domingo, 26 de julho de 2015

Pés




Quando eles estão cansados e doem é porque o resto já não se contrai tanto. Quanto maior o cansaço dos pés, menor o pulsar. Como se vê, é uma disputa, quanto mais um dói, mais o outro descansa. Os pés vencem quando deveriam perder, quanto mais descansados estão, mais o coração, tão usado do lado de fora, se encolhe do lado de dentro.

As câmaras estão cheias de músculos. Recebem e espalham sangue que chega até os pés, mas os pés estão tranquilos, o sangue chega fraco, manchado. Não é mais aquele que sai do coração e chega quase igual ao cérebro e ainda tremendo às mãos. Nos pés o sangue chega manchado de nada, como se fosse apenas um tecido líquido ali, transportando alguma coisa por algum motivo. 

Uma lista de reinvindicações? Mais dor, mais contração, mais força, mais medo, paralisia. O que é que os pés têm para pedir? Estão felizes lá longe sem ver o sangue, sem senti-lo. Apreendem apenas a sua sombra. Reivindicar... já têm tudo, o melhor, o sangue perdido de si. Enquanto isso, o coração chega ao cérebro, pelo sangue. Mais dor, mais força, mais medo, paralisia. Depois as mãos, tremendo sangue, pensando veias, inexistindo para os pés. 

É por isso que tanto se fala dele, é por isso que ele está em todo lugar, sem graça, ninguém mais querendo saber de tanto ver, tanto ter, tanto sentir. É um músculo, pedindo sempre mais, espalhando sua gosma em quem não a quer. E depois ninguém mais sabe qual a origem, coração, sangue, cérebro, mãos. De quem é a culpa? Acaso importa quando tudo é sujeira?

Como posso fazer parte de pés que me carregam sem perceber? Que me levam aonde não quero ir? Eles não me sabem, por isso não os sei, mesmo os enxergando lá longe, lá embaixo, tão leves, mesmo cansados, mesmo sem dor. 

As questões andam mais ao norte, no ar, sem se preocupar com pés que não se preocupam com elas. As questões estão no sangue? Foram elas que o sujaram ou são apenas mais um de seus componentes? É o sangue que causa o terremoto? Ou é o coração? E os pés nunca sentem nada, distantes, alheios, tão ignorantes quanto ignorados. 

O sangue continua. Vai tremendo, pulsando e fazendo pulsar. Volta cheio de angústias, com toda a sujeira misturando cérebro, mãos, pés e coração numa história que só se pode repetir porque não tem enredo e nunca vai terminar.

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