quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Terra



Olhava a terra se movendo sob seus pés. O chão parecia seco, mas no movimento surgia a umidade. Folhas, sujeira, pedras, pedaços de pão. Não gostava de pureza, terra presa em vaso. 

Seu entre-dedos sorria de cócegas e mexia cada vez mais, as unhas ficando pretas, os pés ganhando cor. A sensação era de muitas coisas em uma só. Uma vida secreta escondida debaixo de uma toalha. Sobre a mesa, um piquenique. Ao redor, crianças perseguindo galinhas e seus filhotes. 

Apenas um parque – árvores, gentes e bichos. 

Via raízes invadindo o concreto e se espalhando pelo mundo. Imagem comum, sedutora demais para mentes cansadas. 

Respirava, diferente – deixar-se ser. A realidade era uma grande caixa cinza após longos caminhos cinzas. Uma vida de pó. 

Gostava de observar os animais. Sabia que a natureza não é cintilante. Via com certa dor a crueza da vida. 

Mas era vida. 

Buscava o mesmo em sua humanidade – uma leitura clara. 

Gostava de olhar: a natureza não estava lá e ela estava, cansada. 

Decidia. Fincar os pés, não mais apenas provocar. 

Seria alguém que também é terra.






quarta-feira, 14 de outubro de 2015

458 pedras




Sara carregava as pedras. Ela talvez fosse forte porque, apesar de não ficar em pé, ficava ali, resistente. Não que servisse para muito, pedras são sinuosas. Ficavam todas em Sara, mas continuavam por aí, no mundo. O dobro de dor numa dor só.

Ela pedia mais, queria mais e buscava mais. Quando não achava, sentia um vazio pior que qualquer toda dor do mundo. Um buraco e ela não sabia viver sem preencher os seus. 

Vivia carregando 458 pedras, das que vieram depois, perdeu as contas. Ia se arrastando, esforçando-se para as pernas não quebrarem, para as pedras não caírem, para manter a cabeça erguida à procura. 

Os passos estavam ali, mas quem olhasse veria falta de movimento. Se olhassem para sempre, veriam passos milenares. Curtos, com pés que quase não se levantam. 

Adorava pedras. Para outros, pareceriam todas iguais; para Sara, cada uma era singular e todas igualmente belas. Muitas pedras. Desamor. Era quase um vício, como os outros. Buscava o sofrimento, mas não suportava senti-lo, então, as substâncias. 

Andava exibindo seu casaco de dor, pior que qualquer casaco de pele porque eram todos juntos. Um dia, seus pés se desmancharam e ela andou de joelhos. Mas seus joelhos também não podiam suportar e viraram pó. As pedras caíram e começaram a seguir na direção de quem estivesse por ali. Primeiro, os que mais amava, depois os que cruzavam o caminho. 

Sara, coletora de pedras, não poderia deixar as suas em outros. Esse pensamento a fazia se desmanchar mais, por isso, precisou olhar em outra direção. Alguns aceitaram porque a amavam e o amor ainda existe. 

Procurou ajuda. Muitas erradas e por tanto tempo. Encontrou três certas que disseram a mesma coisa. Ela não podia carregar todas as pedras do mundo. Podia carregar talvez as suas e apenas as solúveis. As outras, deveria deixar ir. 

Não queria, mas as pedras escapavam de suas mãos transparentes, caindo sobre as costas de quem não as tinha pedido, mas as aceitava. 

Enfim ela parou e lentamente reconstruiu joelhos, não como passos, não milênios, talvez séculos. Depois, foi a vez dos pés renasceram frágeis e pequenos para um corpo humano. Fizeram com que Sara se sentisse forte – tinha muito mais do que estava acostumada a conhecer. Até sorria e começou a recuperar pedras que havia perdido, o que era justo. Seus pés doeram. Estavam acostumados à dor. 

Vendo que ainda andava, voltou ávida ao vício de coletar pedras, que a receberam como quem encontra um grande amigo. Cambaleava, andava e era bom. 

