentação... regras de governança corporativa e toda uma série de medidas políticas são desenvolvidas para aumentar a concentração de riqueza e poder que, em troca, faz com que mais poder político faça a mesma coisa. E isso é o que temos visto."


Ou seja, acabamos tendo um governo dominado pelos interesses privados. Não parece bom.


"As pessoas que Adam Smith chamou de ‘mestres da humanidade’, e eles estão seguindo a máxima vil: ‘tudo para nós e nada para os outros’. Eles buscam políticas que os beneficiem e prejudiquem o restante. E na falta de uma reação popular geral, é isso mesmo o que acontece."


Os 10 malditos princípios são:


1 - Reduzir a democracia
2 - Moldar a ideologia
3 - Redesenhar a economia
4 - Deslocar o fardo
5 - Atacar a solidariedade
6 - Controlar os reguladores
7 - Controlar as eleições
8 - Manter a ralé na linha
9 - Consentimento na produção
10 - Marginalizar a população


Não é lindo? Só pela lista já dá pra imaginar quanta coisa boa vem por aí <3



Princípio 1 - Reduzir a democracia

Basicamente, há uma luta constante entre forças democratizantes, que costumam vir de baixo (ou seja, de nós, o povo) e esforços de controle, que costumam vir de cima (ou seja, de gente muita rica e das grandes corporações). Eu diria que, no momento, estamos no meio de uma gigantesca onda reacionária. Não tá fácil.


"O interessante é que esse debate tem uma tradição bem antiga. Remonta ao 1º grande livro de sistema político, Política de Aristóteles. Ele diz: ‘De todos eles, o melhor é a democracia’, mas aí ele aponta a mesma falha apontada por Madison (legislador da constituição americana). Se Atenas fosse uma democracia para homens livres, os pobres se uniriam e tomariam as propriedades dos ricos. (...) Aristóteles propôs o que atualmente chamamos de Estado de bem-estar. Ele disse: ‘Reduza a desigualdade.’ Então, mesmo problema, soluções contrárias. Uma é reduzir a desigualdade, assim acabará com o problema. A outra é reduzir a democracia."



Princípio 2 - Moldar a ideologia

Esse aqui é autoexplicativo, né? Taí o Deus Mercado, cheio de seguidores dispostos a morrer por ele, que não nos deixa mentir.


"Está havendo uma enorme, concentrada e coordenada ofensiva empresarial que se iniciou nos anos 70 para tentar reduzir os esforços de igualdade."



Princípio 3 - Redesenhar a economia

Sabe o Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street? Ele é um puta de um babaca, mas parece que isso é o bonito agora.


"Desde os anos 70, há um esforço concentrado por parte dos mestres da humanidade, os donos da sociedade para mudar a economia em dois aspectos cruciais. Primeiro, para aumentar o papel das instituições financeiras, bancos, firmas de investimento, seguradoras."


"Esse fenômeno é chamado de financeirização da economia."


"Junto, está a realocação da produção. O sistema de comércio foi reconstruído com um design bem explícito de colocar trabalhadores competindo entre si no mundo todo. E isso leva a uma redução na parcela de renda por parte dos trabalhadores."


"E, claro, o capital é de livre movimentação. Os trabalhadores e o trabalho não podem se mover, mas o capital pode. Voltando aos clássicos, como Adam Smith, como ele indicou, a livre circulação do trabalho é a fundação de qualquer sistema de livre comércio, mas os trabalhadores estão presos."


E, claro, não vamos nos esquecer de sempre alimentar o medo.


"Manter os trabalhadores inseguros os manterá sob controle. Eles não vão pedir salários decentes, boas condições de trabalho, ou a oportunidade de associação livre, de sindicalizar. Para os mestres da humanidade, tudo bem. Eles ganham seus lucros. Mas para a população é devastador."


"Esses dois processos, financeirização e realocação, são parte do que leva ao círculo vicioso de concentração de renda e de poder."



Princípio 4 - Deslocar o fardo

Coitadas das grandes corporações multibilionárias. Quem vai pagar os impostos? Acertou. Você.


