domingo, 3 de maio de 2015

#maispuraverdade


Amanda tinha facebook. Amanda gostava do facebook. Curtia páginas cool e estalkeava tranquilamente as pessoas. Um dia viu no feed de notícias que uma das páginas cool havia postado um vídeo mega interessante. O título era: vídeo mostra reação das pessoas ao presenciar um morador de rua sendo roubado.

Amanda não era uma pessoa má. Não era violenta. Não tinha nada contra gays, apesar de achar dois homens se beijando meio nojento. Não tinha nada contra negros, apesar de fechar os vidros do carro quando algum se aproximava. Tinha dó das crianças carentes, apesar de ignorá-las nos faróis e em todo o resto. Acreditava que os velhinhos mereciam respeito, apesar de nunca visitar a avó viúva e solitária. Não entendia porque gente gorda simplesmente não fechava a boca e emagrecia. Todos nós somos feitos de pequenas incoerências e hipocrisias. Amanda sabia. Tinha visto no facebook.


Amanda compartilhava coisas engajadas e politizadas, como aquela campanha da empresa de cosméticos, sobre a beleza de dentro. A garota ganhou 119 curtidas só por isso e o mais legal era que o post dava 15% de desconto em cremes para quem divulgasse a ideia. O título do vídeo postado pela página cool chamou sua atenção e a fez refletir. Refletir dói, porque a palavra tem a ver com reflexo e ninguém quer se enxergar, ela achava.

Amanda gostava de se olhar no espelho. Às vezes não gostava do que via, nessas ocasiões tirava da bolsa o creme anti-frizz comprado com os 15% e massageava os cabelos longos (sua melhor qualidade) até ficar satisfeita. Preferia manter-se clássica, homens preferem longas madeixas, muito mais femininas. Não era especialmente bonita, mas tinha seu poder de sedução. Fingia-se ingênua e alheia. Mantinha uma aura adolescente e alguns seguidores cativados pelos inúmeros selfies e fotos de perfil que mantinha impecáveis em seus álbuns.

Amanda não era má, chegava sempre no horário, a não ser em encontros, porque, né? E curtia páginas cool no facebook. O título do vídeo da página cool chamou sua atenção e ela gostava de pensar que pensava sobre as coisas.

Amanda sabia que moradores de rua eram invisíveis, imaginou que ninguém se importaria se eles fossem roubados. Apesar do título, o vídeo seria mais do mesmo. Não, algo estava errado, o vídeo tinha sido postado por uma página cool. Tinha que ter um algo a mais.

Amanda imaginou então que as pessoas deviam ter reagido ao roubo dos pertences dos moradores de rua e, ao imaginar isso, imaginou outra coisa que a fez se sentir muito sábia. Pensou que pessoas curtem seus pertences e, por isso, pertences são muito importantes para as pessoas. Teve empatia por todos os assaltados ao lembrar daquele mês que passou sem celular, é verdade que tinha sido sua culpa, estava distraída e esquecera-se de tirar o aparelho do bolso traseiro da calça quando fora ao banheiro. A culpa era sua, mas totalmente justificável, ela estava muito preocupada naquele dia. Notara seu peguete olhando para Carol e analisava todos os detalhes do dia tentando descobrir se ele achava que Carol era mais bonita. 

Ficar sem celular era uma tragédia, por isso Amanda tinha compaixão pelos moradores de rua. E imaginou tudo isso e se sentiu esperta, clarividente e superior. Amanda discorreu sobre o assunto com seus amigos enquanto passeava pelo shopping. Eles ficaram impressionados e concordaram com a visão esclarecida da garota. E ela se sentiu bem e, mais importante, melhor. Mas Amanda não tinha assistido ao vídeo e não sabia qual era seu conteúdo. Nunca soube.

Um comentário:

  1. Hahahaha todos mundo é um pouco a Amanda...que medo, porque a pessoa não percebe...

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