Mas o cambalear ficou cada vez mais presente e os pés que nem tinham terminado de estar inteiros já começavam a se desfazer. Mais uma vez.

E Sara ouviu das três ajudas a mesma coisa. Ela não podia carregar todas as pedras do mundo. Podia carregar talvez as suas e apenas as solúveis. As outras, deveria deixar ir. 

Ouviu das três ajudas muitas vezes a mesma coisa. Ouviu o mesmo de uma baiana, de uma criança e de um cigano. E ouviu das pessoas que a amavam. Foram palavras duras em seu desespero que as pedras deixassem seu peso. Ela ouviu sempre, olhando as pedras, olhando os mundos, olhando as pessoas, em seu êxtase de sacrifício. O mundo não ajudava, sempre cheio de mesquinhezes e grandezas das mais assustadoras que Sara tomava para si, mesmo que estivessem do outro lado, mesmo que ela fosse uma só e bem pequena. 

O dilema.

Porque, como disseram, rir estava em sua essência, mas ela também não podia desperdiçar a dor. Não nesse mundo. 

Então ela fechou os olhos, ouviu de novo e encontrou verdades que não sabiam o que fazer. 

Por isso, escreveu este texto. 

E colocou as pedras aqui.

Para conhecer meus livros, acesse www.mahanacassiavillani.com.br

sábado, 3 de outubro de 2015

Fazes-me falta, alguma vez te disse?


Inês Pedrosa, que que é essa mulher? Gente do céu. Dá vontade de só colocar um monte de citação pra todo mundo chorar das coisas lindas que ela escreve.

A Inês Pedrosa é um escritora portuguesa contemporânea. No site dela, diz que ela ganhou o Prémio Paridade da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género - nem sei o que é, mas pelo nome já gostei.

Por enquanto só li dois livros e um conto, mas rapidinho essa escritora fantástica entrou na lista dos preferidos. Lendo resumos ou contracapas dos livros, eu ficaria com preguiça. Tenho preconceito com histórinhas de amor (não consigo nem evitar o diminutivo pegajoso)... O problema é que muito romance, tanto em livros quanto no cinema, é machista e totalmente escroto, então acaba ficando difícil não confundir a representação (mal-feita) com a coisa em si.

A Inês Pedrosa fala muito de amor e de uma forma tão bonita que dói. Mas ela não fala só disso - nos livros dela tem injustiça social, preconceito e várias merdas desse nosso mundo. Tenho a impressão de que os problemas das personagens vão muito além de problemas pessoais, sendo quase que um "tratado filosófico" bem entre aspas, mas enfim...

Fazes-me Falta é a história do diálogo de uma mulher jovem que morre inesperadamente e de seu amigo mais velho que fica. É sobre perder oportunidades, não conseguir se conectar e nem mesmo se comunicar. 

Não dá. É impossível descrever. Vou colocar as citações. As muitas citações. 




Descansa em paz. Fizeste uma morta bonita - mais bonita e serena do que alguma vez foste, cachopa. Compuseram-te a imagem. Disso vivem as figuras públicas, mesmo na morte. Viva a imagem. Talvez fosse melhor não te ter visto, não ter beijado a tua testa. Agarrei-me a essa derradeira nota do teu calor. Ficaste-me com um travo a incenso e flores mortas. O cheiro do amor vedado que abandonáramos pela paisagem da nossa pré-história. Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim, que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar. 


O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus


Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam.


E se o céu for o desencanto em que crês? E se a nossa amizade mal vivida não couber na perfeição do céu? Deixa-me ser apenas a beleza magoada da tua vida, enquanto a vida for tua


Os meus passos não criam eco, a minha voz não tem sombra. É a ti que vejo porque não consigo deixar de te pensar. Queria desvendar o Grande Mistério: como vive ele, longe de mim?