"Durante o período de grande crescimento da economia, nos 50 e 60, mas, na verdade, antes disso, os impostos sobre os ricos eram bem maiores. Os impostos corporativos e sobre os dividendos eram bem mais altos, os impostos comuns sobre riqueza eram bem maiores. O sistema de impostos foi reprojetado para que os impostos pagos pelos muitos ricos sejam reduzidos e, em contrapartida, o fardo dos impostos aumente para o resto da população. Agora há uma mudança para tentar manter os impostos só sobre salários e consumo, o que todos têm que pagar, não algo como dividendos, que só cabe aos ricos."


"Se você quer aumentar os investimentos, dê dinheiro aos pobres e trabalhadores. Eles têm que sobreviver, então gastam suas rendas. Isso estimula a produção e o investimento, leva a aumento de empregos e assim por diante."


"As grandes corporações americanas deslocaram o fardo de sustentar a sociedade para o resto da população."



Princípio 5 - Atacar a solidariedade


Acho que essa é a mais cruel de todas. E como tem gente adotando esse tipo de pensamento. É comum dizerem que simplesmente não dá pra pagar a conta da previdência. O que faz então? Deixa o povo morrer de fome? 

"A solidariedade é muito perigosa. Do ponto de vista dos mestres, você só deve se preocupar consigo, não com os outros.


"A seguridade social é baseada em um princípio de solidariedade. Solidariedade, se importar com os outros. A seguridade social significa: ‘Eu pago impostos sobre salários para que a viúva do outro lado da cidade possa receber ajuda para viver’".


"Não há muita utilidade para os muito ricos, então há uma tentativa combinada de destruí-la. Uma das formas é retirando os fundos. Você quer distribuir um sistema? Tire os fundos dele. Então, ele não funcionará. Todos ficarão bravos. Vão querer outra coisa. É uma técnica padrão para privatizar um sistema."


Veja o que fazem com a USP, com o Sistema de Saúde, com as escolas públicas. É exatamente isso.




Princípio 6 - Controlar os reguladores

Sabe todas aquelas crises? Quem as causou é quem faz as leis.


"Toda vez, o contribuinte é chamado para socorrer aqueles que criaram a crise, de forma crescente, as instituições financeiras. Em uma economia capitalista, você não faria isso. Em um sistema capitalista, isso acabaria com os investidores que fizeram os investimentos de risco. Mas os ricos e poderosos não querem um sistema capitalista. Eles querem poder correr para o Estado paternalista ao terem problemas e serem socorridos pelos contribuintes. Chama "Grande Demais para Quebrar".


"Enquanto isso, para os pobres, deixem os princípios de mercado prevalecerem. Não espere ajuda do governo. O governo é o problema, não a solução. Isso é, essencialmente, neoliberalismo. Tem um caráter dualista que remonta à história econômica. Um conjunto de regras para os ricos. Regras contrárias para os pobres."




Princípio 7 - Controlar as eleições

Há inúmeras formas de se fazer isso, financiamento privado de campanhas é apenas uma delas.




Princípio 8 - Manter a ralé na linha

Sindicatos têm muitos problemas, mas eles desempenham um papel importantíssimo na democracia.


"Um dos motivos principais dos ataques concentrados, quase fanáticos a sindicatos e movimentos trabalhistas, é que eles são uma força democratizante. Eles fornecem uma barreira que defendem os direitos dos trabalhadores, mas também os direitos populares. Isso interfere na prerrogativa e poder daqueles que possuem e gerenciam a sociedade."

  


Princípio 9 - Consentimento na produção

Consumismo, motherfucker!


"Ficou claro, há um século, que não seria tão fácil controlar a população à força. (...) Então era preciso ter outras formas de controlar. E era de conhecimento e expresso que você tinha que domá-las controlando suas crenças e atitudes. Uma das melhores formas de se controlar pessoas em termos de atitudes é o que o grande economista político Thorstein Veblen chamou de fabricar consumidores."


"A ideia é tentar controlar todo mundo, transformar toda a sociedade no sistema perfeito. O sistema perfeito seria uma sociedade baseada em uma díade, um par. O par é você e seu aparelho de TV, ou, talvez agora, você e sua internet, que lhe apresenta o que deveria ser a vida apropriada, que tipos de engenhocas você deveria ter. E você passa seu tempo e esforço para obter essas coisas que não precisa, não quer e talvez jogue fora, mas essa é a medida de uma vida decente."




