quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Isto é água



David Foster Wallace fez filosofia e era escritor. Fiquei sabendo da existência dele por causa de um discurso maravilhoso que ele fez chamado This is water (Isto é água). O discurso é bem despretensioso, não tem muito o que dizer, além de ficar repetindo que é maravilhoso apenas. Tem vídeo e tradução.

Vou colocar alguns trechos dele:


“...como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão – a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.”


“Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como "não venerar". Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado ... Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante."


"O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos." 


"Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.”


Tanto pelo discurso quanto pelos títulos dos livros dele (Breves entrevistas com homens hediondos e Graça Infinita, por exemplo) imaginei que ele devia ser um escritor crítico, pessimista e irônico. Fiquei interessada.

Além de tudo isso, ele se matou aos 46 anos, criando toda aquela aura de artista que não consegue se adaptar ao mundo.

Como uma pessoa depressiva, crítica, pessimista e descontente com o mundo, logo me identifiquei. Aí descobri que ele escreveu um conto chamado A pessoa deprimida, que está no livro Breves entrevistas com homens hediondos, que virou filme e tem participação do John Krasinski (o Jim, do The Office) e tive que ler.

Que coisa. QUE COISA. Quando a gente conhece mais sobre um assunto – não digo conhecer de forma técnica, mas por experiência – a gente fica mais chata, principalmente quando são coisas que causaram muito sofrimento. Então fui lá ler.

A pessoa deprimida é bastante odiosa. Me identifiquei e me irritei com ela logo no primeiro parágrafo. E em muitos outros. E isso me incomodou. Bastante.

A pessoa deprimida estava com uma dor terrível e incessante e a impossibilidade de repartir ou articular essa dor era em si um componente da dor e fato de contribuição para o seu horror essencial.

Não é terrível e meio engraçado ao mesmo tempo?

Muitos dos dramas emocionais e dos processos de pensamento pelos quais a personagem passa no conto eu passei durante fases ruins da depressão. Acho que o retrato do menosprezo e do ódio por si mesmo, da infinita sensação de ser um peso e da inabilidade de sair do ciclo auto-destrutivo é muito preciso A leitura foi péssima, deu um certo aperto no peito reviver algumas coisas.

Além do tema super pesado que aborda, o conto tem um agravante. A personagem (a pessoa deprimida, no caso) é muito desagradável. Depressivos realmente tendem ao egocentrismo – é um looping infinito de sentimentos ruins dentro da própria cabeça e é difícil pensar no outro quando você usa todas as suas forças pra tentar sair da cama. Mas essa personagem capricha, ela é pior do que o normal. Eu não era assim (eu acho :P), outros deprimidos que conheço não são assim.

É esquisito porque ela sofre muito e o sofrimento fica claro. Eu, como leitora, queria ter alguma empatia por ela, mas, ao mesmo tempo, ficava tão irritada que só pensava: deixa de ser chata. O escritor não fez isso à toa, ele colocou uma personagem assim (meio cuzona) de propósito. Acho que a intenção era fazer as coisas ficarem nebulosas para que o leitor não soubesse exatamente o que veio de onde ou então sentisse “culpa” das conclusões... algo assim. Genial.

Muitas coisas se misturam, pena, raiva, incômodo (reconhecimento, no meu caso) e, no meio de tudo, vontade de rir. Me tirou da zona de conforto. Achei ótimo.

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