(...) eu queria agora dar-te o amor total e infantil que tinha para te dar. Racionei-o a vida inteira como a porra do chocolate de leite _ por que vivemos como se o tempo nos pertencesse infinitamente, como se pudéssemos repetir tudo de novo, como se pudéssemos alguma coisa?


Organizei minha existência por iluminações. Desta forma, todo o amor e todas as vitórias me eram permitidas: já estava morto. Estrangulava as paixões no berço, o que tem a vantagem de as tornar estéreis.



Demasiado tarde. São estas as palavras mais tristes de qualquer língua.

Tu não estás só - não me sentes, real amiga imaginária? Distribui a dor que te deixei pelos famintos de dor, meu querido, pelos que não experimentaram ainda a mobilização do sofrimento. Faz-me existir nesse trabalho de conferir beleza aos dias póstumos. Havia uma criança abandonada chorando por detrás da porta, no centro da nossa cidade. Havia uma criança que acabou por morrer de fome, arranhando a porta, sem que os vizinhos, ouvindo esse choro incessante, se movessem. E se nessa criança habitasse o segredo derradeito da teoria quântica? Há tão poucas pessoas cujo talento possa salvar-nos - e nem sequer sabemos descobri-las e salvá-las. Consolamo-nos na beleza imediata das coincidências, escapa-nos a beleza catastrófica dos acasos.


- Sei que é um momento difícil , mas disseram-me que era um dos seus melhores amigos.
Confirmaste: é por isso mesmo que não falo dela. Continuarei apenas a falar com ela.


Como é que, de um dia para o outro, a sua voz deixou de me procurar e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?


Deus é misericordioso; põe-me diante de ti, em vez de me despachar a alma para um desses países onde as mães mutilam as próprias filhas, cortando-lhes o próprio sexo à faca e cosendo-as com espinhos. Ouço continuamente o grito dessas meninas _ acordei com eles a vida inteira. Abria os olhos escutando concretamente esses gritos vindos da Somália ou do Sudão, esses gritos que podiam ser meus.


Quero por o livro inteiro aqui.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Minas na Literatura




Virginia Woolf

Então, né? Não existe mais machismo. Feminazi é tudo doida, vitimista, mimimi.  Pois é, eu quero ser escritora. Ou sou, não sei bem como funciona isso. Fiz letras e tenho quase pós – não fiz a monografia, mas cursei todas as matérias.

J.K. Rowling
Um dia pedi indicações de literatura contemporânea para um professor. Ele mencionou vários escritores, mas, grande surpresa, nenhuma escritora. Perguntei se ele não tinha nenhuma escritora para indicar, mas ele não conseguiu se lembrar de nenhuma. Fiquei meio puta, achei meio absurdo.

É muito absurdo.

Numa universidade, falando com especialistas e nada.

Clarice Lispector
Em uma pesquisa feita por Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), constatou-se que cerca de 93,9% dos escritores são brancos, 72,7% são homens, 47,3% moram no Rio e 21,2% moram em São Paulo.

Desses dados surgem duas possibilidades.

Primeira. Homens brancos residentes no eixo Rio-São Paulo são melhores e têm mais inclinação para a literatura que os demais brasileiros.

Segunda: preconceito. Talvez os não-homens-brancos-Rio-São-Paulo não tenham as mesmas oportunidades.

O que será? Hmmm...


Maya Angelou
Eu sempre tento ler obras escritas por mulheres, negros, LGBTs, mas, mesmo assim, entre meus livros a maioria é de autoria dos ditos cujos: homens brancos Rio-São Paulo. Se alguém te pedisse pra listar cinco escritores contemporâneos – contemporâneos mesmo, que estão publicando agora – quantos deles seriam mulheres? Negros? Trans?

Tá feia a coisa... Passou da hora de todo mundo ter voz, representatividade, protagonismo e tudo a quem tem direito. Imagina que delícia ler o mundo sob outras perspectivas?

Quem sabe as coisas mudam um pouquinho... já passou da hora.