Princípio 10 - Marginalizar a população

Quando a gente descobre que não tem voz:


"Isso levou a uma população brava, frustrada, que odeia instituições, que não está agindo construtivamente para reagir a isso. Há mobilização popular e ativismo, mas em direções bem autodestrutivas. Está tomando a forma de raiva sem foco, ataques uns contras os outros e em alvos vulneráveis. É o que acontece em casos assim. Corrói as relações sociais, mas esse é o objetivo. O objetivo é fazer as pessoas odiarem e temerem umas às outras, e se preocuparem só consigo mesmas, não fazer nada para os outros.



Diante de tanta manipulação de primeira, o que podemos fazer? Chomsky termina citando Howard Zinn:


"O que importa são os incontáveis pequenos atos de pessoas desconhecidas, que fundam as bases para os eventos significativos que se tornam história."



O caminho é a microrresistência. Vamos à luta!

sábado, 14 de maio de 2016

Como conversar com um fascista (ou o poder do medo)

O outro, esse alguém que tratamos como se não fosse ninguém, é o desafio ético-político em uma sociedade que trabalha pela garantia de direitos fundamentais e pelo respeito à singularidade.


Então, ? O mundo é esse agora. Gente falando em cristofobia, com orgulho de dizer que há racismo contra brancos e que páginas no facebook que tratam a heteronormatividade com ironia são heterofóbicas. Hoje em dia, muitas pessoas deixam de conseguir empregos, são expulsas de shoppings e bares e até chegam a ser assassinadas porque são héteros, não é mesmo? Bitch, please.

Não tá fácil ler o que andam escrevendo pelo facebook da vida, não tá fácil conviver em sociedade e definitivamente não tá fácil ser uma militante da ditadura gayzista-feminazi-contra a família e o capetalismo-com o capiroto-pela banalização do brigadeiro de pistache, viu?

Por isso eu fui ler Como conversar com um fascista - reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro, da Marcia Tiburi. Porque é isso o que eu faço quando ando meio perdida (ou em qualquer ocasião), eu leio. Mas o que seria um fascista mesmo?

O diálogo se torna impossível quando se perde a dimensão do outro. O fascista não consegue relacionar-se com outras dimensões que ultrapassem as verdades absolutas nas quais ele firmou seu modo de ser.

Não é exatamente uma definição, mas explica bem qual é a ideia e o problema todo da coisa. Não enxergar e não conseguir se relacionar com o outro a ponto de querer aniquilá-lo. Infelizmente isso anda muito comum.

Ler o livro foi uma coisa meio estranha, eu ficava pensando que aquilo tudo era um exagero, mas, ao mesmo tempo, sabia que ela estava descrevendo com perfeição algumas pessoas que eu conheço. Talvez seja meu medo de enfrentar essa coisa horrível que o mundo está se mostrando ser.

Como conversar com um fascista já está na 5ª edição, não sei quais foram as tiragens, mas é a 5ª edição, pô. Será que dá pra ter alguma esperança na humanidade? O prefácio do livro foi escrito pelo Jean Wyllys, que fala:

A maioria da população brasileira está há décadas alijada do direito a uma educação de qualidade que lhe faça cidadã com capacidade de pensamento crítico e de reconhecimento da diversidade cultural e humana. A ampliação do acesso ao sistema formal de educação - incluindo aí o ensino superior -, sobretudo na era Lula, não significou acesso a uma educação de qualidade. 

A questão que ele levanta é importante. Mais pessoas tiveram acesso à educação, mas que educação foi essa? Só que é muito mais do que isso, os ditos estudados, os que frequentaram os melhores colégios e faculdades, também faltaram na aula de empatia. Todo mundo esqueceu da tia falando que não podia bater no coleguinha e nem rir dele. Falta acesso de modo geral, mas também falta uma educação mais humanizadora.

Como conversar com um fascista é composto por vários ensaios que tratam de diversos temas: afeto, ódio, genocídio indígena, analfabetismo político, indústria cultural, democracia, cultura de estupro, questões da intelectualidade e da linguagem e aborto.

Como disse, em alguns momentos me pareceu que a autora estava exagerando, mas o mundo anda tão maluco que eu me pergunto se não tive essa impressão porque vivo protegida dentro da minha bolha. Não consegui decidir. Mesmo assim, continuo achando o livro fantástico e o recomendo.

De tudo o que Marcia Tiburi diz, o que mais me chamou atenção foi a evidência do papel do medo em todo esse ódio e violência que se espalham por aí.

