domingo, 10 de maio de 2015

O bastão de mercúrio




Dr. Paulo era médico e às sextas-feiras fazia plantão de madrugada no pronto-socorro de um convênio cuja qualidade era mais ou menos razoável. Costumava ser tranquilo e ele passava boa parte das doze horas comendo, dormindo e tentando seduzir a enfermeira. A auxiliar, a recepcionista, a faxineira. Às vezes aparecia uma paciente da qual ele poderia se gabar. Às vezes aparecia uma paciente que ele gostaria de possuir, mas nunca admitiria. De modo geral, só via velhas cheias de varizes, grávidas neuróticas, homens com gases e bêbados. Praticar a medicina não era tão glamouroso quanto parecia à primeira vista, pensou coçando a grande barriga. O título sim, esse era motivo de orgulho, usava-o sempre que podia, dentro e fora do hospital. A não ser quando havia alguém por perto precisando de atendimento, nessas ocasiões mantinha-se em silêncio, porque precisava proteger sua vida pessoal ou não sobreviveria. 

O pior de fazer esse turno era atender os jovens com toda a sua juventude. Chegavam bêbados, arrogantes, com seus abdomens definidos e sua falta de tato, falando alto, fazendo barulho, constrangendo as mocinhas, as bonitas e empinadas pelo menos. Todos virgens, Dr. Paulo tinha certeza. Sabia das coisas.