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Os Ricos Também Morrem



Acho que estou ficando velha. Sabe aquelas pessoas que dizem: Meu Deus, onde esse mundo foi parar? Tô dessas. É tanta coisa errada acontecendo ao mesmo tempo que a gente acaba se alienando ou enlouquecendo. 

É tanta tragédia junta, é tanta gente sofrendo. O mundo tá com overdose de desgraça e muita gente não liga e quem liga quase sempre tá perdido. Não sabe muito bem o que fazer. Sou dessas também.

Por tudo isso, quando fui ler Os Ricos Também Morrem, do Ferréz, preconceituosamente esperava mais um conjunto de tristezas no papel. Apesar da vontade de ler e conhecer, tinha essa mentalidade, achei que seria apenas mais uma dose, fraca demais pra fazer efeito, de tudo aquilo que já vejo todos os dias nos jornais, nas ruas, nas pessoas. 

Estava errada, ainda bem.

Pra quem não sabe, Ferréz é um expoente da chamada literatura marginal. À margem, fora do centro. Um bom exemplo desse tipo de literatura é a obra de Paulo Lins, Cidade de Deus, que virou filme e fez muito sucesso. Ferréz cresceu e vive até hoje em Capão Redondo, São Paulo, local que possui todos os problemas bem conhecidos das periferias. 

Heloísa Buarque de Holanda, em um texto sobre literatura marginal, que pode ser encontrado aqui, diz o seguinte:  

O que surpreende nos livros de Ferréz é, sobretudo, a inversão do lugar da violência. Em vez de ser tema da narrativa, a violência é apenas o entorno, a condição de vida de personagens comuns que, como nós, têm emoções, prezam a família, amam, têm ciúmes, fazem sexo e sonham com um futuro mais tranqüilo. Isso é um choque para o leitor que não vive nos cenários do crime e termina promovendo uma forma de identificação ou, pelo menos, entendimento, do personagem agressor, ainda não conhecida na nossa literatura. 

Os Ricos Também Morrem é um livro de contos impressionantes que rehumanizam pessoas que a gente teima em desumanizar. 

Prato Feito, que fala sobre a relação patrão-empregado e toda essa história da exploração, é genial e descreve uma revolta que apesar de muito particular, é de quase todos.

Pensamentos de um "Correria" me lembrou muito um certo causo com o Luciano Huck ;)

Reportagem foi o que mais gostei. Doeu ler e me reconhecer e reconhecer o mundo nesse conto:

E desde quando você parou?
Foi há alguns anos, acho que uns 4.
Alguém da sua família passou por isso antes?
Não que eu me lembre.
E foi aos poucos ou você deixou de uma vez?
Deixei de uma vez, logo que entrei, foi uma manhã, me lembro como se fosse hoje.
Foi com coisas pequenas, primeiro, ou é tudo a mesma coisa.
É a mesma, mas em algumas situações eu me surpreendo.
E as pessoas duvidam?
Quase sempre, mas eu não ligo.
Você não expressa nada mesmo?
Nada, em nenhum lugar.
Como é seu dia a dia?
Acordo, vou pra academia, depois me levam para lá, onde tudo começou.
E como é sua rotina lá?
Ando, converso, tomo capuccino, mas principalmente faço muitas reuniões.
E lá também você passa por isso?
Sim.
E onde mais?
Na rua, em casa, em qualquer lugar que vou.
No serviço as pessoas são assim, tem esse mal também?
Acho que sim, esses dias a mulher que faz o café caiu e torceu a perna, e todos passaram sem fazer nada.
Você fez?
Eu não.
E pensou algo?
Não.
Nem por um segundo?
Bom, pensei que tinha 2 minutos para procurar outro café.
Sua família, como reage?
Eles estranham, perdi uma festa de aniversário do meu filho, aí deu problema.
E o que você sentiu?
Nada.
Nem no caso da família?
Nada.


Morri.