O mito da segurança tornou-se incontestável em uma sociedade movida pelo medo. O medo é o cerne profundo da conservação e, no extremo, do conservadorismo. Ouvir, que é, em muitos momentos, uma atitude muito mais importante do que falar, está fora de cogitação quando se tem medo.

Olha só essa frase! (Nada de ficar achando que o Brasil é um país cordial. Só o número de assassinatos de gays, lésbicas e pessoas trans, além dos casos de feminicídio já desconstroem o paranauê. Se colocar na conta o assassinato da população preta e pobre, dos indígenas, dos que lutam pela reforma agrária... gente, o horror.)

O Brasil nada carnavalesco e muito violento é ocultado, mas vem à tona quando se trata de usar o medo como fomento da segurança a ser vendida.

Não lembra as loucas falando que querem ‘oh-meu-deus-transformar-nossas-crianças-em-viados’? Peloamor.

Tem uma coisa importante. Todo mundo tem medo. Só que nem todo mundo saí por aí espalhando o ódio e querendo acabar com o que é diferente. Não dá pra tirar a responsabilidade de quem faz isso. É importante entender, porque entender facilita a busca por uma solução. Mas não vamos confundir as bolas porque:

O fascismo cancela, em nível do discurso exposto nas mídias, nos púlpitos e palanques que constroem opiniões públicas e mentalidades coletivas, a chance de pensar no que estamos fazendo uns com os outros, reflexão que poderia nos levar a uma vida mais digna e prazerosa.

Precisamos nos perguntar por que algumas pessoas entram nessa e outras não.

Alguém que tente dialogar de verdade com uma pessoa que vive para disseminar o ódio e a violência (seja por medo ou por qualquer outro motivo) tem a minha admiração. Eu ainda não consigo.

Para quem quiser saber mais sobre o livro e sobre a Marcia Tiburi, tem uma entrevista dela no blog da editora Record, que publicou o livro, você pode acessá-la clicando aqui:


terça-feira, 22 de março de 2016

Queijos



É muito fácil deixar uma coisa pretenciosa. Às vezes, é só acrescentar um “s”. Quer ver? Queijos. 


Comer queijos parece uma coisa muito chique. Queijos têm tipos, queijos têm especialidades, queijos têm até famílias e você aí não querendo falar com o seu pai. Queijos têm nomes impronunciáveis, como Gruyère e Tête-de-Moine (qual é a do acento pro lado errado? E de quem será esse tetê?). Queijos são tão finos que até dinheiro têm no nome, como o grana padano. Pff... Se você acha pouco, saiba que fica pior. Também tem as queijarias. Queijaria é uma coisa mais fina ainda. Quer mais? Queijaria artesanal. Mais um pouco? Queijaria artesanal na Vila Madalena. E é melhor nem falar dos vinhos, que dizem que casam bem. Que bom que alguém ainda casa bem esses dias. Eu só comi queijos uma vez na vida e fiquei cheia de perebas na barriga e na... na... né?

Em casa tem mais é queijo mesmo. Muçarela que assim também tá certo. Tá lá no VOLP, pode ver. Antigamente, queijo sem “s” era também uma coisa fina, mas agora caiu na boca do povo. E na barriga, olha só. Eu mesma prefiro que cada vez menos coisas sejam finas, chiques e conversadas por gente que diz: “Maria Eduarda trouxe um vinho divino de Paris.”

Então fico feliz que tenha queijo no rissole da festa de aniversário, que derrete no pratinho de plástico e depois endurece e a gente nunca mais consegue tirar. Mas, se eu tivesse que dizer só uma coisa sobre o queijo, escolheria dizer que ele é pior do que espaguete. Porque espaguete não tem fim, aquele fio parece que dura pra sempre, como o queijo que comi no aniversário da minha tia, no derretido do pratinho de plástico. Peguei tudo e enfiei na boca antes que ele pudesse endurecer. Um queijo derretido é todo um só, não importa o quão grande ele seja.

Sabe aquela coisa enorme que desce pela sua garganta? Estava eu sentindo aquela coisa gosmenta e gordurosa descendo devagar quando um algo fininho e áspero me incomodou. Mexi com a língua pra cá, pra lá sem saber bem o que estava acontecendo e sentindo só o queijo lá no fundo, subindo e descendo um pouquinho, fazendo uma coceirinha lá atrás, muito embaixo da campainha. Foi então que percebi uma coisa grudada no meu queixo. Foi difícil puxar com a mão toda engordurada, mas, depois de tentar muito, peguei o danadinho. 

Era um fio de cabelo. Meu cabelo sempre foi fino, por isso fiquei surpresa de ele ser tão forte. Eu puxava, e o queijo vinha. Minha mão escorregava, e o queijo ia. Sabe que até gostei da sensação? Eram umas cócegas gostosas, como quando você tá resfriado e fica tentando enfiar a mão dentro da cabeça pra parar com aquilo tudo – só que bom. O vai e volta durou um bom tempo. Quando o queijo passou bem na curva da garganta, eu quase não consegui respirar, mas também foi a hora com a sensação mais diferente. Quando ele passou bem no sininho, senti o gorfo querendo chegar no queijo, mas ele não alcançou. Puxei tudo só pelo cabelo e fiquei olhando aquele amarelo enorme e ainda derretido pendurado por um fiozinho quase invisível. 

Olhei, olhei e não tive dúvidas. Tirei o cabelo e enfiei o resto na boca. Ah... queijo sem “s”. Delícia.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Os porcos somos nós – Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos de Ana Paula Maia



Gosto muito de bichos. Sou dessas que, nos filmes, chora mais quando o cachorro morre. É uma coisa comum até. Algo que eu fico tentando entender... por que tanta gente se sensibiliza com o sofrimento dos bichinhos, mas fica alheia ao sofrimento dos seres humanos? Não é todo mundo, claro. Também tem muita gente que não está nem aí para os animais... Tem gente que não liga pra ninguém (será?)... Enfim, tem todo o tipo de gente.

A compaixão em relação aos animais e não em relação às pessoas me inquieta mais. Falta de compaixão generalizada é horrível, mas coerente. Falta de compaixão para com animais tem uma explicação (muito da ruim, mas que muita gente compra): não são gente – é como se fossem coisa. Entendo as pessoas que se desiludiram com a humanidade e “preferem bichos”, mas ter compaixão seletiva me confunde. Não tenho resposta pra isso, ainda não consegui entender.

Só que quando comecei a ler Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, da Ana Paula Maia, publicado pela editora Record, foi isso o que aconteceu. Fiquei com dó dos bichos. Fiquei com dó dos bichos-porcos e dos bichos-cachorros e não fiquei com dó dos bichos-homens.

A narrativa começa com um porco sendo abatido. O protagonista, Edgar Wilson, quer sair logo do abatedouro em que trabalha porque é dia de rinha de cachorros e ele quer fazer sua aposta em Chacal, um cão enjeitado pelo demo. O porco tenta fugir, esperneia e urra enquanto Edgar Wilson e Pedro conversam, fumam e abatem o bicho. É tudo muito cotidiano, o que torna a cena ainda mais pavorosa. Ela lembra um pouco suspenses com serial killers: há uma vítima aterrorizada implorando pela vida enquanto o assassino ouve música ou realiza qualquer tarefa de forma serena e sem preocupações. A morte é apenas mais uma das tarefas do dia.

Fiquei tão concentrada na ênfase dada à dor e à miséria dos animais (será que é isso mesmo ou foi meu preconceito que leu assim?) que me esqueci da miséria banalizada da vida dos homens. O horror está por todos os lados, e não há como fugir:

“Cão de rinha é um cão que não teve escolha. Ele aprendeu desde pequeno o que o seu dono ensinou. Podem ser reconhecidos pelas orelhas curtas ou amputadas e pelas cicatrizes, pontos e lacerações. Não tiveram escolhas. Exatamente como Edgar Wilson, que foi adestrado desde muito pequeno, matando coelhos e rãs. Que carrega algumas cicatrizes pelos braços, pescoço e peito. São tantos riscos e suturas na pele que não se lembra onde conseguiu a metade. Porém a marca da violência e resistência à morte de outros animais nunca tiraram o brilho de seus olhos quando contempla um céu amplo. Dia ou noite, ele passa boa parte do seu tempo olhando para cima. Quem sabe espera que alguma coisa aconteça no céu ou com o céu... talvez queira retalhar algumas nuvens com seu facão.”

Esse parágrafo me marcou bastante. Quando comecei a lê-lo imaginei que a analogia entre cão e homem, muito óbvia nesse ponto da narrativa, ficaria a cargo do leitor, mas a narração continua, seguindo o estilo de escrita que segue as personagens na falta de construção de significado (muitas aspas aqui). O fim do parágrafo mata a possibilidade de qualquer poética, indicada pelo imaginário literário de “olhar para o céu”, com a frase terrivelmente maravilhosa “talvez queira retalhar algumas nuvens com seu facão” – nos lembrando que violência e morte é só o que existe no mundo desses seres.

Demorou pra cair a ficha. Fiquei boa parte do livro horrorizada pelo tratamento terrível conferido aos animais e completamente alheia ao tratamento terrível conferido aos homens.

Não quero dar spoilers. No fundo, quero muito dar spoilers e contar várias cenas absurdas e algumas muitíssimo engraçadas da história, mas não vou. Seria sacanagem.

No site da Ana Paula Maia tem o início do livro. Vou colocar um trecho aqui:

"E o teu rim? Eu tô falando do bom, daquele que tá lá com a tua irmã."
"Acho que vai bem."
"Você não pensa em pegar de volta. Quer dizer, quando você deu pra ela, não estava precisando, ele não te fazia falta, mas agora é diferente."
"É, eu sei. Parece que ela tá com câncer."
"Então, ela não vai precisar dele por muito tempo."
"Acho que não. Escuta, eu deixei aquele vídeo do Chuck Norris na sua casa?"
"Braddock?"
"O resgate."
"Só estou com o Braddock II. O resgate, esse não tá não."
"Acho que perdi meu vídeo. É um desfalque e tanto na minha coleção."
Silêncio.
"Você vai deixar seu rim jovem e saudável ser comido pelo câncer da tua irmã?"
"Parece que ela vai começar a fazer aquele troço que deixa careca."
"Sei... então a radiação vai matar o teu rim."
"Você acha mesmo?"
"Acho que o teu rim já era."

Essa história do rim se desenrola, vou logo avisando. O livro me lembrou um pouco de Vidas Secas. É uma mistura de Graciliano Ramos com Tarantino. Há características comuns da contemporaneidade na obra – violência é figurinha carimbada. Mais que violência, violência banalizada, violência do dia a dia, violência estrutural. “Violência absurda ali do lado e tudo bem”. Isso tem de sobra no livro de Ana Paula Maia.

A questão da crueldade contra os animais e do paralelo com a crueldade contra os seres humanos pode levar à reflexão das pessoas, das que só se importam com uns, das que só se importam com outros e, quem sabe, das que não se importam com nenhum, se é que elas existem mesmo. Quanto a isso, vou deixar uma frase e o link de um texto da Marcia Tuburi sobre “De Gados e Homens”, também de Ana Paula Maia, para a revista Cult, já que ela falou muito melhor do que eu poderia.

“Sabemos pouco sobre frigoríficos. Quem vê a mera carne em seu prato não pensa no sofrimento dos animais. Quem pensa no sofrimento dos animais nem sempre lembra da miséria dos homens.”

Elas não disseram tudo? (Tanto?) O que falta pra gente entender?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Política Sexual - Kate Millett



Política Sexual, escrito por Kate Millett, foi publicado em 1970 e é considerado o primeiro livro de crítica literária feminista. A obra foi o resultado da tese de doutorado da autora e causou bastante polêmica, tanto no mundo literário quanto no feminista. 

O livro fala sobre alguns clássicos da literatura e sobre obras filosóficas e da psicologia, analisadas sob a perspectiva das relações de gênero e da representação da mulher. 

É um livro bastante denso, afinal, é uma tese de doutorado. Kate Millett encheu 361 páginas de informação condensada, cada parágrafo oferece algo novo sobre o tema discutido. Demorei um pouco para terminar de lê-lo, pois Política Sexual exige bastante concentração, tanto pela avalanche de conteúdo quanto pelo modo como o conteúdo é apresentado. 

Basicamente, o livro fala da defesa do patriarcalismo e da opressão da mulher presentes nas obras analisadas pela autora. O escopo de Kate Millett é bastante amplo, ela fala desde a primeira revolução sexual no período vitoriano até a obra de Jean Genet (1910 – 1986), seu contemporâneo. Com muitos dados históricos, o livro não pretende analisar o valor literário das obras abordadas e sim como se dá a relação de poder entre os sexos e a mistificação (ou não) do feminino e do masculino em cada uma delas. 

Uma das partes mais interessantes, em minha opinião, foi a análise da obra de Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, cuja influência perdura até hoje. Freud é como Shakespeare, povoa o imaginário coletivo e é conhecido “por tabela”. De acordo com Kate Millett, a visão de Freud com relação à mulher é, além de contraditória, cheia de misticismo. Sua crença na inferioridade intelectual do sexo feminino devido à sua natureza mais primitiva é especialmente desconcertante. 

Infelizmente, ele não é o único a propagandear dados científicos mais do que duvidosos. Particularmente interessante é perceber como o discurso da supremacia masculina tenta se adaptar a cada época. No período vitoriano, há a ideia de cavalheirismo, na qual mulheres tinham vidas extremamente limitadas “para sua própria proteção” e as que ousassem qualquer outra coisa, as “fallen women” eram aquelas que haviam perdido o contato com sua verdadeira natureza e tentavam ocupar o lugar dos homens na sociedade. Com o passar do tempo, aparecem as ideias da submissão feminina através do ato sexual, juntamente ao desprezo pela mulher com qualquer tipo de ambição intelectual. Posteriormente, o desprezo ao sexo feminino de modo geral, ante a inevitabilidade da emancipação feminina, aparece na forma da redução de todas as mulheres apenas ao sexo. 

É bastante interessante a análise de cenas e de escolhas narrativas pela perspectiva de relações de poder e é isso que Kate Millett faz em grande parte do seu livro. Suas considerações são bem embasadas e, por isso mesmo, bastante assustadoras. 

O que mais me surpreendeu foi a persistência de um tema que se pode encontrar facilmente na atualidade - a ideia das esferas diferentes. De modo sutil ou escancarado essa ideia percorre toda a história da relação entre os gêneros, frases como: 

“Mulheres são mais emotivas.” 

“Homens são melhores em matemática.” 

“Homens são mais visuais.” 

“Mulheres são naturalmente mais intuitivas, e homens mais racionais.” 

partem do princípio das esferas diferentes explicadas no livro. É frustrante ver algo assim ainda presente na sociedade. Também é um pouco decepcionante ver como um livro escrito há mais de 40 anos possa ser tão relevante e não só como documento histórico, mas como uma análise de problemas que ainda não foram resolvidos. 

Política Sexual é uma obra ousada e muito esclarecedora e, como tal, deve estar presente em qualquer biblioteca feminista que se preze.

Nota: Eu sei que há um versão em português publicada pela Dom Quixote, que é uma editora de Portugal. Não conheço nenhuma versão brasileira.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O que faz um farol



Saindo com o carro, já penso no farol. Estou sozinha, espero que não esteja fechado. O cruzamento ao lado do mercado é desconfortável. Um bom ponto para reforçar a culpa. Logo após as compras, nem 50 centavos para o velho de muletas? Como não recompensar os malabarismos mal-feitos da criança? E quanto ao jovem esforçado que todos os dias chega cedo para vender doces?

Sinal vermelho. É claro. Fecho os vidros. Não sou um monstro, quando passam por mim, ensaio um não com expressão sentida. Ao esverdear da luz, abro os vidros e aumento o volume da música que fala de amor.

O mundo é mesmo um lugar sem graça.

Chegando à garagem, desligo o rádio, se não me concentrar, o carro vai ficar ainda mais ralado. Fecho os vidros caso algum vizinho esteja por perto. No subsolo, tudo é escuro e as luzes nunca se acendem. Pelo menos não para mim.

Subir as escadas é trabalhoso, devido à falta de espaço, os degraus são altos demais.

Entro na casa abafada apesar das janelas abertas. Quero conversar, mas não há o que dizer. Não consigo ler, olho o celular insistentemente à procura de mensagens. Nada.

A citação postada no facebook é um pedido de atenção, o próximo passo são pequenas confissões. Melhor comer alguma coisa.

Depois do jantar, jornal. Sangue, corrupção, classe média, impostos, animais fofinhos e brincalhões.Sangue. A sensação de desamparo se perde ante as fortes emoções dos últimos capítulos da novela.

Não. Prefiro me apegar ao vazio que não vem de fora.

O teto do quarto é sujo e cheio de pernilongos. O chão está quente, a cabeça e as costas doem. Ao lado, um tufo de poeira sendo perseguido pelos olhos do gato esparramado pelo corredor. Até ele prefere não se mexer.

Tento pensar, mas só consigo sentir. Não, não chega a isso. Nem a isso. Um nó no peito, costumam dizer. Já ouvi falar em obsessão, inveja, trabalho. Até de cachorro preto já chamaram. Coitado do cachorro. Depressão, bile negra, melancolia. Frescura, de acordo com meu querido pai.

Minha irmã só se preocupa se for de longe. Minha mãe pede ajuda sobre como ajudar. Eu não entendo. Talvez não deva ser entendido. 


Ninguém ve, mas todos sabem qual é a causa. Eu estou apaixonada. Sou egocêntrica. Não me amo o suficiente. Me amo demais. Sou tímida. Não, não sou tímida. Ponho muito peso nas coisas. Penso demais. Não penso direito. Talvez. 

Fica tarde, vou para a cama. Os pensamentos são os mesmos. Minto. Não são pensamentos. Não sei o que são. Não durmo, engulo o comprimido, ganho duas horas de olhos fechados e uma dor de cabeça.

É assim.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Isto é água



David Foster Wallace fez filosofia e era escritor. Fiquei sabendo da existência dele por causa de um discurso maravilhoso que ele fez chamado This is water (Isto é água). O discurso é bem despretensioso, não tem muito o que dizer, além de ficar repetindo que é maravilhoso apenas. Tem vídeo e tradução.

Vou colocar alguns trechos dele:


“...como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão – a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.”


“Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como "não venerar". Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado ... Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante."


"O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos." 


"Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.”


Tanto pelo discurso quanto pelos títulos dos livros dele (Breves entrevistas com homens hediondos e Graça Infinita, por exemplo) imaginei que ele devia ser um escritor crítico, pessimista e irônico. Fiquei interessada.

Além de tudo isso, ele se matou aos 46 anos, criando toda aquela aura de artista que não consegue se adaptar ao mundo.

Como uma pessoa depressiva, crítica, pessimista e descontente com o mundo, logo me identifiquei. Aí descobri que ele escreveu um conto chamado A pessoa deprimida, que está no livro Breves entrevistas com homens hediondos, que virou filme e tem participação do John Krasinski (o Jim, do The Office) e tive que ler.

Que coisa. QUE COISA. Quando a gente conhece mais sobre um assunto – não digo conhecer de forma técnica, mas por experiência – a gente fica mais chata, principalmente quando são coisas que causaram muito sofrimento. Então fui lá ler.

A pessoa deprimida é bastante odiosa. Me identifiquei e me irritei com ela logo no primeiro parágrafo. E em muitos outros. E isso me incomodou. Bastante.

A pessoa deprimida estava com uma dor terrível e incessante e a impossibilidade de repartir ou articular essa dor era em si um componente da dor e fato de contribuição para o seu horror essencial.

Não é terrível e meio engraçado ao mesmo tempo?

Muitos dos dramas emocionais e dos processos de pensamento pelos quais a personagem passa no conto eu passei durante fases ruins da depressão. Acho que o retrato do menosprezo e do ódio por si mesmo, da infinita sensação de ser um peso e da inabilidade de sair do ciclo auto-destrutivo é muito preciso A leitura foi péssima, deu um certo aperto no peito reviver algumas coisas.

Além do tema super pesado que aborda, o conto tem um agravante. A personagem (a pessoa deprimida, no caso) é muito desagradável. Depressivos realmente tendem ao egocentrismo – é um looping infinito de sentimentos ruins dentro da própria cabeça e é difícil pensar no outro quando você usa todas as suas forças pra tentar sair da cama. Mas essa personagem capricha, ela é pior do que o normal. Eu não era assim (eu acho :P), outros deprimidos que conheço não são assim.

É esquisito porque ela sofre muito e o sofrimento fica claro. Eu, como leitora, queria ter alguma empatia por ela, mas, ao mesmo tempo, ficava tão irritada que só pensava: deixa de ser chata. O escritor não fez isso à toa, ele colocou uma personagem assim (meio cuzona) de propósito. Acho que a intenção era fazer as coisas ficarem nebulosas para que o leitor não soubesse exatamente o que veio de onde ou então sentisse “culpa” das conclusões... algo assim. Genial.

Muitas coisas se misturam, pena, raiva, incômodo (reconhecimento, no meu caso) e, no meio de tudo, vontade de rir. Me tirou da zona de conforto. Achei ótimo.